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Tambores de guerra en Israel


DOUS ANOS DESPOIS DA OPERACIÓN CHUMBO FUNDIDO
Os tambores da guerra voltam a soar em Israel, porque mais uma vez está em questão a invencibilidade de Israel. O que se planeia é agredir mais uma vez a Faixa e a população que ali vive, cada vez com mais brutalidade e por tempo mais curto. Por Ilan Pappé.
Foto The Jewish Agency for Israel, Flickr.
Foto The Jewish Agency for Israel, Flickr.

Apesar da retórica triunfalista nas matérias comemorativas dos media, dois anos depois da “Operação Chumbo Derretido”, o que todos sentem é que a campanha foi um fracasso ainda maior que a segunda guerra do Líbano em 2006.

Infortunadamente, líderes, generais e o grande público no Estado Judeu só conhecem um modo de lidar com fracassos e fiascos militares. O único modo de redimi-los é outra operação de guerra, ainda mais violenta e mais sangrenta que a anterior, sempre na esperança de que o round seguinte levará a melhor resultado.

Força e poder, repetem os comentaristas dos media israelitas (papagueando o que ouvem dos generais), são indispensáveis para “deter”, para “dar-lhes uma lição”, para “enfraquecer” o inimigo. Não há qualquer novo plano para Gaza – não há nem desejo real de ocupar Gaza e pôr a região sob domínio directo de Israel. O que se planeia é agredir mais uma vez a Faixa e a população que ali vive, cada vez com mais brutalidade e por tempo mais curto. Seria o caso de perguntar-se por que alguém imagina que isso daria resultado diferente do que rendeu a “Operação Chumbo Derretido”? Mas essa não é a pergunta correta. A pergunta correta é o quê, senão mais violência e mais brutalidade, poderia oferecer a actual elite política e militar de Israel (governo e também os partidos de oposição)?

Há anos que todos sabem o que fazer na Cisjordânia – colonizar, fazer a limpeza étnica e condenar a região à morte, permanecendo, para efeito público, leal ao fútil discurso da paz ou, como se diz agora, do “processo de paz”. O resultado final esperado seria uma Autoridade Palestina dócil, numa Cisjordânia pesadamente judaicizada.

Mas ninguém sabe o que fazer da Faixa de Gaza, desde que Ariel Sharon “desengajou-se” dela. O povo de Gaza não aceita ser desengajado da Cisjordânia e do mundo, e parece cada dia mais difícil de derrotar, mesmo depois do terrível preço em vidas humanas que os que vivem em Gaza pagaram em dezembro de 2008, por resistir e desafiar o Estado Judeu.

O cenário para o próximo round está montado à frente dos nossos olhos e já se vê outra vez a terrível deterioração que antecedeu o massacre de Gaza há dois anos: bombardeamento diário da Faixa, e uma polícia que não faz outra coisa além de provocar o Hamas, para que reaja e, assim, ofereça pretexto para ataques mais violentos e mais devastadores. Como um general explicou, é preciso, hoje, considerar também o efeito prejudicial do Relatório Goldstone: em outras palavras, um próximo grande ataque tem, hoje, de parecer mais plausível que o ataque de 2009 (mas nem esse cuidado parece crucialmente importante ao actual governo de Israel; e dificilmente agirá como factor impeditivo).

Como sempre, nessa parte do mundo, há outros cenários possíveis – menos sangrentos e mais esperançosos. Mas é difícil identificar de onde poderia brotar um diferente futuro de curto prazo: do pérfido governo Obama? Dos regimes árabes emasculados? De uma Europa tímida, ou de uma ONU impotente? A resistência do povo de Gaza e do povo palestino significa em geral que a grande estratégia israelita para varrê-los do mundo – como o fundador do movimento sionista Theodore Herzl esperava fazer com as populações autóctones da Palestina já desde o final do século XIX – não está a funcionar e não funcionará. Mas o preço a pagar aumenta sempre. E é tempo de todos os que se levantaram e falaram pelos palestinos, efectiva e poderosamente, depois do massacre de Gaza há dois anos, voltem a falar e tentem, agora, impedir que venha o próximo golpe.

Essa voz da resistência é acusada hoje em Israel de tentar “deslegitimar” o Estado Judeu. É a única voz que parece preocupar seriamente o governo e a elite intelectual de Israel (muito mais incómoda para eles, do que qualquer condenação ‘soft’ que lhes façam Hillary Clinton ou a União Europeia). A primeira tentativa de calar essa voz foi declarar que a deslegitimação do Estado Judeu seria anti-semitismo camuflado. Não deu o resultado esperado e ricocheteou contra Israel, quando Israel quis saber quem, no mundo, apoiaria suas políticas; logo ficou bem claro que os únicos apoiantes das políticas de Israel no mundo ocidental hoje são a extrema-direita – organizações e políticos tradicionalmente anti-semitas.

A segunda tentativa para calar essa voz foi argumentar que movimentos como Boicote, Desinvestimento e Sanções tornariam Israel ainda mais determinada a continuar, e converteria Israel em ‘rogue state’, estado-bandido. Essa, contudo, é uma ameaça vazia: as políticas israelitas não são geradas pela voz moral e decente que há em Israel. Ao contrário, essa voz é ainda um dos raros factores que limitam a violência e a agressividade da política de Israel. Sabe-se lá se, quando os governos ocidentais aproximarem-se da opinião pública em seus países, como aconteceu na África do Sul do apartheid, será possível por fim às políticas israelitas, sem as quais judeus e árabes poderão viver em paz em Israel e na Palestina.

Essa voz é efectiva, porque mostra claramente o vínculo entre o carácter racista do Estado judeu e a natureza criminosa das políticas que implanta contra os palestinos. Essa voz recentemente converteu –se em campanha claramente definida e organizada, com mensagem clara: Israel continuará a ser vista como Estado pária, enquanto a Constituição, as leis e as políticas israelitas continuarem a violar todos os direitos humanos básicos e todos os direitos civis dos Palestinos, vivam onde viverem, inclusive o direito de viver e existir.

Agora, imediatamente, é preciso que a energia nobre, mas tantas vezes desperdiçada que o Bloco da Paz israelita e seus seguidores no ocidente investem no conceito de “coexistência” e em projectos de “diálogo”, seja reinvestida numa tentativa de impedir um novo capítulo de genocídio na história da guerra de Israel contra os palestinos. É preciso fazê-lo já, antes que seja tarde demais.

27/12/2010, Ilan Pappé, Countercurrents

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Ilan Pappé é coautor, com Noam Chomsky, de ” Gaza in Crisis: Reflections on Israel's War Against the Palestinians”(Haymarket Books).

http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/12/os-tambores-da-guerra-voltam-soar-em.html

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