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A NATO nada conseguirá no Afeganistán


Túmuro de impérios

Se o Iraque foi ruim, o Afeganistão será ainda pior. Nada do que se diga ou faça na reunião da NATO em Lisboa, que é, sobretudo, exercício de autoilusão, alterará essa clara evidência.

Não se trata só da guerra, que irá de mal a pior. Trata-se sobretudo da necessidade da NATO, de mostrar algum sucesso, já ter levado a movimentos contraproducentes, que só fizeram aprofundar a violência. Dentre essas perigosas iniciativas da NATO destaca-se a ideia de implantar milícias locais para combater os talibãs onde o exército afegão é fraco. São quase sempre milícias mercenárias, pagas por senhores-da-guerra locais, que caçam civis afegãos.

A estratégia do exército dos EUA é assassinar comandantes talibãs de nível médio. Mas um estudo recente mostrou que, na maioria dos casos, os assassinados são homens de prestígio nas suas respectivas comunidades. E que os assassinatos só fazem enfurecer cada vez mais a população. Nesses grupos indignados, os talibãs recrutam soldados cada vez com mais facilidade.

Hoje, em Lisboa, o comandante do exército dos EUA no Afeganistão, general David Petraeus, falará aos demais comandantes da NATO sobre o seu plano de começar, em 2011, a transferir para o governo afegão a responsabilidade pela segurança em algumas regiões do país. É mais desejo que projecto. De facto, a única preocupação do general Petraeus é conseguir escapar às acusações de que a NATO não tem nem ideia de quando ou como sair do atoleiro em que está, no Afeganistão.

Os talibãs controlam total ou parcialmente, hoje, metade do território afegão. Enquanto os EUA fazem jorrar reforços nas províncias de Helmand e Kandahar, os talibãs expandem os seus enclaves no norte.

Todo o plano de transferir a responsabilidade pela segurança para o exército afegão depende do exército e da polícia afegãos serem rapidamente expandidos, para 171 mil soldados, o exército, e para 134 mil guardas, a polícia. São novos recrutas que, além de ainda terem de ser treinados, terão de ser recrutados nas comunidades tadjique, uzbeque e hazara, de tendência anti-talibã. Os pashtuns, 42% dos afegãos, e grupo onde os talibãs têm raízes históricas, sentir-se-ão cada vez mais agredidos.

As diferenças entre a guerrilha no Iraque e no Afeganistão mostram que a guerrilha afegã é muito mais ameaçadora para as forças de ocupação. No Iraque, os guerrilheiros anti-EUA eram árabes sunitas, comunidade à qual pertence apenas um em cada cinco iraquianos. O governo pós-Saddam em Bagdade foi apoiado pelos curdos e pelos xiitas, quase quatro quintos da população. Os afegãos são mais xenofóbicos que os iraquianos. "Desconfiar de estrangeiros está no DNA de todos os afegãos", disse em Cabul um diplomata ocidental.

Os comandantes da NATO reunidos em Lisboa talvez se interessem por conhecer dois outros detalhes, que fazem do Afeganistão país muito mais perigoso para as forças de ocupação. O governo afegão é muito mais fraco que o governo em Bagdade, onde há tradição de controle central e o petróleo rende ao governo 60 mil milhões de dólares. Em termos militares, o exército soviético não foi derrotado no Afeganistão pelo poderio das forças afegãs, mas pelos 2.500 km de fronteira com o Paquistão. Enquanto essa longa fronteira permanecer aberta, porosa, e os guerrilheiros encontrarem paraísos seguros no Paquistão, nem a NATO nem o governo afegão derrotarão a resistência.

Artigo publicado em 20/11/2010, no jornal britânico “The Independent” (Be under no illusion, Nato is in no shape to make progress in this graveyard of empires)

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu e disponível em redecastorphoto.blogspot.com