You are hereBahrein: Xulgados por tentar salvar vidas

Bahrein: Xulgados por tentar salvar vidas


48 PROFISIONAIS DA MEDICINA


Vi esses bravos médicos tentando salvar vidas – estas acusações são um monte de mentiras”, garante Robert Fisk, testemunha ocular dos acontecimentos. O Bahrein não convidou os sauditas a enviar as suas tropas; os sauditas invadiram e receberam um convite posterior.

A família Khalifa enlouqueceu? Ontem, a família real do Bahrein começou um julgamento totalmente fraudulento de 48 cirurgiões, médicos, paramédicos e enfermeiros, acusando-os de tentar derrubar a insignificante monarquia deste emirado de minoria sunita. Os arguidos neste tribunal militar flagrantemente injusto são, naturalmente, membros da maioria xiita do Bahrein. E, como eu fui testemunha dos seus esforços heróicos para salvar vidas em Fevereiro, posso dizer – vamos falar com franqueza que os governantes do Bahrein, normalmente, pediriam – que as acusações são um amontoado de mentiras.

Estão a ser julgados agora médicos que vi, encharcados do sangue dos seus pacientes, a tentar desesperadamente estancar as hemorragias das feridas de bala de manifestantes pró-democracia alvejados a sangue frio pelos soldados e pela polícia. Vi polícias armados impedindo que ambulâncias recolhessem os feridos nas estradas, onde tinham sido abatidos.

Estes são os mesmos médicos e enfermeiras ao lado dos quais fiquei há quatro meses na sala de emergências do hospital de Sulaimaniya, alguns deles chorando enquanto tentavam tratar ferimentos de bala de uma gravidade que nunca tinham visto antes.

“Como puderam fazer isto a estas pessoas?”, perguntou-me um deles. “Nunca tínhamos tratado ferimentos como este”. Próximo a nós jazia um homem com ferimentos de bala no peito e na coxa, tossindo sangue para o chão.

Os cirurgiões temiam não ter capacidade de salvar essas vítimas da violência policial. Agora, a polícia acusa os médicos e o seu pessoal de matar os doentes que foram alvejados pela própria polícia.

Como seria possível que estes óptimos profissionais de saúde tivessem tentado “derrubar” a monarquia?

A ideia de que estes 48 arguidos sejam culpados de tão cruel acusação não é apenas disparatada. É loucura, uma perversão total – não, o oposto total – da verdade. A polícia disparava contra os manifestantes a partir de helicópteros.

A ideia de que uma mulher e uma criança morreram porque houve médicos que lhes recusaram tratamento é uma fantasia. Os únicos problemas que a equipa médica encontrou no hospital de Sulaimaniya – e, mais uma vez, eu fui testemunha e, ao contrário das autoridades de segurança do Bahrein, não digo mentiras – foram provocados por polícias cruéis que impediram os pacientes de chegar ao centro médico.

A verdade, evidentemente, é que a família Khalifa não é louca. Nem a minoria sunita do Bahrein é intrinsecamente má ou sectária. A realidade é clara e está à vista de qualquer um, no Bahrein. Os sauditas já governam o país. Nunca receberam um convite para enviar os seus próprios soldados para apoiar as “forças de segurança” do Príncipe do Bahrein, que é um homem decente. Simplesmente invadiram e receberam um convite posterior.

A subsequente destruição de antigas mesquitas xiitas no Bahrein foi um projecto da Arábia saudita, inteiramente em consonância com o ódio, ao estilo taliban, dirigido a tudo o que seja xiita. Poderia o primeiro-ministro do Bahrein ser eleito?, perguntei a um membro da Corte Real em Fevereiro. “Os sauditas não permitiriam”, respondeu. Claro que não. Porque agora controlam o Bahrein. O resultado é o julgamento dos médicos ao estilo saudita.

O Bahrein já não é o reino dos Khalifa. Transformou-se num palatinado saudita, uma província confederada da Arábia Saudita, um Estado de bolso a partir do qual todos os jornalistas deveriam iniciar os seus artigos assim: “Manama, Bahrain ocupado”.

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net