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Porrada que não se vê, não existe


Ignacio Escolar
19/10/2012

O Governo tem a solução definitiva para acabar com os excessos policiais que vimos nas últimas manifestações. Obrigar os polícias a cumprir a lei e mostrar o seu número de identificação? Pesquisar esses abusos e sancioná-los duramente? Terminar com a política da impunidade que dia após dia, medalha após medalha, aplica o Ministério do Interior? Por suposto que não. O seu remédio consiste em evitar que se vejam os sintomas da doença: em reformar a lei para que seja um delito gravar e difundir por Internet imagens dos polícias "em exercício das suas funções", segundo palavras do diretor geral do ramo, Ignacio Cosidó.

Igual que quando propuseram "modular" o direito à manifestação, o Governo veste agora este novo recorte à liberdade de expressão de boas palavras e desculpas de mau pagador. Cosidó assegura que esta mudança legal chega porque "em ocasiões" se difundem pela rede "insultos e ameaças para os polícias". "Os polícias também têm direito à honra", diz Cosidó, que não esclarece se é que estes servidores públicos têm mais honra que qualquer outro espanhol. Se a atual legislação já penaliza os insultos e as ameaças, sem distinguir profissão, que necessidade há então de regular especificamente estes delitos quando o insultado ou o ameaçado é um polícia?

A resposta é óbvia; a ameaça, outra muito diferente; o insulto é à inteligência desta sociedade. O que procura o Governo com esta nova reforma é ocultar a realidade amedrentando esses manifestantes que têm o bonito costume de demonstrar com imagens que alguns polícias, mais que uma medalha pensionada, merecem uma durísima sanção. A reforma que propõe Cosidó é uma carta branca para que o Ministério do Interior possa depois denunciar qualquer pessoa que difunda imagens que deixem em evidência uma má atuação policial; um desses vídeos que vimos por dúzias nas últimas semanas.

 

Original: El Diario