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O exército mais moral do mundo


DIFÍCIL RECORD

Ramalah, 26/3/2010, (IPS) - Muitos israelenses gostam de acreditar e repetir que seu exército é o “mais moral do mundo”.

Mas, depois da guerra contra a faixa de Gaza entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, que deixou 1.400 palestinos mortos, a maioria civis, alguns israelenses começaram a questionar essa afirmação. Além disso, a morte a tiros de quatro adolescentes palestinos no final de semana, em circunstâncias duvidosas, obrigou as Forças de Defesa Israelenses a investigar o incidente em meio a declarações contraditórias dos soldados envolvidos.

Nas últimas semanas, eclodiram protestos violentos em toda Cisjordânia, inclusive em Jerusalém oriental, contra a contínua política de judaização de Israel, que inclui a evacuação de palestinos de seus próprios territórios e de suas próprias casas para dar lugar aos colonos judeus. Outras medidas, destinadas a reduzir a presença demográfica dos palestinos, incluem a limitação das autorizações de construção, apesar da crônica escassez de moradia, e a demolição de casas construídas “ilegalmente”.

Os ânimos se exacerbaram quando o governo israelense anunciou seus planos de construir milhares de novas casas no leste de Jerusalém, e extremistas judeus trataram de entrar na mesquita de Al Aqsa, o terceiro santuário mais sagrado do Islã. Alarmadas com a instabilidade provocada pelas manifestações em povoados e cidades na Cisjordânia, as forças de segurança de Israel adotaram duras medidas contra ativistas de base, com detenções em massa e bloqueios em alguns povoados que são declarados zonas militares fechadas. Como as ordens de fechamento de áreas militares nas aldeias de Nilin e Bi’lin, perto de Ramalah, foram ignoradas, o exército começou a empregar a força letal, ali e em outros lugares.

Kelly Stark, um ativista norte-americano do Movimento de Solidariedade Internacional, recebeu um tiro à curta distância, de um projétil de borracha revestido com metal do tamanho de uma grande bola de gude. A lei militar israelense diz que as balas só podem ser disparadas de uma distância de 40 metros e nas pernas. Stark não participava dos protestos e nem atirava pedras contra soldados de Israel, e estava com um grupo de médicos. Teve de ser operada para extração da bala que fraturou seu pulso.

Ussayad Qaddous, de 19 anos, e seu primo Mohammad Qaddous, de 16, morreram no final de semana quando soldados israelenses usaram munição real para repelir os protestos no povoado de Iraq Burin, no norte da Cisjordânia. Os enfrentamentos eclodiram quanto os manifestantes palestinos tentaram ocupar as terras da aldeia que foram confiscadas por um assentamento ilegal israelense vizinho. Testemunhas oculares afirmam que os dois primos não se envolveram nos protestos e a calma voltou antes que os veículos militares entrassem na localidade, desatando novos choques.

Ussayad recebeu um tiro atrás da cabeça e Mohammad outro no peito. Os soldados israelenses inicialmente negaram o uso de munição real. Mas as radiografias e fotografias mostrando uma bala alojada no crânio de Ussayad e ferimentos de entrada e saída de projéteis no peito de Mohammad sugerem o contrário e foram corroboradas por médicos. “As forças de defesa usam dois tipos de bala de borracha. Uma tem forma de bola e outra é cilíndrica. A que está no crânio de Ussayad tem forma de prisma, pontiaguda. Isso é uma bala”, disse à Agência de Notícias Ma’na o ativista israelense Jonathan Pollack, da organização Anarquistas contra o Muro.

“Há um ferimento de entrada e saída de bala no peito de Mohammad e nenhuma bala de borracha no mundo pode causar tal lesão”, acrescentou Pollack, apoiado pelos médicos que examinaram os corpos. O exército israelense, finalmente, foi obrigado a se retratar e admitir que foram usadas balas reais, acrescentando que, se os soldados envolvidos não tivessem violado os procedimentos corretos, os primos estariam vivos. A organização israelense pelos direitos humanos B’tselem cobrou do exército uma investigação.

No dia 21, pouco depois dos disparos fatais em Iraq Burin, outros dois adolescentes palestinos, ambos de 19 anos, da aldeia vizinha de Awarta, foram mortos quando se dirigiam à sua terra de cultivo levando equipamentos de trabalho. Muhammad Faysal e Salah Qawariq foram acusados por soldados da mesma brigada responsável pelas mortes dos primos de serem “terroristas disfarçados de agricultores que os haviam atacado com cacos de vidro, garrafas cheias de pedra e até seringas”. O exército abriu uma investigação depois que a polícia militar israelense declarou que “os eventos em Awarta apresentam discrepâncias”.

A Coalizão contra o Racismo e o Mossawa Centre, que trabalha na promoção da igualdade em Israel, acusam o atual parlamento de ser o “mais racista desde a fundação do país”. No último ano foram apresentados 21 projetos de lei no sentido de discriminar cidadãos árabes, afirmam. Por exemplo, um projeto para prender por um ano quem publicar ou dizer algo que cause “desprezo ou mal-estar ao país”. Outros projetos propõem que só os judeus possam adquirir terras, ou que os nomes a todas as ruas do país estejam exclusivamente na língua hebraica. IPS/Envolverde