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A vergoñosa violéncia contra Bradley Manning


A vergoña de Obama

O presidente Obama diz que pediu informações ao Pentágono sobre as condições do confinamento de Bradley Manning – o soldado acusado de haver vazado segredos de Estado. – “Fui informado de que sim, as condições são apropriadas e conforme nossos padrões básicos. Garantiram-me que são.”

 

Se Obama acredita nisso, acreditará em qualquer coisa. Seria de esperar que fizesse mais e melhor do que perguntar aos criminosos se estão agindo como devem agir. Posso até ouvir a voz do presidente Nixon, dizendo à imprensa: “Os empregados da manutenção dos encanamentos da Casa Branca que assaltaram o escritório do Dr. Daniel Ellsberg em Los Angeles informaram-me que seus atos são apropriados e conforme nossos padrões básicos.” 

 

Quando afinal se comprovou que o assalto ao meu escritório fora ordenado diretamente pelo Salão Oval, Nixon, para não sofrer um impeachment, teve de renunciar. Sim, os tempos são outros. 

 

Mas, se o presidente Obama realmente desconhece as reais condições da prisão de Manning – se realmente acredita, como disse, que “parte dos procedimentos adotados [ser mantido nu, em isolamento, impedido de dormir, sob iluminação direta e sob vigilância de câmeras 24 horas por dia] têm a ver com preservar a integridade física do prisioneiro”, apesar do laudo do psicólogo da prisão, que diz exatamente o contrário –, então, estão mentindo ao presidente, e é preciso que o presidente retome as rédeas do próprio governo.

 

Se sabe e aprova os procedimentos inadequados e, mesmo, ilegais, então, é sinal de que já esqueceu tudo o que ensinava em suas aulas de Direito Constitucional.

 

O presidente recusou-se a comentar o que disse PJ Crowley, para quem o tratamento dado ao soldado Manning é “ridículo, contraproducente, estúpido”. São palavras verdadeiras e, provavelmente, são o máximo a que se pode atrever o porta-voz do Departamento de Estado, comentando ações do Departamento da Defesa. Mas faltam aí mais dois adjetivos: abusivo e ilegal.

 

Crowley respondia a uma pergunta sobre “tortura” de cidadão norte-americano, e, pelo que se sabe, não protestou contra esse modo de por as coisas. Isolamento prolongado, privação de sono, nudez – são procedimento aprendidos diretamente do manual da CIA para “interrogatório estimulado” [ing. “enhanced interrogation”]. Já vimos os mesmos procedimentos aplicados em Guantánamo e Abu Ghraib. Trata-se do que a CIA chama de “tortura sem contato” [ing. "no-touch torture"], e o objetivo, como no caso do soldado Manning, é claro: desmoralizar alguém a ponto de alguém agradecer quando lhe oferecerem a oportunidade de “confessar” qualquer coisa, onde o torturador precise de determinada ‘confissão’. É exatamente o caso, como suspeito, com Manning. A ninguém preocupa que a confissão seja falsa ou verdadeira, desde que implique WikiLeaks, de qualquer modo que ajude o Departamento de Defesa a acusar e processar Julian Assange.

 

São desconfianças minhas, sobre os motivos pelos quais fazem o que fazem, mas nada disso altera a ilegalidade dos procedimentos dos soldados que mantém preso o soldado Manning. Se eu estiver certo, o tratamento ilegal imposto ao prisioneiro não foi ordenado no plano do oficial encarregado nem do comandante da prisão. O fato de que os maus tratos, o tratamento ilegal e os sofrimentos infligidos ao prisioneiro continuem, apesar de, há semanas, o Conselho Militar do Exército dos EUA encarregado da defesa de Manning ter publicamente protestado e de os procedimentos já terem sido condenados também por organizações como a Anistia Internacional, sugere que a ordem para torturar pode ter vindo “de cima”, dos altos escalões do Departamento de Defesa e do Departamento de Justiça – ou, mesmo, da própria Casa Branca.

 

Não é coincidência que alguém do Departamento de Estado esteja hoje na imprensa, autor de comentário que pode ser apresentado como ‘desabafo pessoal’, denunciando também – quem denuncia é o porta-voz do Departamento de Estado! – a tortura do soldado Manning. Quando o braço armado do governo dos EUA zomba do dever de respeitar a lei – especificamente do dever de os EUA não torturarem prisioneiros – os piores efeitos recaem sobre o Departamento de Estado, e afetam a própria imagem dos EUA em todo o mundo.

 

O fato de que Manning esteja sendo torturado em Quantico – onde fiz meu curso básico de formação de oficial da Marinha, durante nove meses – e de que haja Marines que mentem ao mundo sobre a prisão do soldado Manning, faz-se sentir vergonha por toda a corporação. Bastaram-me três meses como oficial de infantaria, para saber que o que está acontecendo em Quantico é ilegal. Tem de ser contido. Tem de ser disciplinado.