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A bula policial


Ignacio Escolar
04/10/2012

Dois polícias foram ontem processados e suspendidos de emprego e salário porque, em Espanha,  quem o faz paga-o. Pelas cargas na plataforma Atocha? Por não mostrar o seu número de identificação? Por abuso de poder e uso desproporcionado da força contra cidadãos pacíficos? Não. Por gravar um vídeo de humor ao volante parodiando um trío de pop russo.

Teria a sua graça, de não ser por quanto jogamos.

Uma semana depois, o Ministério do Interior teve a bem pesquisar o que passou para que a Polícia carregasse contra cidadãos indefesos que esperavam o comboio na estação de Atocha. Os factos são conhecidos, os vídeos são bastante claros. Os antidisturbios dispararam salvas dentro da estação, golpearam viajantes nas plataformas e ameaçaram a imprensa. Os manifestantes violentos "que os houve" nem sequer estavam ali. Só houve uma pessoa detida, e foi fora da estação.

Não tenho grandes esperanças postas nesta "investigação interna" que Interior já tem rebaixado à categoria de "rotineira". Depois que o ministro Jorge Fernández felicitasse os antidisturbios por realizarem "extraordinariamente bem" o seu trabalho, depois de condecorarem com uma medalha pensionada "isto é, com salário de por vida" o máximo responsável por estas cargas, é improvável que esta investigação esclareça alguma coisa. Como de costume.

Inclusive no hipotético caso de que se chegasse a julgamento e algum polícia resultasse condenado, o mais provável é que também não passasse nada. O Governo Qantes do PSOE, agora do PP" costuma indultar muitos dos polícias condenados por torturas ou abusos com os detidos. Assim o fez Rajoy em fevereiro com cinco mossos torturadores com sentença em firme. Assim o assinou também Zapatero em 2011, com outros três mossos condenados por dar uma surra a um cidadão. Assim o fizeram também Aznar, Felipe e Suárez durante os últimos trinta anos com dezenas de polícias e policia civis, condenados em firme por torturas no País Basco. Obviamente, a culpa não é da polícia no seu conjunto. Em verdade acho que a maioria são bons profissionais com vocação de servir o cidadão. Mas os seus chefes, os políticos, rara vez atuaram com contundência ante os abusos policiais: ao contrário, com o seu comportamento toleraram-nos.

Se em Espanha a tortura é perdoada, os condenados rara vez entram no cárcere e mesmo voltam a vestir a farda, que tem que fazer um polícia para que ser sancionado?

Ao que parece, gravar um videoclip ao volante.

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P.D. Diz o secretário de Estado de Segurança, Ignacio Ulloa, que estão "estudando desde o início da legislatura a possibilidade de estudar (sic) alguma fórmula" para identificar aos antidisturbios. Recomendo-lhe algo: que estude menos e que copie o que fazem na Alemanha. Não parece tão complicado.

 

Original: El Diario