You are hereO Oriente Médio nunca mais será o que era

O Oriente Médio nunca mais será o que era


SERVIÇO SUJO, ESSE DOS EUA, EN NOME DA LIBERDADE...

Os palestinianos não conseguirão o seu estado esta semana. Mas os palestinianos provarão – se obtiverem votos suficientes na Assembleia Geral e se Mahmoud Abbas não sucumbir à sua subserviência característica ante o poder de EUA-Israel – que já fizeram por merecer ser estado.

E estabelecerão para os árabes o que Israel gosta de chamar – enquanto amplia as suas colónias em terra roubada – “factos em campo”: nunca mais EUA e Israel estalarão os dedos e verão árabes bater continência perfilados. Os EUA perderam a aposta que fizeram para o Oriente Médio. Acabou: fim do “processo de paz”, do “mapa do caminho”, do “acordo de Oslo”. Esse fandango já é história.

Pessoalmente, acho que “Palestina” é estado-fantasia, já impossível, agora que Israel já roubou quase toda a terra dos árabes, para os projectos coloniais israelitas. Quem duvidar, que olhe para a Cisjordânia. Colónias em massa, exclusivas para judeus, as daninhas restrições que impedem palestinianos de construírem casas de mais de um piso, e a destruição, como castigo, do sistema de esgotos urbanos, os “cordões sanitários” ao lado da fronteira com a Jordânia, as estradas exclusivas para colonos israelitas, tudo isso converteu o mapa da Cisjordânia em pára-brisas esfacelado de um carro destruído. Às vezes, suspeito que a única força que impede que haja ali a “Grande Israel” é a obstinação daqueles palestinianos incansáveis. 

Mas, agora, fala-se afinal de temas maiores. Essa votação na ONU – na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança; em certo sentido, nem faz diferença – dividirá o ocidente: EUA de um lado; árabes, de outro. Abrirá em fendas as divisões que existem dentro da União Europeia, entre europeus do leste e europeus do oeste; entre Alemanha e França (Alemanha a apoiar Israel pelas razões históricas de sempre; a França atormentada pelo sofrimento dos palestinianos). E, claro, será como cunha cravada entre Israel e a União Europeia. 

Décadas de poder, brutalidade e colonização, pelos militares israelitas; milhões de europeus, já conscientes da responsabilidade histórica que pesa sobre eles pelo holocausto de judeus e conhecedores da violência das nações muçulmanas, já não se deixam acovardar na crítica, por medo de serem ofendidos, acusados de anti-semitismo. Há racismo no ocidente – e temo que sempre haverá – contra muçulmanos e africanos e judeus. Mas as colónias israelitas na Cisjordânia nas quais não podem viver árabes palestinianos muçulmanos são o quê, além de expressão de racismo? 

Israel sofre parte dessa tragédia, é claro. O insano governo israelita levou os israelitas por esse caminho de perdição, que se viu adequadamente sintetizado no medo que lhes causou a democracia na Tunísia e no Egipto. O principal aliado de Israel é hoje a Arábia Saudita, o que é um caso exemplar de toda essa insensatez. E a cruel recusa, por Israel, a desculpar-se pela matança de nove turcos, no ano passado, em ataque contra a Flotilha da Paz em Gaza, e de cinco policiais egípcios durante uma incursão de palestinianos em Israel. 

Por tudo isso, adeus aos únicos aliados que Israel ainda tinha na região, Turquia e Egipto, no curto espaço de 12 meses. No governo de Israel há hoje gente inteligente, potencialmente equilibrados, como Ehud Barak, e loucos, como o ministro dos Negócios Exteriores Avigdor Lieberman (...). Sarcasmos à parte, os israelitas merecem coisa melhor.

O estado de Israel talvez tenha sido criado por acto injusto – a Diáspora Palestiniana é prova disso – mas foi criado por acto legal. Os fundadores foram perfeitamente capazes de construir acordo com o rei Abdullah da Jordânia depois da guerra 1948-49 para dividir a Palestina entre judeus e árabes. Mas foi a ONU, que se reuniu para decidir o destino da Palestina dia 29/11/1947, quem deu a Israel a sua legitimidade, com os EUA como primeira nação a votar a favor de criar-se o estado de Israel. E agora – por uma suprema ironia da história –, Israel quer impedir que a ONU garanta legitimidade aos árabes palestinianos e os EUA serão a primeira nação a votar contra essa legitimidade justa. 

Israel não tem direito de existir? É a velha armadilha, estupidamente repetida pelos assim ditos “apoiantes de Israel”, também para mim, pessoalmente, muitas vezes repetida, embora, ultimamente, cada vez menos frequentemente. Cabe aos estados – que não são seres humanos – assegurar a outros estados o direito de existir. Para que indivíduos façam a mesma coisa, é indispensável que considerem um mapa. Porque, afinal, onde, exactamente, geograficamente, fica Israel? 

Israel é a única nação do planeta que não sabe e não diz onde está a sua fronteira leste. Acompanha a velha linha do armistício da ONU, a fronteira de 1967, que Abbas tanto ama e Netanyahu tanto odeia? Exclui toda a Cisjordânia palestiniana menos as colónias exclusivas para israelitas... Ou exclui toda a Cisjordânia? 

Mostrem-me um mapa do Reino Unido que inclua Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, e o Reino Unido tem direito de existir. Mas mostrem-me um mapa do RU que pretenda incluir no RU os 26 condados da Irlanda independente e mostre que Dublin seria cidade britânica, não cidade irlandesa, e direi não: essa nação não tem direito de existir nessas fronteiras inchadas. No caso de Israel, aí está a razão pela qual quase todas as embaixadas ocidentais, inclusive as embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha, estão instaladas em Telavive, não em Jerusalém. 

No novo Oriente Médio, com o Despertar Árabe e a revolta de povos livres que exigem dignidade e liberdade, esse voto da ONU – aprovado pela Assembleia Geral, vetado pelos EUA se for para o Conselho de Segurança – constitui uma espécie de pino que faz girar tudo que a ele esteja ligado: vira-se aí uma página, e marca-se também o fracasso do império. 

A política externa dos EUA tornou-se de tal modo presa a Israel, tão temerosos, tão assustadiços ante Israel tornaram-se quase todos os deputados, deputadas, senadores e senadoras dos EUA – a ponto de amarem mais Israel que os EUA –, que os EUA, esta semana, deixarão de ser a nação que gerou Woodrow Wilson e seus 14 princípios de autodeterminação, não o país que combateu o nazismo e o fascismo e o militarismo japonês, não o farol da liberdade que, como nos dizem, os seus Pais Fundadores representaram –, e se revelarão ao mundo como estado autista, intratável, acovardado, cujo presidente, depois de prometer novo afecto ao mundo muçulmano, é forçado a apoiar uma potência ocupante contra um povo que nada pede além do reconhecimento do estado independente ao qual tem perfeito direito. 

Será o caso de dizer “pobre velho Obama”, como eu disse em outros tempos? Acho que não. Bom de retórica, vão, superficial, distribuindo fingido respeito em Istambul e no Cairo poucos meses depois de eleito, esta semana o mesmo Obama comprovará que a reeleição parece-lhe mais importante que o futuro do Oriente Médio; que sua ambição pessoal de continuar no poder supera, em importância, os sofrimentos de um povo que sobrevive sob ocupação. Nesse específico contexto, chega a ser bizarro que alguém que se apresenta como homem de tão altos princípios aja tão covardemente. Para o novo Oriente Médio, onde árabes exigem para eles os mesmos direitos e liberdades dos quais Israel e EUA dizem-se campeões, é tragédia profunda. 

Na fonte de tudo estão os fracassos dos EUA, que não se ergueram para enfrentar Israel e que não insistiram em obter acordo de paz justo na “Palestina”, atrelados ao herói da guerra do Iraque, Blair. Os árabes também são responsáveis, por terem permitido que as ditaduras durassem tanto tempo, tentando conter dunas de areia com falsas fronteiras, velhos dogmas e petróleo (e que ninguém acredite que alguma “nova” “Palestina” seria um paraíso para seu próprio povo). 

E Israel também é responsável, porque é dever de Israel acolher respeitosamente o pedido dos palestinianos que requerem à ONU que reconheça o estado palestiniano e que cumpra todas as suas obrigações de garantir, com o reconhecimento, como de tantos outros estados-membros, segurança e paz também aos palestinianos. 

Mas nada disso acontecerá. O jogo está perdido. O poder político dos EUA no Oriente Médio esta semana será sacrificado aos pés de Israel.

Serviço sujo, esse, dos EUA, em nome da liberdade...