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O calvário de Bradley Manning


Amy Goodman
20/12/2012

O soldado Bradley Manning pôde, finalmente, falar publicamente em sua defesa, numa audiência preliminar do conselho de guerra a que será submetido no próximo ano. Manning é a suposta fonte da maior divulgação de informações de segurança da história de Estados Unidos. O soldado, que trabalhava como analista de segurança no Exército dos Estados Unidos e tinha acesso a informação ultra secreta, foi enviado para o Iraque. Em abril de 2010, Wikileaks, o site que publica documentos confidenciais, tornou público um vídeo no qual se vê um helicóptero Apache das Forças Armadas norte-americanos a disparar sobre uma dúzia de civis, entre os quais dois funcionários da Reuters, um repórter de vídeo e o seu motorista, em Bagdade.

Um mês depois da publicação do vídeo, Manning foi preso no Iraque e acusado de ter passado à Wikileaks o vídeo e centenas de milhares de documentos. Assim começou o seu calvário de encarceramento em prisão solitária, em condições cruéis e degradantes que muitos sustentam que equivalem à tortura, desde a sua detenção no Kuwait até aos meses de detenção na base militar de Quantico, na Virginia, Estados Unidos. Devido à condenação mundial contra as suas condições de detenção, as forças armadas norte-americanas transferiram Manning para um centro de detenção em Fort Leavenworth, Kansas, onde as condições não são tão severas.

Enquanto Manning enfrenta 22 acusações num conselho de guerra que poderá condená-lo a prisão perpétua, o seu advogado argumentou na audiência preliminar que o caso deveria ser anulado devido ao castigo ilegal aplicado ao soldado antes do julgamento.

O veterano advogado constitucionalista, Michael Ratner, encontrava-se na sala de audiências em Fort Meade, Maryland, no dia em que Manning fez a sua declaração. Ratner descreveu a cena: “Foi uma das cenas mais dramáticas que jamais tinha visto numa sala de audiências. (...) Quando Bradley começou a falar não estava nervoso. O seu depoimento foi extremamente comovedor, realmente emotivo para todos nós, mas especialmente, como é evidente, para Bradley até por tudo o que teve que suportar. Foi terrível o que lhe sucedeu em dois anos, mas descreveu isso com riqueza de detalhes de um modo eloquente, inteligente e consciente".

Ratner disse que Manning descreveu como esteve detido numa jaula no Kuwait: "Eram duas jaulas. Disse que eram como jaulas para animais. Estavam numa tenda, só estas duas jaulas, uma junto da outra. Uma delas continha alguns dos haveres de Manning, e na outra, em que ele estava, tinha uma pequena cama, uma prateleira e uma sanita. Permaneceu nesta jaula escura durante quase dois meses. Tiraram-no por um curto período de tempo e depois, sem dar explicações, voltaram a colocá-lo na jaula. (...) Bradley disse sobre esse período: “Acho que perdi a noção do tempo. Não sabia se era de dia ou de noite. O meu mundo tornou-se muito, muito pequeno. Converteu-se nessas duas jaulas”. Ratner acrescentou: “Isso quase o destruiu”.

Depois da sua detenção no Kuwait, Manning foi transferido para uma base militar em Quantico. O seu advogado defensor, David Coombs, disse este mês: “O modo como trataram Brad em Quantico ficará gravado para sempre na história do nosso país como um momento lamentável. Não foi somente estúpido e contraproducente, como foi criminoso”.

O advogado Michael Ratner também descreveu o momento em que Bradley Manning explicou o sucedido em Quantico: “Bradley contou como era estar nessa cela, em que devia dormir numa pequena cama, com uma luz frontal apontada para ele, que deixavam acesa para poder observá-lo. Se ele se movia para evitar a luz iam acordá-lo. Isso acontecia de noite. Durante o dia passava entre 23 e 23 horas e meia na cela, quando muito tinha 20 minutos do que denominam 'exercício ao sol', que não é nada. E que podia fazer? Porque supostamente está em serviço, deve ou estar de pé ou sentado na cama de metal com os pés no solo e não pode apoiar-se em nada. Isto durante 10 ou 15 horas do dia, o que deve denominar-se privação dos sentidos”.

O relator especial das Nações Unidas sobre tortura, Juan Méndez, tentou visitar Manning, mas depois recusou-a porque as forças armadas lhe disseram que poderiam vigiar e gravar a visita. Méndez informou: “A detenção em isolamento é uma medida severa que pode provocar grave dano psicológico e fisiológico aos indivíduos, independentemente da sua situação específica”.

Os oficiais do exército descreveram o tratamento cruel aplicado a Manning como necessário, porque, segundo afirmaram, havia o risco de que tentasse suicidar-se. No entanto, o Capitão da Armada William Hocter, um psiquiatra forense de Quantico, disse que não existia tal risco, mas não o escutaram. “Sou médico chefe há 24 anos e nunca vi algo igual”, declarou Hocter. “Era claro que estavam decididos a tomar um determinado curso de ação e pouco importaram as minhas recomendações”.

A primeira etapa do conselho de guerra, que Coombs denomina “a etapa das moções de castigo ilegal prévia ao julgamento”, apresentou uma moção da defesa para anular o caso. Apesar de ser improvável que isto aconteça, quem segue o caso sustenta que a defesa solicitou, como alternativa, que o conselho de guerra considere reduzir a pena de Manning que resultar do julgamento à razão de 10 dias por cada dia em que teve que suportar o tratamento cruel e degradante no Kuwait e em Quantico, o que em teoria poderia significar uma redução de seis anos da sua condenação a prisão.

Bradley Manning está acusado de passar uma série de documentos a Wikileaks, que incluem o vídeo do massacre de Bagdade, dois grandes conjuntos de documentos relacionados com os registos militares norte-americanos das guerras do Iraque e do Afeganistão e, talvez o mais importante, mais de 250.000 telegramas do Departamento de Estado dos Estados Unidos, conhecido como “Cablegate” (em referência a Watergate). Depois de uma avaliação realizada em agosto de 2010, o então Secretário de Defesa, Robert Gates, sustentou que a publicação dos documentos “não revelou fontes nem métodos de segurança importantes”. Manning ofereceu-se para se declarar culpado da passagem dos documentos, mas não das acusações mais graves de espionagem ou de ter ajudado o inimigo.

Bradley Manning fará 25 anos a 17 de dezembro na prisão, data do segundo aniversário da morte do jovem tunisino que se imolou em protesto contra o governo corrupto do seu país, o que abriu caminho à Primavera Árabe. Há um ano, quando a revista Time nomeou o “manifestante”, em termos genéricos, como Personagem do Ano, o lendário informador dos Documentos do Pentágono, Daniel Ellsberg, elogiou essa decisão numa declaração que também se aplica à realidade atual: “A manchete da revista Time nomeia o manifestante, um manifestante anónimo, 'Personagem do Ano', mas é possível pôr um rosto e um nome a essa foto da 'Personagem do Ano'. O rosto norte-americano que eu poria nessa manchete seria a do soldado Bradley Manning”.

Artigo publicado em "Democracy Now" em 14 de dezembro de 2012. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.

 

Traduzido para português por Carlos Santos a partir da versão em espanhol.