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Livros importantes a fim de combater a nossa


UN ARTIGO DE JOHN PILGER

Vivemos tempos extraordinários. Caixões embrulhados em bandeiras, com soldados de 18 anos mortos numa invasão fracassada, ilegal e vingativa, desfilam ao longo da uma avenida de Wiltshire. A vitória no Afeganistão está próxima, diz o sardónico Gordon Brown. No programa Newsnight da BBC, o heróico polícia militar afegão, Malalai Joya, no seu inglês limitado, tenta contar ao público britânico que o seu povo está a ser reduzido a pedaços em seu nome: 140 aldeãos, na maioria crianças, na província de Farah. Para eles não há desfile. Não têm nomes nem rostos. A escamoteação do sofrimento das vítimas coloniais da Grã-Bretanha e da América é um artigo de fé dos meios de comunicação, uma tradição tão entranhada que não necessita de instruções.

A diferença hoje é que a maioria do povo britânico já não se deixa enganar. Os leitores fanáticos de jornais podem dizer "A determinação dos britânicos está a ser posta à prova" como se a Luftwaffe estivesse de novo no horizonte, mas as suas próprias sondagens (BBC/ITN) mostram que o descontentamento popular com as guerras no Afeganistão e no Iraque é mais profundo nas comunidades em que se recrutam adolescentes para ali combaterem. O problema com o público britânico, diz um major reformado do exército no Channel 4 News, é que precisa "de ser formado e educado". Claro que precisa, escreveu Bertolt Brecht em A Solução, explicando que o povo…
Perdera a confiança do governo
E só à custa de trabalhos redobrados
A poderia recuperar. Não seria mais fácil
Então que o governo
Dissolvesse o povo
E elegesse outro?
No seu clássico moderno Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media  Edward S Herman e Noam Chomsky descrevem como, nas sociedades livres, a propaganda de guerra é "filtrada" pelas agências dos meios de comunicação, não como uma consciente "intervenção grosseira, mas através da selecção de pessoal que pensa politicamente correcto e pela interiorização, nos jornalistas profissionais e nos editores, das prioridades [da elite] e do que está definido como sendo importante para os noticiários". Na sequência da invasão do Vietname pelos Estados Unidos, em que foram mortas pelo menos três milhões de pessoas e em que aquele território, outrora fértil, ficou em ruínas e envenenado, os arquitectos de futuros festivais sangrentos inventaram o "sindroma do Vietname", que identificaram perversamente com uma "crise de democracia". A "crise" era que a "população em geral ameaçava participar no sistema político, questionando os privilégios e o poder instituídos". O Afeganistão e o Iraque também têm agora os seus sindromas.

Tendo isto presente, aconselho respeitosamente os leitores a pôr de lado a leitura dominical das páginas de comentários dos jornais, cheias de arrogância social, e a ler, ou a ler de novo, livros tão importantes como Manufacturing Consent, que ajuda a perceber estes tempos extraordinários.

Como Herman e Chomsky descodificam principalmente os meios de comunicação americanos, um companheiro ideal é o Newspeak in the 21st Century  , de David Edwards e David Cromwell. Os fundadores e editores do excelente website www.medialens.org apresentam uma dissecação fluente dos meios de comunicação britânicos, utilizando o tipo de rigor que envergonha os que proclamam a sua imparcialidade e a sua independência do poder legal. Leiam também A Century of Spin: How Public Relations Became the Cutting Edge of Corporate Power  de David Miller e William Dinan, que descreve a ascensão de um "governo invisível" inventado por Edward Bernays, sobrinho de Sigmund Freud. "A propaganda", diz Bernays, "é uma palavra mal conotada por causa dos alemães, por isso o que fiz foi tentar encontrar outras palavras". As outras palavras eram "relações públicas", que dão cabo hoje de grande parte do jornalismo.

A última façanha das RP é o "fenómeno Obama". Em Barack Obama And The Future Of American Politics  , Paul Street faz cair a máscara num livro, talvez o único, que conta a verdade sobre o 44º presidente dos Estados Unidos.

Querem rir mais? Catch-22   de Pack Joseph Heller, um trabalho sem igual na demolição das idiotices e mentiras dos assassinos que promovem as guerras. Vejam só:
"Seja quem for" diz o Dr. "Doc" Daneeka, "que queira deixar de combater não é nada doido, por isso não posso mantê-lo em terra.
Yossarian: "OK, deixe-me ver se percebo. Para poder ficar em terra, eu tenho que ser doido. E de certeza que sou doido se continuar a voar. Mas se eu pedir para ficar em terra, é porque já não sou doido e tenho que continuar a voar."
"É isso mesmo…" disse o Dr. "Doc" Daneeka.
O igualmente macabro, ousado e hilariante Slaughterhouse-five  de Kurt Vonnegut é outro dos meus livros de guerra preferidos:
"Como é que está o paciente) perguntou [o coronel].
"Inanimado".
"Mas não está mesmo morto".
"Não"
"Que bom – não sentir nada e mesmo assim ter pleno direito a estar vivo".
A Faber publicou recentemente Various Voices: Prose, Poetry, Politics, 1948-2008  de Harold Pinter. É uma pérola de Pinter sobre todas as coisas, desde Shakespeare, o críquete à noite e as meias de Arthur Miller até ao grande poder criminoso:
Nunca aconteceu. Nada disso aconteceu. Mesmo quando estava a acontecer não estava a acontecer. Não interessa. Não tinha interesse. Os crimes dos Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, depravados, desumanos… embora mascarados de força para o bem universal. É um acto de hipnose brilhante, genial mesmo, com enorme êxito.
Se ainda não leram, The Heart Is a Lonely Hunter  de Carson McCullers é um prazer raro: uma visão da humanidade expressa de modo tão preciso, tão belo, tão honroso, e no entanto quase casual. Na "inconsequência provocante" (F Scott Fitzgerald) da degenerada ficção moderna, ninguém toca em McCullers ou em Pete Dexter, cujo Paris Trout  é o grande livro, que ninguém elogiou, da América do Sul, ou em Richard Ford, cujo Rock Springs  , entre outras obras dele, é uma colecção de mestre, sobre os mistérios entre homens e mulheres. E não esqueçam L'étranger  de Albert Camus, sobre um homem que não é fingido: uma parábola para os dias de hoje.