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Contributos para unha história mal contada


UN MUNDO MAIS SEGURO?

O desaparecimento de Ossama Bin Laden “tornou o mundo mais seguro”, declarou o presidente dos Estados Unidos da América depois de ter anunciado a morte do chefe da al-Qaida. A afirmação sofre de optimismo exagerado num tempo em que nascem e se aprofundam guerras em vez de serem resolvidas; e sofre de preocupantes ambiguidades quando se coloca em confronto a versão oficial da operação norte-americana realizada nos arredores da capital do Paquistão e o respeito pela transparência que deveria orientar o presidente da maior potencial militar mundial. O desaparecimento súbito do cadáver, presumíveis truques fotográficos, buracos negros na cumplicidade entre os Estados Unidos e o Paquistão e acumulação de incoerências em quase 30 anos de relações entre os Estados Unidos e o próprio Bin Laden são apenas alguns elementos de uma história muito mal contada.

A tradição judaico-cristã lá terá as suas razões quando considera a existência de um corpo como facto essencial para a certeza de uma morte. Neste caso de Ossama Bin Laden, a dúvida mais consistente não será tanto a veracidade do óbito como o momento e as circunstâncias em que ele ocorreu. A pressa, sem dúvida muito estranha, com que os militares norte-americanos ofereceram o corpo de Bin Laden como repasto aos tubarões a partir do USS Carl Winson não contribui para estabelecer uma correspondência segura entre a versão oficial dos factos e uma realidade plausível.

Há muitos anos que as informações provenientes dos Estados Unidos da América e de outros lugares do mundo através da rede global de comunicação nos davam conta de que Bin Laden sofria de graves problemas renais. É do conhecimento geral a notícia que começou por ser divulgada pelo jornal francês Le Figaro segundo a qual em Julho de 2001, a dois meses somente dos atentados de 11 de Setembro, Bin Laden estava em tratamento a graves deficiências renais no Hospital Americano do Dubai, onde foi cordial e cortesmente visitado por funcionários locais da CIA. A CBS, estação norte-americana de TV, deu conta de que precisamente na véspera do 11 de Setembro Bin Laden estava a ser tratado ao mesmo problema no hospital militar de Rawalpindi, no Paquistão. Paul Craig Roberts, antigo secretário norte-americano adjunto do Tesouro no tempo de Ronald Reagan, interroga-se como pode alguém sofrendo dos rins e de diabetes, necessitando de hemodiálise, sobreviver escondido durante uma década; e no caso de ter comprado equipamento para esse tratamento, não seria a compra e entrega do material fornecido pistas para o detectar há muito?

Por isso são muitas as notícias conhecidas dando como certa ou provável a morte de Bin Laden antes de 1 de Maio de 2011.

O jornal Pakistan Observer citava em Dezembro de 2011 um “dirigente da al Qaida” dizendo que Bin Laden já tinha morrido. Steve R. Piecznik, secretário de Estado adjunto dos Estados Unidos com Kissinger, Cyrus Vance e James Baker que trabalhou com Bin Laden no Afeganistão nos anos oitenta, disse em 2002 na CNN que “há muito que ele está morto”. Mais ou menos na mesma ocasião, Dale Watson, chefe do departamento de luta anti-terrorista do FBI afirmou: “creio que ele já não está entre nós, embora não tenham provas para o garantir”. Em Outubro do mesmo ano, o presidente afegão, Hamid Karzai, disse: “há muito que não tenho notícias dele, provavelmente está morto”. O mesmo admitiram os serviços de espionagem de Israel em Dezembro de 2001.

Dois presidentes paquistaneses fizeram declarações no mesmo sentido. Primeiro, Pervez Musharraf, em Junho de 2002 na CNN: “creio que está morto, estava muito doente dos rins”. Mais tarde, em 2009, o presidente em exercício, Asif Zardari, declarou à NBC: “não creio que esteja vivo; tenho esta forte sensação e razões para acreditar depois de ter falado com os serviços secretos norte-americanos”.

Outra versão revelaram os serviços secretos franceses, inspirados nos serviços secretos sauditas, admitindo a morte de Bin Laden em 2006 devido a complicações provocadas por febre tifóide.

Os vídeos atribuídos a Bin Laden e que de maneira recorrente entravam na rede mundial de comunicação dão pistas que podem ser exploradas para balizar acontecimentos e avaliar circunstâncias. O último vídeo que as autoridades norte-americanas consideram genuíno é o de 26 de Dezembro de 2001. Um outro que foi divulgado em 2003 baseia-se em imagens nas montanhas afegãs captadas em 2001. Os de 2004 e 2007 são considerados falsos e as declarações em mensagens áudio são encaradas sem qualquer valor.

A anunciada certeza de que o ADN do cadáver resgatado em Abbottabad corresponde 99,99999…. por cento ao de Bin Laden não resolve as dúvidas porque é uma declaração que se enquadra numa versão oficial inconsistente e não é possível confirmá-la através de entidades independentes, por exemplo as Nações Unidas. Os atentados atribuídos a Bin Laden não provocaram exclusivamente vítimas norte-americanas e há outros países legitimamente interessados em conhecer a verdade absoluta sobre os acontecimentos, por exemplo a Espanha e os familiares das vítimas do atentado de 11 de Março de 2004.

A polémica em torno da fotografia do cadáver de Bin Laden tirada supostamente no final da operação em Abbottabad e que tem vindo a ser publicada não resolve dúvidas, antes alimenta mais incertezas.

O próprio senador norte-americano Joseph Lieberman, presidente da Comissão de Segurança do Senado, ex-candidato republicano à vice-presidência e um dos mais destacados elementos do lobby israelita nos Estados Unidos, considera que as autoridades devem publicar fotografias convincentes, duvidando da genuinidade da existente.

Segundo informações que correm a alta velocidade na internet, a foto já está na rede desde 2009, foi publicada em primeiro lugar pelo site Media Line, é uma montagem efectuada a partir de uma foto de Bin Laden em 1999 manipulada com parte da imagem do rosto de um cadáver de um desconhecido. A foto chegou a ser usada com destaque por jornais como o Times, o Daily Telegraph, o Sun, o Daily Mirror e retirada depois quando começaram as especulações sobre a sua veracidade.

O argumento invocado por responsáveis norte-americanos com base nas restrições à divulgação da imagem de falecidos não é válido. Há relativamente pouco tempo os Estados Unidos não tiveram o mesmo pudor quando se tratou da publicação da foto do cadáver de Saddam Hussein.

Outra parte importante de toda esta história mal contada é a do relacionamento entre os Estados Unidos e o Paquistão, não apenas agora mas em todo o processo relacionado com a caça a Bin Laden.

Os Estados Unidos asseguram que realizaram uma operação com esta envergadura sem qualquer conhecimento das autoridades do Paquistão. À partida, esta versão é tão absurda como o acto de lançar ao mar poucas horas depois de resgatado um cadáver que começou por ser anunciado como quem conquista um troféu. A versão é tão absurda como a confissão de “embaraço” divulgada pelos serviços secretos paquistaneses, ISI, por não se terem apercebido de que Bin Laden vivia numa mansão fortificada a dez léguas da capital do Paquistão e a umas dezenas de metros da Academia Militar do Paquistão.

“Somos bons, mas não somos Deus” (We are good, but we are not God), glosou em trocadilho um responsável do ISI citado pela britânica BBC para explicar o facto de os serviços não terem dado pela presença de Bin Laden nem pelo ataque norte-americano.

O mesmo responsável revelou que o ISI vistoriou de facto o edifício em 2003, quando estava em construção, um processo que era então dirigido por um alto quadro da al-Qaida. Mesmo assim, segundo explicou, a mansão “não estava nos nossos radares”.

O ISI, juntamente com a CIA, o MI6 britânico e os serviços secretos sauditas foram os criadores de Bin Laden e da sua rede de mercenários radicais islâmicos – agora distribuídos por todo o mundo, inclusivamente apoiados pelos bombardeamentos da NATO na Líbia – quando se tratou de combater a presença soviética no Afeganistão nos anos oitenta.

Depois disso tornou-se recorrente a informação de que o ISI, ou pelo menos sectores da organização, eram cúmplices de Bin Laden ao mesmo tempo que integram o aparelho de guerra norte-americano contra os talibãs no Afeganistão.

“É inconcebível que Bin Laden não tenha tido um sistema de apoio no Paquistão”, concluiu há poucas horas John Brennan, conselheiro de segurança da Casa Branca.

Do mesmo modo será inconcebível, no quadro de uma aliança tão estreita, que se tenha realizado uma operação como esta no coração do Paquistão sem conhecimento do Paquistão.

Por isso, as informações contraditórias nos dois lados contribuem para minar a credibilidade da versão oficial posta a circular por Barack Obama e a rede global de comunicação.

Residentes no perímetro de Abbottabad revelaram a jornalistas, designadamente da BBC, que foram intimados por soldados paquistaneses a apagar as luzes das suas casas cerca de uma hora antes de se ter realizado o ataque norte-americano. Responsáveis do ISI afirmam que tal não é verdade.

Elementos destes serviços deslocaram-se à mansão de Bin Laden a seguir ao assalto e nem todas as suas revelações batem certo com a versão de Washington. Afirmam que todos os sobreviventes do tiroteio, incluindo uma mulher, a filha e um grupo de crianças com 8/9 anos, foram encontrados com as mãos amarradas atrás das costas. Dizem que as tropas norte-americanas levaram um refém vivo, eventualmente um filho de Bin Laden, o que não consta da versão oficial. Afirmam ainda que uma filha de Bin Laden, com 12/13 anos, declarou que viu o pai ser baleado.

O mundo estará eventualmente “mais seguro”, como disse o presidente dos Estados Unidos da América; o que não está, seguramente, é mais esclarecido sobre a realidade de acontecimentos graves que envolvem a vida de milhões de pessoas.