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Amaia Egaña, vítima da injustiça da lei


Naiz
12/11/2012

Foram capazes de mudar a Constituição espanhola de um dia para outro, mas a reforma legal para frear os despejos não corria pressa. As milhares de famílias expulsadas das suas moradas por não poder fazer frente a uma hipoteca, isto é, por causa da usura de alguns, longe de ser uma preocupação de primeira ordem, são abandonadas à sua sorte enquanto a lei e as administrações protegem esses atropelos. Ontem muitas vozes institucionais somaram-se às das de cada vez mais cidadãos e cidadãs que vinham denunciando o que cada dia viam na sua localidade, na sua rua. O próprio Governo espanhol anunciava contactos «urgentes e imediatos» para trabalhar em uma proposta sobre os despejos. Mas fazia-o depois de conhecer-se a notícia da morte de Amaia Egaña, a mulher que na manhã de ontem preferiu fazer frente à vertigem que provoca olhar à rua desde um quarto andar que ao que lhe provocava a perda da sua casa.

Reconhecem o injusto da norma que possibilita os despejos, e a necessidade da mudar, mas asseguram que antes de mais nada tem de se cumprir a lei, como bem sabem as gentes que tentaram evitá-los ou simplesmente foram mostrar a sua solidariedade com os expulsados, e as marcas das porras lho têm recordado constantemente. Mas essas gentes foram espancadas em nome da lei, de uma lei que segundo o ditame da advogada geral do Tribunal de Justiça da União Europeia, vulnera o regulamento europeu. Agora dizem que a reforma legal é urgente, e o é, mas chegam tarde, pressionados pela crescente indignação popular e por não poderem sustentar a olhada ante o corpo inerte de uma mulher de 53 anos vítima da injustiça conscientemente desenhada e consentida. Chegam irreparavelmente tarde.

Essa pressão popular, no entanto, não pode se relaxar, uma sociedade digna não pode permitir não já que uma pessoa se veja abocada a lançar-se desde uma janela, senão que ninguém tenha que abandonar o seu lar. Depois desta urgente batalha, Amaia Egaña continuará na memória de todos e todas, e permanecerá a terrível pergunta de se a sua morte era precisa para retificar a injustiça.