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Presas por varrer a casa ao contrário


UN MUNDO SEN PRIVACIDADE

O desrespeito pela privacidade pode ser pernicioso para a sociedade como um todo. Diretamente a privacidade protege a sua liberdade.

Em Portugal já foi possível ser preso por varrer a casa ao contrário. Não acredita? Então vou contar-lhe uma história.

É comum, nas casas judaicas, afixar um rolo de pergaminho na ombreira da porta da entrada. A este rolo, que contém dois versículos da Bíblia e que às vezes está guardado dentro de uma caixa, chama-se mezuzá o que significa precisamente umbral em hebraico. Para os judeus observantes esta é uma obrigação prescrita pela escritura sagrada, e todo o máximo respeito é devido à mezuzá.

Agora imagine que vivia no Portugal do século XVII, por exemplo em Castelo de Vide, vila de casas térreas, muitas vezes de porta aberta para a rua. Se a sua família fosse cristã, o mais natural seria que varressem o lixo para a porta da rua. Mas se por convicção, ritual ou hábito quisessem respeitar os preceitos judaicos ninguém varreria o pó para a rua, para não mostrar desrespeito pela mezuzá. A maneira correta de varrer a casa seria recolher o lixo para o centro, para só depois o recolher e despejar.

Quem quiser folhear os processos da Inquisição portuguesa verá que muitas mulheres portuguesas, judias ou cristãs-novas, foram denunciadas e presas por varrer a casa ao contrário.

Aquela era uma época de pouca ou nenhuma privacidade. Os vizinhos, incluindo a vasta rede de familiares da inquisição poderiam controlar a sua vida facilmente: saber em que direção varria, se punha camisa lavada e descansava à sexta-feira, se vestia linho no Dia Grande do Yom Kippur, se evitava comer carne de porco, etc. Quantos milhares foram presos, torturados e condenados por estas pequenas coisas? Sem privacidade, as suas convicções, a sua liberdade e até a sua vida estavam em risco.

Esta história sugere algumas coisas importantes para nós. A primeira é que o desrespeito pela privacidade pode ser pernicioso para a sociedade como um todo. Diretamente a privacidade protege a sua liberdade. Indiretamente o desrespeito pela privacidade cria uma sociedade de conformistas, em que toda a gente começa por se vigiar a si mesmo.

Mas o respeito pela privacidade não basta; a liberdade é um conjunto de autonomia+tolerância. A falta de privacidade tornava a vida dos judeus portugueses num inferno; mas era a intolerância que estava na raiz da perseguição que eles sofriam. É natural que as pessoas relaxem um pouco a defesa da sua privacidade se acreditarem que a sua sociedade é tolerante.

A terceira coisa que a história revela, e talvez a mais importante, é que a privacidade não é só uma escolha individual. A privacidade é paradoxalmente comunitária. Investigadores descobriram que podiam saber com certeza quase total muitos pormenores (incluindo profissão, situação financeira e orientação sexual) sobre pessoas que não revelavam os seus dados nas redes sociais. Como? Através das páginas dos amigos dessas pessoas.

As sociedades e os regimes mudam. Amanhã poderemos vir a estar menos tranquilos. Para já, as redes sociais podem vender a sua data de aniversário a uma empresa de entrega de flores ao domicílio. Mais tarde, os bancos utilizarão dados que não são deles para saber se nos devem conceder crédito. E, como sempre acontece, governos e empresas abusarão da informação que detêm sobre nós.

Andamos desatentos a estas coisas; talvez um dia seja tarde. Ou acabaremos a varrer a casa ao contrário.