You are hereVença quem vencer, Obama ou Romney: As relações dos EUA com o mundo árabe mudarão

Vença quem vencer, Obama ou Romney: As relações dos EUA com o mundo árabe mudarão


Robert Fisk
01/11/2012

Os tempos em que os presidentes dos EUA davam instruções aos potentados do Médio Oriente sobre o que dizer e fazer, esses tempos estão a acabar. Depois dos gestos e palavras de amor eterno de Obama-Romney a Israel, semana passada, os árabes puseram-se a pensar para decidir, com calma, qual dos dois candidatos seria melhor para o Médio Oriente. Parece que preferem Barack Obama; mas o problema – como sempre – é o facto triste, patético, obscenamente óbvio, de que essa decisão não fará nem um átomo de diferença.

 
George Bush invadiu o Iraque depois de dar permissão a Ariel Sharon para prosseguir na colonização da Cisjordânia ocupada. Obama saiu do Iraque, ampliou a guerra de aviões-robôs, os drones, na fronteira Paquistão-Afeganistão e depois meteu o rabo entre as pernas, quando Benjamin Netanyahu o informou de que nem se discutiria qualquer possibilidade de Israel retirar-se para as fronteiras de 1967. Em vez de ordenar “Sim, Israel vai-se retirar”, como presidente forte e independente, Obama lá ficou, encolhido na sua poltrona na Casa Branca, enquanto o primeiro-ministro de Israel lhe dizia, com todas as letras, que a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU – o próprio fundamento do inexistente “processo de paz” – era letra morta.
 
Desde então, Mitt Romney, que parece entender tanto de Médio Oriente quanto aquele pastor texano que queimou um Corão, só repete que os palestinianos “não têm interesse algum em fazer a paz” e até hoje ainda não conseguiu explicar satisfatoriamente porque, em 2005, como governador de Massachusetts, se mostrava tão interessado em instalar escutas clandestinas em mesquitas. Assim sendo, só resta desejar boa sorte aos árabes.
 
Mas a verdade é que o próximo presidente não terá liberdade para definir qualquer política independente para o Médio Oriente. A relação privilegiada com Israel continuará – a menos que Israel ataque o Irão e arraste os EUA para mais uma guerra no Médio Oriente.
 
De novidade, isso sim, é que, pela primeira vez na história dos EUA, o candidato que consiga ser eleito presidente terá de lidar com um novo mundo árabe, com um novo mundo muçulmano.
 
O ponto crítico é que o Despertar Árabe (acabemos, por favor, para sempre, com a conversa de “primavera”) manifesta a voz de gente que exige ser tratada com dignidade. Há aí também muçulmanos não árabes – e que outra coisa seria, senão isso, a minirrevolução dos Verdes iranianos, depois das últimas eleições no Irão?
 
E devem-se somar os milhões de muçulmanos que vivem na parte do mundo que nós ainda gostamos de chamar de Médio Oriente – que nada parece ter de “médio”, para quem viva lá – e que, agora, também planeiam tomar decisões próprias, baseados nos próprios desejos, não nos desejos dos sátrapas ex-presidentes e dos patrões dos sátrapas, em Washington. La Clinton continua sem dar sinais de ter percebido isso. Obama talvez veja. Romney? Aposto que não acertaria o nome de nenhuma das nações da região, no mapa, exceto um, claro.
 
Ao contrário do que o ocidente crê, que os árabes estariam lutando por “democracia”, a batalha e a tragédia do Médio Oriente hoje – e seja qual for o saldo da revolução “soft” na Tunísia ou da carnificina na Síria – acontecem em torno da palavra “dignidade”, sobre o direito de, como ser humano, dizer o que deseja que seja feito a quem ele decida dizer, e nunca mais admitir que um déspota se apresente como proprietário de um país inteiro (desde que autorizado a tanto pelos EUA) e trate, países e cidadãos, como se fossem sua propriedade privada.
 
Sim, revoluções são confusas. A revolução egípcia não saiu como se pensou que sairia. A Líbia está rachando ao meio. A Síria é um cataclismo. Mas o povo árabe finalmente começou a falar e, doravante, os árabes saberão exigir que os seus presidentes e primeiros-ministros obedeçam aos seus desejos, não a ordens de Washington ou de Moscovo.
 
Diferente da crença cara aos Romneys, para os quais haveria défice de valores civilizacionais entre os árabes – que perderiam de longe para os valores da civilização de Israel – os povos do Médio Oriente estão a comprovar exatamente o contrário. É processo lento, negócio demorado: todos os leitores que nesse momento leem esse artigo já estarão mortos, ou muito velhos, antes de que a “revolução” árabe se complete.
 
Mas os tempos em que presidentes dos EUA davam instruções aos potentados do Médio Oriente sobre o que dizer e fazer, esses tempos estão a acabar. Ainda demorará para que venha abaixo o regime saudita, com todos os outros postos de gasolina espalhadas pelo Golfo. E é preciso dizer que a tragédia dos palestinianos, provavelmente, está e sempre esteve no coração do Despertar Árabe.
 
Infelizmente, os palestinianos são os únicos que não se beneficiam das revoluções árabes. Já não resta terra suficiente, aos palestinianos, para terem um Estado seu. Aí está facto acima de qualquer dúvida (como dizia Enoch Powell1).
 
Quem ainda duvida, compre passagem e voe até Israel e olhe para a Cisjordânia. Não há mais espaço para os palestinianos; essa é a tragédia real que os presidentes dos EUA, sejam eles quais forem, têm de encarar nos anos futuros.
 
30/10/2012, retirado de Information Clearing House
 
Traduzido pelo pessoal de Vila Vudu