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Masacre apoiado por EUA


A PRIMAVERA DE BAHREIN

Obama justificou os recentes ataques militares à Líbia com estas palavras: “Assassinaram pessoas inocentes. Atacaram hospitais e ambulâncias. Prenderam, agrediram e assassinaram jornalistas”. Agora ocorre o mesmo no Bahrein e Obama não tem nada a dizer.

Obama justificou os recentes ataques militares à Líbia com estas palavras: “Assassinaram pessoas inocentes. Atacaram hospitais e ambulâncias. Prenderam, agrediram e assassinaram jornalistas”. Agora ocorre o mesmo no Bahrein e Obama não tem nada a dizer.

Três dias depois da renúncia de Hosni Mubarak e do fim da sua longa ditadura no Egipto, o povo do Bahrein, pequeno estado do Golfo, lançou-se massivamente às ruas de Manama, capital do país, e reuniu-se na Praça da Pérola, a sua versão da praça egípcia Tahrir. O Bahrein vem sendo governado pela mesma família, a dinastia de Khalifa, desde a década de 1780, há mais de 220 anos. Com as manifestações, a população do país não pedia o fim da monarquia, mas sim uma maior representação no seu governo.

Após um mês de protestos, a Arábia Saudita enviou forças militares e policiais por meio da ponte de mais de 25 quilómetros que une o território continental saudita à ilha de Bahrein. A partir desse momento, reprimiu-se cada vez com mais força e violência os manifestantes, a imprensa e as organizações de direitos humanos.

Uma valente jovem activista bahreiní a favor da democracia, Zainab al-Khawaja, viu a brutalidade de perto. Para seu horror, foi testemunha de como o seu pai, Abdulhadi al-Khawaja, um destacado activista pelos direitos humanos, foi golpeado e preso. Ela descreveu o ocorrido, desde Manama:

“Forças de segurança atacaram a minha casa. Chegaram sem aviso prévio. Derrubaram a porta do edifício, derrubaram a porta do nosso apartamento e atacaram directamente o meu pai, sem explicar os motivos da sua prisão nem lhe dar oportunidade para falar. Arrastaram o meu pai pelas escadas e golpearam-no na minha frente. Bateram nele até que ficou inconsciente. A última coisa que o ouvi dizer foi que não podia respirar. Quando tratei de intervir, tentei dizer-lhes: “Por favor, deixem de bater nele, ele irá com vocês voluntariamente. Não precisam golpeá-lo assim”. Basicamente, disseram-me que calasse a boca, agarraram-me e arrastaram-me escadas acima até ao apartamento. Quando voltei a sair, o único rasto que havia do meu pai era o seu sangue na escada”.

A organização de direitos humanos Human Rights Watch pediu a imediata libertação de Al-Khawaja. O esposo e o cunhado de Zainab também foram presos. Zainab publica no twitter como “angryarabiya” e, em protesto pelas prisões, iniciou uma greve da fome, ingerindo apenas líquidos. Também escreveu uma carta ao presidente Barack Obama, na qual diz: “Se algo acontecer com o meu pai, com o meu esposo, o meu tio, o meu cunhado ou comigo, declaro-o tão responsável como o regime de Al Khalifa. O seu apoio a esta monarquia faz com que o seu governo seja cúmplice dos seus crimes. Todavia, abrigo a esperança de que você se dê conta de que a liberdade e os direitos humanos significam o mesmo para uma pessoa do Bahrein do que para uma pessoa dos Estados Unidos”.

No discurso de condenação do governo de Kadhafi, Obama justificou os recentes ataques militares à Líbia com estas palavras: “Assassinaram pessoas inocentes. Atacaram hospitais e ambulâncias. Prenderam, agrediram e assassinaram jornalistas”. Agora ocorre o mesmo no Bahrein e Obama não tem nada a dizer.

Do mesmo modo que ocorreu no Egito e na Tunísia, o sentimento é nacionalista e não religioso. O país é 70% xiita, mas governado por uma minoria sunita. No entanto, uma das principais consignas presentes nos protestos tem sido: “Nem xiita, nem sunita, bahreiní”. Isso desmoraliza o argumento esgrimido pelo governo do Bahrein, segundo o qual o actual regime seria a melhor defesa contra a crescente influência do Irão, um país xiita, no rico em petróleo Golfo Pérsico. Some-se a isso o papel estratégico do Bahrein: é ali que se encontra a base da 5ª Frota Naval dos EUA, encarregada de proteger os “interesses norte-americanos” como o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez, e de dar apoio às guerras no Iraque e no Afeganistão. Não está também entre os interesses norte-americanos o de apoiar a democracia e não os ditadores?

Nabeel Rajab é presidente do Centro pelos Direitos Humanos do Bahrein, organização que foi dirigida pelo recentemente sequestrado Abdulhadi al-Khawaja. Rajab pode enfrentar um julgamento militar por publicar a fotografia de um manifestante que morreu enquanto permanecia preso. Rajab disse-me: “Centenas de pessoas estão presas e são torturadas por exercer a sua liberdade de expressão. E tudo por vingança, porque um dia, há um mês, quase metade da população do Bahrein foi para as ruas exigir democracia e respeito pelos direitos humanos”.

Rajab observou que a democracia no Bahrein poderia implicar a luta pela democracia nas ditaduras vizinhas do Golfo Pérsico, especialmente na Arábia Saudita. É por isso que a maioria dos governos regionais têm interesse no fim dos protestos. A Arábia Saudita está bem posicionada para a tarefa já que é recente beneficiária do maior acordo de venda de armas na história dos EUA. Apesar das ameaças, Rajab foi firme: “Enquanto respirar, enquanto viver, vou continuar a lutar. Acredito na mudança. Acredito na democracia. Acredito nos direitos humanos. Estou disposto a dar a minha vida. Estou disposto a dar o que for preciso para alcançar essa meta”.

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna

Tradução de Katarina Peixoto para Carta Maior.