You are hereGaza: não há clisé jornalístico que esconda a realidade

Gaza: não há clisé jornalístico que esconda a realidade


21/11/2012

“Ataques aéreos cirúrgicos”, “extirpar o terror”, “ciberterrorismo”... Nós, jornalistas, estamos a escrever como ursos de circo, repetindo todos os clichés que usamos, sem parar, há 40 anos. 

Terror, terror, terror, terror, terror. Lá vamos nós outra vez. Israel vai “extirpar o terror palestiniano” – o que, vale lembrar, Israel tenta, sem sucesso, há 64 anos – e o Hamas (...) anuncia que Israel “abriu as portas do inferno”, quando assassinou o seu comandante militar, Ahmed al-Jabari.

O Hezbollah anunciou várias vezes que Israel abrira “as portas do inferno” ao atacar o Líbano. Yasser Arafat, que foi super-terrorista e, depois, super-estadista – quando capitulou nos jardins da Casa Branca – e depois voltou a ser outra vez super-terrorista, quando se deu conta de que fora enganado em Camp David, Arafat também falou de “portas do inferno” em 1982.

E nós, jornalistas, estamos a escrever como ursos de circo, repetindo todos os clichés que usamos, sem parar, há 40 anos. O assassinato do comandante Jabari foi “assassinato predefinido”, foi “ataque aéreo cirúrgico” – como outros “ataques cirúrgicos israelitas” que mataram quase 17 mil civis no Líbano em 1982; 1.200 libaneses, a maioria dos quais civis, em 2006; ou os 1.300 palestinianos, a maioria dos quais civis, em Gaza em 2008-9, ou a mulher grávida e o bebé, assassinados também por “ataque aéreo cirúrgico” em Gaza na semana passada – e os 11 civis assassinados numa casa em Gaza. O Hamas, pelo menos, com os seus rockets Godzilla, não se pretende atacante “cirúrgico”. (...)

Os ataques israelitas também visam matar mulheres, crianças, qualquer coisa viva, em Gaza. Mas não se atreva a dizer tal coisa, ou você será nazi antissemita perigoso, praticamente o demónio, o mal, a perversão, tão assassino quanto o Hamas, com o qual (mas, por favor, nem pense em dizer tal coisa) Israel negociou muito, alegremente, nos anos 80s, sim, quando Israel encorajava o Hamas e os seus homens a assumir o poder em Gaza, porque esse movimento decapitaria Arafat, o super terrorista exilado. A bolsa de mortes em Gaza está hoje em 16 mortos palestinianos por israelita morto. E a proporção vai aumentar, é claro. Em 2008-9, a cotação foi 100 palestinianos, para 1 israelita.

E nós jornalistas estamos também a ajudar a construir mitos. A última guerra de Israel contra Gaza foi um fiasco tão completo – sempre “erradicando o terror”, claro – que as afamadas unidades de elite do exército de Israel não conseguiram sequer achar um soldado, um, capturado, Gilad Shalit, cuja libertação, são e salvo, foi trabalho, ano passado, não de Israel, mas do comandante Jabari em pessoa.

Para a Associated Press, o comandante Jabari seria “o líder nº 1 na clandestinidade” do Hamas. Mas que diabo de “líder na clandestinidade” seria alguém perfeitamente conhecido, nome, endereço, data de nascimento, detalhes da família, anos de prisão em Israel, período durante o qual mudou de lado, do Fatah, para o Hamas?! Como?! Tantos anos de prisão em Israel não converteram ao pacifismo o comandante Jabari? Nada de lágrimas: homem que viveu pela espada morreu pela espada, destino que, claro, não preocupa os guerreiros do ar de Israel, enquanto matam civis, de longe, em Gaza.

Washington apoia o direito de Israel “autodefender-se”, em seguida, fala de uma neutralidade espúria – como se as bombas que Israel lança contra Gaza não viessem dos EUA, tão certo quanto os foguetes Fajr-5 virem do Irão.

Enquanto isso, o lastimável, lamentável William Hague decide que o Hamas seria o “principal responsável” pela mais recente guerra. Mas... de onde tirou essa ideia? Segundo o The Atlantic Monthly, o assassinato, por israelitas, de um palestiniano “mentalmente desequilibrado” que caminhou em direção à fronteira, pode ter sido o detonador da mais recente guerra. Há também quem suspeite que tudo tenha começado com o assassinato de um menino palestiniano, que seria ato deliberado de provocação. E há quem diga que o menino foi morto por israelitas quando um grupo de palestinianos armados tentava cruzar a fronteira e foi impedido por tanques israelitas. Nesse caso, pistoleiros palestinianos – talvez não do Hamas – podem ter sido o detonador de tudo.

E não há meio para deter essa loucura, esse lixo de guerra? É verdade que centenas de foguetes são lançados contra Israel. É verdade também que milhares de acres de terra são roubadas dos árabes, por Israel – para judeus e só para judeus – na Cisjordânia. Hoje, já não resta terra suficiente, sequer, para um Estado palestiniano.

Apaguem o parágrafo acima, por favor. Só há os heróis e os vilãos neste conflito horrendo, no qual os israelitas dizem que são os heróis, para os aplausos dos países ocidentais (os quais, imediatamente, passam a perguntar-se por que tantos muçulmanos não gostam muito de ocidentais).

O problema, por estranho que pareça, é que as ações de Israel na Cisjordânia e o sítio de Gaza trazem cada dia para mais perto o evento que Israel diz temer todos os dias: Israel talvez se veja face a face com a própria destruição.

Na batalha dos foguetes – com os Fajr-5 iranianos e os drones do Hezbollah – os dois lados avançam por uma nova senda de guerra. Já não se trata de tanques israelitas que cruzam a fronteira do Líbano ou a fronteira de Gaza. Começamos a falar de foguetes e drones de alta tecnologia e de ataques cibernéticos – ou “ciberterrorismo” quando a iniciativa é dos muçulmanos – e, cada dia que passa, a escória humana deixada aos pedaços à margem do caminho será ainda mais irrelevante do que é hoje e ao longo dos últimos três dias.

O despertar árabe começa a seguir caminho próprio: os líderes terão de ouvir a voz das ruas. Desconfio que acontecerá também ao pobre velho rei Abdullah da Jordânia. O palavreado dos EUA sobre “paz”, ao lado de Israel, já não vale uma vela queimada, entre os árabes. E se Benjamin Netanyahu crê que a chegada dos primeiros foguetes Fajr do Irão exigirá um Big Bang israelita contra o Irão, e depois o Irão devolve os tiros – e, talvez, também os norte-americanos – e, no pacote, logo virá também o Hezbollah – e Obama acaba engolido em mais uma guerra ocidente-muçulmanos... Sim, mas... então... o que acontecerá?

Ora... Israel pedirá um cessar-fogo, o que Israel sempre pede, contra o Hezbollah. E pedirá outra vez o imorredouro apoio do ocidente na sua luta contra o mal do mundo, o Irão incluído.

E o assassinato do comandante Jabari? Por favor, esqueçam que os israelitas estavam a negociar com o próprio Jabari, usando como intermediário o serviço secreto alemão, há menos de um ano. Não se negoceia com terroristas, certo? Israel negoceia.

Israel batizou o mais recente banho de sangue que promove em Gaza de Operação Pilar da Defesa. Está mais para Pilar da Hipocrisia.

19/11/2012, Robert Fisk [The Independent], em Information Clearing House

Tradução do coletivo de tradutores da Vila Vudu

 

Fonte: esquerda.net