Em 1965, o Governo da Indonésia cai às mãos de um golpe militar que, durante a transição para a “Nova Ordem” (liderada pelo General Suharto), e com o apoio dos EUA, dá início a uma purga anticomunista que seria responsável pela execução de mais de um milhão de pessoas.

Os esquadrões da morte de Suharto, que permaneceria 31 anos no poder, não chacinaram apenas membros do ex-Partido Comunista do país, mas também elementos da etnia chinesa e intelectuais, num dos mais bárbaros massacres do século XX – e talvez o único desta dimensão que nunca foi, de facto, trazido à justiça, já que o sistema político na Indonésia continua hoje, essencialmente, ancorado nos mesmos princípios e no mesmo punho de ferro.

O documentarista americano Joshua Oppenheimer passou os últimos dez anos da sua vida na Indonésia. Começou por procurar e filmar os sobreviventes dos massacres de 1965-1966, conhecendo o ponto de vista deles sobre aquela história terrível, mas poucos resultados obteve daí: esses sobreviventes vivem ainda com demasiado medo para falarem abertamente do assunto.

No terreno, o cineasta acabou por perceber que talvez o seu filme se tornasse numa experiência mais fiel – e muito mais poderosa – à realidade histórica se fossem, não as vítimas, mas os carrascos a contarem a verdade. Joshua não tardou a encontrá-los. Sem surpresa, os carrascos continuam hoje no poder, ou a ele ligados.

O facto de Joshua, neto de judeus sobreviventes do Holocausto, ser americano (num país que, de ponta a ponta, venera a América) terá facilitado o trabalho do cineasta, que encontrou gente disposta a contar, tim-tim por tim-tim, como e quando matou e porque matou.

Esses carrascos, acrescente-se, são heróis nacionais que costumam ir a talk shows na TV. Gozam do estatuto de figuras públicas. São idolatrados por crianças. Nunca responderam pelos crimes contra a humanidade que cometeram. Afinal, na Indonésia, aquele genocídio mantém hoje a reputação que teve ontem: é considerado uma “batalha patriótica”.

Quando souberam das intenções do cineasta, quando descobriram que, durante a rodagem, Joshua e a sua equipa, a medida que evoluíam no filme, podiam estar a meter a cabeça no cepo, Werner Herzog e Errol Morris, cineastas que dispensam apresentações, decidiram entrar na produção e ajudar o realizador a concluir o trabalho. Foi pois a partir deste longo período de amadurecimento e reflexão que nasceu “The Act of Killing”, uma co-produção entre a Dinamarca, a Noruega e o Reino Unido.

O filme estreou no final do ano passado no CPH:DOX, em Copenhaga, vencendo esse festival vocacionado para o documentário. Berlim exibiu-o agora, na secção Panorama, lançando-o para uma plateia internacional, que ficou gelada – e este é já um dos pontos mais altos desta Berlinale.

O filme levanta questões essenciais: como filmar um extermínio? Como lidar com a sua memória? Como medir o alcance das suas consequências? Joshua vai essencialmente centrar-se no depoimento de Anwar Congo, líder de um dos esquadrões da morte do norte da Sumatra, hoje septuagenário.

Congo é um homem perturbado – diz-se assaltado por pesadelos que não o deixam dormir. Fantasmas de homens que ele estrangulou e decapitou. E recorda como, nos anos 60, era um pequeno gangster, fascinado pelo cinema americano, de Marlon Brando a John Wayne, e de como os comunistas, que tentavam banir os filmes americanos das salas, “lhe prejudicavam o negócio.”

Congo entrega-se depois a uma extraordinária teatralização da brutalidade, veste até a pele das vítimas que executou, mergulhando no seu próprio sofrimento, encenando como as cenas de tortura, até às execuções, eram praticadas, num gesto que é em tudo uma tentativa de expiação da sua própria consciência.

Digamos que Congo é uma personagem que permanece fiel ao filme que está a fazer. Reconhece os seus crimes? A questão é mais complexa do que isso: é que Congo sabe que não será julgado pelo que fez. Vive nesse conforto. O seu conflito é interior. E a patologia do caso individual tem a escala de um país inteiro.

O filme de Oppenheimer não é tão incisivo, nem tem uma linha de raciocínio tão organizada como a de “S-21, A Máquina de Morte dos Khmers Vermelhos” (2003), uma obra-prima em que o cambojano Rithy Panh, partindo de base semelhante, abordou os massacres do regime de Pol Pot. De qualquer forma, são casos muito diferentes: é que, na Indonésia, o trauma vive-se ainda no presente.

Os fantasmas ‘ainda estão à solta.’ Em entrevista que guardarei para um diálogo mais oportuno com os espectadores (desconheço à data se os direitos do filme já foram adquiridos por algum distribuidor nacional), Joshua Oppenheimer diz não acreditar poder voltar à Indonésia, embora esteja a tentar que o filme estreie nas salas do país, com poucas hipóteses de êxito (o cinema na Indonésia passa pelo crivo da censura).

A pedra, no entanto, já está lançada. “The Act of Killing” já começou a levantar o debate “and there’s no going back after that”, disse Joshua.

Suspeitamos que este é um catalisador que vai tornar-se delicado para Jakarta. Há quem pense que a arte não pode mudar o curso do mundo mas “The Act of Killing”, filme precioso, é um daqueles casos destinado a provar o contrário.

Mais informações no sítio web do filme e na revista “Courrier Internacional” de fevereiro já nas bancas.

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/the-act-of-killing-a-chacina-dos-comunistas-contada-pelos-carrascos=f786474#ixzz2ddNEdiE4