You are hereO véu exibicionista

O véu exibicionista


A REPÚBLICA CONTRA O BURCA

A utilização da mulher como bandeira de uma ideologia totalitária e a cumplicidade da Europa

‘A república contra o burca’ é o resumo do debate que o Parlamento da França mantivo desde o Verão passado: é preciso proibir o véu integral nas ruas? É com essa palavra que a Comissão definiu o que os afegaos chamam ‘burca’ e os sauditas ‘niqab’: um pano que cobre o corpo da mulher e não deixa ver nada à excepção dos olhos. É uma vestimenta habitual só nesses dois países, origem e trincheira da seita muçulmana wahhabi.
É só no século XX que a interpretação wahhabi, até então limitada ao interior da Peninsula Arábiga ―onde nasceu no XVIII― chegou a ser aceite noutros países, graças ao dinheiro do petróleo e à aliança com os EUA. O niqab não é uma tradição, mas o uniforme feminino da fação mais radical de um movimento político moderno conhecido como islamismo.
O hijab, um pano que só emoldura o rosto e cobre o decote, é uma variante da mesma bandeira: assinala o corpo da mulher como um elemento que é preciso ocultar ou demarcar no público. Determina o comportamento de quem o veste: não deve dar a mão aos homens, não deve ficar sozinha numa habitação com um homem, não dançará com os rapazes... e talvez nem sequer falará em voz alta na aula: tudo para não excitar a libido dos homens.
Este modelo de mulher, desconhecido na maior parte dos países muçulmanos, progressa rapidamente entre as camadas dos imigrantes de segunda geração na França, Alemanha, Inglaterra... Há quem o aceite voluntariamente, mas há muitas raparigas obrigadas a segui-lo: os irmãos (raramente os pais) ou os rapazes do bairro ameaçam, batem e, às vezes, assassinam as meninas que tentam rebelar-se.
Daí que seja cinismo comparar a expansão do hijab nos últimos 20 anos à moda da minissaia, como fazem alguns. Ninguém foi assassinado, encarcerado ou espancado por não vestir minissaia. Mas sim por não vestir hijab. Usar voluntariamente o hijab não é defender a liberdade de vestir, mas solidarizar-se com o carcereiro.
Mas, proibir? Uma proibição do véu integral seria utilizada pelos predicadores wahhabis como munição na sua luta contra a laicidade, denunciando a ‘islamofobia’ europeia. Por isso, alguns especialistas propõem que as câmaras municipais proibam fazer uso de prendas que ocultam a identidade humana (fora das festas do Carnaval). A motivação é simples: quem se recusa a mostrar o rosto recusa-se a ser um indivíduo dentro da comunidade humana. Coloca-se fora da legitimidade que a comunidade reconhece aos seus membros e identifica-se como delinquente. E é o papel de delinquente que a seita wahabi atribui à mulher: a sua presença na esfera pública, sem a demarcação do hijab ou niqab, considera-se uma conturbação da ordem social.
O paradoxo é que esta ideologia wahabi ―que hoje chega a usurpar por completo o nome do islão― não é um fenómeno árabe mas europeu. Financiado pelos petrodólares conquista os jóvens que perderam toda referência do islão dos seus pais mas nunca foram aceites na sociedade europeia.
Os estados europeus são cúmplices nesse processo: aceitam a doutrina wahhabi como se fosse “o islão” e apoiam organizações fundamentalistas como “interlocutores” dos imigrantes, crendo que apoiam a “multiculturidade” quando favorecem uma homogeneização religiosa. Fazem papel de voyeur face ao exibicionismo dos wahhabis que convertem as suas mulheres, aquelas que dominam, na sua bandeira, e fingem deleitar-se com o exotismo do véu. Eis o problema.