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Vítima e algoz contra bombas atómicas


DESARMAMENTO

DESARMAMENTO:
Vítima e algoz contra bombas atômicas
Thalif Deen

Nova York, 26/05/2009, (IPS) - Os Estados Unidos, único país a lançar um ataque militar com armas nucleares, e Japão, o único que o sofreu, terão de tomar a iniciativa para criar uma convenção internacional que proíba todo armamento atômico, segundo um histórico ativista pelo desarmamento.

A associação budista Soka Gakkai Internacional (SGI), com sede em Tóquio e mais de 12 milhões de membros em 192 países, pretende intensificar sua campanha global par a abolição das armas nucleares.

A campanha começou em 1957, tomou novo impulso depois da declaração pública do presidente norte-americano, Barack Obama, em Praga no mês passado de que seu país “daria passos concretos para um mundo sem armas nucleares”. O presidente Obama, “pela primeira vez claramente, encarou a responsabilidade moral dos Estados Unidos, o único país que usou armas nucleares”, disse o diretor-executivo do Escritório de Assuntos de Paz da SGI na capital japonesa, Hirotsugu Terasaki.

Durante visita a Nova York para participar de uma reunião do comitê preparatório da Conferência de Revisão do Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP) de 2010, afirmou: “Como o único país que sofreu o uso de armas nucleares, creio que o Japão deve responder a isto reafirmando sua própria responsabilidade diante do futuro da humanidade”.

IPS- O mundo está mais próximo de um desarmamento do que antes, particularmente no contexto da administração de Obama? Hirotsugu Terasaki- A recente declaração do presidente Obama é um muito bem recebido chamado ara a concretização de um mundo sem armas nucleares. Isto gerou um importante ímpeto para a abolição dos arsenais, que agora está sendo debatida com grande seriedade em um clima novo e diferente. Agora existe uma real oportunidade de mudar a corrente da história. Neste momento, o mais importante são metas claras e ações firmes com base em um senso de esperança. Quando um mal social continua por muito tempo, certo sentimento de impotência e resignação começa a infectar a mente das pessoas. Para nos livrarmos disto é fundamental que as pessoas recuperem um senso de esperança e confiança, a cresça de que podemos conseguir se tentarmos. Quando há uma transformação na consciência das pessoas comuns em todo o mundo, acelera o progresso para a abolição nuclear, gerando o momento oportuno ao qual que nenhum governo pode resistir.

IPS: A quanto chega sua confiança de que outras grandes potências nucleares, especificamente China, Grã-Bretanha, França e Rússia, cooperem com Obama para reduzir o papel das armas nucleares em suas estratégias de segurança nacional e para acabar com os testes atômicos? HT- Há inúmeros exemplos de metas alcançadas que no começo pareciam completamente impossíveis. Podemos voltar à abolição da escravidão no século XIX. Na década de 90 vimos a assinatura de um tratado proibindo as minas terrestres e, mais recentemente, o processo de Oslo produziu um acordo contra as bombas de fragmentação. Cada um destes tinha sido rechaçado antes como um ideal inatingível, mas no final todos se concretizaram. Da mesma forma, tenho confiança de que podemos proibir as armas atômicas.

IPS- Está perto da realidade atual a criação de uma convenção internacional contra arsenais nucleares? HT- Quando se trata de dar poder às pessoas, um elemento-chave é estabelecer metas firmes e facilmente alcançáveis. Neste sentido, é vital que trabalhemos para uma Convenção sobre Armas Nucleares que as proíba por completo. Certamente espero que Estados Unidos e Rússia negociem profundas reduções em seus arsenais atômicos até o final deste ano. Mas, do meu ponto de vida de cidadão médio, a existência de uma única arma nuclear significa que há a possibilidade de ser usada, com efeitos absolutamente devastadores. Por isto necessitamos conseguir uma abolição completa. Temos de avançar e simplesmente lutar para proibir as armas mais desumanas de todas. Uma convenção esclareceria os imperativos morais e serviria como algo em que as pessoas pudessem se apoiar.

IPS- Quais são as reais perspectivas de os países nucleares aceitarem um tratado desse tipo? HT- Aqui, novamente, muitos dirão que esta meta é irreal, que os países que possuem armas nucleares não aceitarão um tratado proibindo arsenal atômico, mas a adoção de um tratado semelhante, mesmo sem plena participação no início, poderia mudar fundamentalmente o clima político. Estabeleceria o fato de estas armas serem moralmente inaceitáveis. Criaria um estigma sobre as armas nucleares, para que os Estados virem que não é algo que dê prestígio nacional, mas que afeta sua posição na comunidade mundial. Não podemos subestimar o significado que teria países que hoje contam com armas nucleares renunciarem ao seu enorme poder destrutivo e dissuasivo. Esta opção, que se aplica igualmente a nações que se refugiam sob o poder nuclear de outros, seria uma prova irrefutável de que, com espécie, os seres humanos não devem ser servos das tecnologias que nós mesmos inventamos. Não posso pensar em outra meta mais clara e mais esperançosa do que esta.

IPS- Qual é o foco de sua campanha antinuclear? HT- Em agosto de 2006, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, fez um chamado à ação ao povo do mundo para a abolição. Em setembro de 2007, a SGI lançou a iniciativa Década do Povo para a Abolição Nuclear. Através de exposições, vídeos e sites, estamos trabalhando para desenvolver ferramentas a fim de atingir o público internacional e par a educação que, esperamos, inspire e dê mais poder às pessoas e à sociedade civil como um todo. Sentimos que é imperativo a população mundial e a sociedade civil poderem assumir a liderança para garantir uma base popular a fim de exigir a abolição nuclear e se fazer ouvir pelos políticos.

A maioria das pessoas não aceita a necessidade de continuar gastando enormes recursos financeiros e técnicos para desenvolver, instalar e manter armas cujo único propósito é um massacre indiscriminado. Desde a perspectiva das pessoas em suas necessidades de “segurança humana” – coisas como água, alimento seguro e atenção médica – há maior loucura do que fabricar a manter arsenais nucleares?. Tenho confiança de que quanto mais pessoas estiverem conscientes desta realidade das armas atômicas, mais firmemente as rechaçarão. IPS/Envolverde