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Problemas diplomáticos con Israel


O ESCÁNDALO DO TRÁFICO DE ÓRGAOS

Em um momento em que o governo sueco só quer paz para tocar a presidência da UE, explode mais uma crise diplomática com Israel.
Vamos aos fatos.
Na edição de segunda, 17 de agosto, do Aftonbladet, um dos jornais vespertinos de Estocolmo, o jornalista Donald Boström publica um texto com o título “nossos filhos têm seus órgãos roubados”.
O artigo é publicado justo após o escândalo em torno de Levy Izhak Rosenbaum, morador de Nova York que teria confessado, no final do mês de julho, negociar com órgãos procedentes de Israel há mais de dez anos, cobrando até 160 mil dólares por um rim.
No texto, Boström relembra suspeitas antigas de que militares israelenses retirariam órgãos de jovens palestinos, “abatidos em combate”, para “doação”.
O autor conta sua experiência nos anos 90, quando entrevistara famílias na Faixa de Gaza. Os entrevistados reagiam contra a forma como os corpos de seus filhos, mortos por militares israelenses, eram devolvidos à noite, em segredo, depois de vários dias, com cicatrizes de operações.
A explicação oficial era que se faziam autópsias dos corpos. Mas muitos desconfiavam que seus filhos estavam sendo vítimas do comércio ilegal de órgãos.
O artigo de Boström havia sido escrito há muitos anos, mas o escândalo do tráfico ilegal de órgãos nos Estados Unidos abriu a oportunidade para se reviverem as dúvidas e se recolocarem sobre a mesa perguntas e pedidos de explicações a Israel.
Boström não discute, em seu texto, até que ponto órgãos de pessoas mortas nas condições prevalescentes nos territórios ocupados seriam adequados para transplantes... Limita-se a passar adiante as suspeitas da época. E o assunto é muito quente para permitir raciocínios claros sobre o teor da acusação.
A reação não se fez esperar e o artigo do jornalista transformou-se rapidamente em escândalo internacional. A Embaixadora da Suécia em Israel, contra as instruções do Ministério das Relações Exteriores, soltou uma nota criticando a publicação. E aí, apesar das tentativas do Ministro Carl Bildt para acalmar os ânimos, o escândalo ficou maior ainda.
É que, na Suécia, a liberdade de expressão e publicação é direito sagrado. Não cabe a nenhuma autoridade criticar a publicação de um artigo de jornal.
Da mesma forma que o Primeiro Ministro da Dinamarca se recusou a pedir perdão pela publicação das caricaturas de Maomé, também as autoridades suecas têm o dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam.
O problema é explicar tudo isso ao Embaixador de Israel na Suécia, que exige, em nome de seu governo, uma crítica ao Aftonbladet e um pedido formal de desculpas do governo sueco.
Em Israel, sobram as ameaças de impedir o trabalho de jornalistas suecos, negando-lhes vistos de entrada. E na Suécia, enquanto explodem as críticas à Embaixadora que condenou a publicação, o jornal Aftonbladet reage ao que considera um ataque à liberdade de imprensa.
Não faltou, em Israel, quem lembrasse o comportamento da Suécia durante a Segunda Guerra Mundial. E voltaram a aparecer críticas a um suposto antissemitismo da sociedade sueca. A simpatia de políticos suecos - principalmente Olof Palme - à questão palestina também foi relembrada.
O pano de fundo de tudo isso é a liderança da Suécia na União Europeia, neste segundo semestre de 2009. Um dos objetivos da UE é fortalecer o papel da Europa no Oriente Médio, aproveitando a mudança na linha diplomática norte-americana. A ideia é aumentar a pressão para que Israel aceite um Estado Palestino.
O incidente diplomático não está resolvido. E a reação irada de Israel pode estar justamente vinculada ao interesse em limitar a influência europeia na eterna crise do Oriente Médio.
Mas, além de boicotar as lojas IKEA e criar dificuldades para o trabalho da imprensa sueca em seu país, não há muito que os israelenses possam fazer contra o direito de a imprensa sueca publicar o que quiser, sem ter de apresentar provas para as graves acusações.
Mas, como não podia faltar um advogado na jogada, a última notícia é que o Aftonbladet está sendo processado. O advogado israelense Guy Ophir entrou com um processo contra o jornal, na Suprema Corte do Estado de Nova York. Pede 7,5 milhões de dólares como compensação pela calúnia contra judeus e o Estado de Israel. O processo não deve levar a nada.
Entretanto, sobrevive ao passar do tempo um mundo dividido entre judeus ou favoráveis a Israel e “nazistas” ou “antissemitas”.