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Normalizar o crime do século


MARK HIGSON E A AGRESIÓN AO IRAQUE

Tentei contactar Mark Higson outro dia, só para saber que havia morrido nove anos atrás. Tinha apenas 40 anos, um homem honrado. Encontrámo-nos logo após ele se haver demitido do Foreign Office, em 1991. Perguntei-lhe se o governo sabia que caças-bombardeiros Hawk vendidos à Indonésia estavam a ser utilizados contra civis em Timor-Leste.

"Toda a gente sabe", disse ele, "excepto o parlamento e o público".

"E os media?"

"Os media – os grandes nomes – foram convidados à King Charles Street (o Foreign Office), bajulados e informados com mentiras. Eles não perturbam".

Como responsável pelo Iraque no Foreign Office, ele minutou cartas para ministros a reafirmar a deputados e ao público que o Governo Britânico não estava a armar Saddam Hussein. "Isto era pura e simplesmente uma mentira", disse ele. "Eu não podia aguentar isso".

Ao testemunhar no inquérito armas para o Iraque, Higson foi o único responsável britânico elogiado por Lord Justice Scott por contar a verdade. O preço que pagou foi a perda da sua saúde, do casamento e a vigilância constante por fantasmas. Acabou por viver de favor num micro-apartamento em Birmingham onde sofreu um ataque, que atingiu a sua cabeça e morreu solitário. Os denunciantes muitas vezes são heróis; ele foi um deles.

Ele veio à mente quando vi uma foto no jornal de outro responsável do Foreign Office, Sir Jeremey Greenstock, que foi embaixador de Tony Blair junto às Nações Unidas durante os preparativos para a invasão do Iraque em 2003. Mais do que ninguém, foi Sir Jeremy que tentou todas as trapaças para encontrar uma cobertura da ONU para o banho de sangue que estava para vir. Na verdade, esta foi a sua jactância junto ao inquérito Chilcot em 27 de Novembro, onde descreveu a invasão como "legal mas de legitimidade questionável". Que esperto. Na foto ele usava um sorriso forçado.

Sob o direito internacional, "legitimidade questionável" não existe. Um ataque a um estado soberano é um crime. Isto foi tornado claro pelo chefe da aplicação das leis da Grã-Bretanha, procurador-geral Peter Goldsmith, antes de o seu braço ser torcido, e pelos próprios conselheiros legais do Foreign Office e a seguir pelo secretário-geral das Nações Unidas. A invasão é o crime do século XXI. Durante 17 anos de assalto a uma população civil indefesa, velada com palavras melífluas como "sanções" e "zonas interditas ao voo" e "construção de democracia", morreram mais pessoas no Iraque do que durante os anos de pico do comércio de escravos. O revisionismo para salvar a pele de Sir Jeremy referia-se a "ruídos" americanos que eram "decididamente pouco prestativos para o que eu estava a tentar fazer [na ONU] em Nova York". Além disso, "eu próprio adverti o Foreign Office... de que podia ter de considerar a minha própria posição...".

Não fui eu, chefe.

O objectivo do inquérito Chilcot é normalizar um crime horrendo providenciando o suficiente de um teatro de culpa para satisfazer os media de modo que a única questão que importa, aquela do processo judicial, nunca seja levantada. Quando aparecer em Janeiro, Blair desempenhará esta parte com odiosa perfeição, absorvendo respeitosamente as vaias e assobios. Todos os "inquéritos" a crimes de estado são neutralizados deste modo. Em 1996, o relatório armas-para-o-Iraque de Lord Justice Scott obscureceu os crimes que as suas investigações e as volumosas provas haviam revelado.

Naquele tempo, entrevistei Tim Laxton, que havia comparecido em todos os dias do inquérito como auditor de companhias tomadas pelo MI6 e outras agências secretas como veículos para o comércio ilegal de armas com Saddam Hussein. Se tivesse havido uma investigação criminal plena e aberta, contou-me Laxton, "centenas" teriam enfrentado processo. "Eles incluiriam", disse ele, "figuras políticas de topo, muitos funcionários civis sénior até Whitehall ... o escalão de topo do governo".

Eis porque Chilcot segue as pisadas dos émulos de Sir Martin Gilbert, o qual comparou Blair a Churchill e Roosevelt. Eis porque o inquérito não exigirá a divulgação de documentos que iluminariam o papel de toda a gang britânica, nomeadamente do gabinete de 2003 de Blair, há muito silenciosa. Quem se recorda da ameaça do banditesco Geoff Hoon, "secretário da defesa" de Blair, de usar armas nucleares contra o Iraque?

Em Fevereiro, Jack Straw, um dos principais cúmplices de Blair, o homem que deixou o assassino em massa general Pinochet fugir à justiça e actual "secretário da justiça", ignorou a ordem do Comissário da Informação para o governo publicar minutas do gabinete durante o período em que Lord Goldsmith era pressionado a mudar o seu parecer de que a invasão era ilegal. Como eles temem as revelações.

Os media garantiram imunidade para si próprios. Em 27 de Novembro, Scott Ritter, o antigo inspector de armas da ONU, escreveu que a invasão "foi tornada muito mais fácil devido ao papel de idiota útil desempenhado por muitos dos medida de referência nos EUA e na Grã-Bretanha". Mais de quatro anos antes da invasão, Ritter, em entrevistas comigo e com outros, não deixou a mínima dúvida de que as armas de destruição em massa do Iraque haviam sido desactivadas, mas ele foi tornado uma não-pessoa. Em 2002, quando as mentiras de Bush/Blair ecoavam plenamente por todos os media, o Guardian e o Observer mencionaram o Iraque em mais de 3000 artigos, dos quais 49 referiam-se a Ritter e à sua verdade que podia ter salvo milhares de vidas.

O que é que mudou? Em 30 de Novembro, o Independent publicou uma perfeita peça de propaganda do seu homem incorporado (embedded) no Afeganistão. "Tropas temem a derrota em casa", dizia a manchete. A Grã-Bretanha, dizia a reportagem, "está em risco sério de se despistar no Afeganistão porque a ascensão do derrotismo em casa está a desmoralizar as tropas na linha de frente, advertiram comandantes militares". De facto, o desgosto público com o desastre no Afeganistão é reflectido entre muitos que servem nas tropas e as suas famílias; e isto apavora os feitores da guerra. Assim "derrotismo" e "desmoralizar as tropas" são acrescentados ao léxico melífluo. Boa tentativa. Infelizmente, tal como o Iraque, o Afeganistão é um crime. Ponto.