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Agora no Mali


Fabian Figueiredo
29/01/2013

O que motivou a França, com o apoio logístico e diplomático das demais potências estrangeiras, a intervir no conflito? 

 Dizem-nos que agora é no Mali, que as bombas e as balas vão garantir a democracia e combater o terrorismo islâmico. Mas, para lá da propaganda pretensamente humanitária, o que motivou a França, com o apoio logístico e diplomático das demais potências estrangeiras, a intervir convictamente no conflito?

O palácio do Eliseu tem um longo historial de intervenção militar nas suas ex-colónias, mesmo após a descolonização, o exército interveio no Congo, no Gabão, na República Centro-Africana e na Costa do Marfim.

Uma das primeiras conclusões a tirar é que a Françafrique só foi formalmente desmantelada. França, como ex-potência colonial, tem-se mantido como tutora destes países, nunca tendo reduzido significativamente a sua influência, nem a defesa dos seus interesses económicos e políticos no continente.

Por estes dias, tem-se repetido ad nauseum, que a resolução do conflito maliano, por via militar, é de elementar importância para a Europa. Caso contrário, afirma o discurso oficial, corre-se o sério risco do país se transformar numa nova base de treino e apoio ao terrorismo mundial, como “fora o Afeganistão”, pondo assim em cheque a segurança e a estabilidade ocidentais1.

Para lá da cortina de fumo, coloca-se-nos uma outra pergunta, como é que um dos países mais pobres do mundo pode ter interesse estratégico e económico para o ocidente em geral e em particular para a França?

Apesar de não ter acesso direto ao mar - uma limitação económica histórica do país – os recursos naturais do Mali são abastados, com um forte potencial de exploração. Atualmente é o terceiro maior produtor africano de ouro, tendo em vista projetos para a extração de petróleo, urânio e diamantes, para lá das inúmeras pedras preciosas que já exporta2.

É no garante da exploração destes recursos por empresas francesas, que reside a principal preocupação de François Hollande em manter a estabilidade do regime e a coesão territorial, como explica a cientista política Katrin Sold do conservador Conselho Alemão de Política Externa: "A longo prazo, a França tem interesse em explorar os recursos minerais da região do Sahel, principalmente petróleo e urânio, mineral que a empresa nuclear francesa Areva já explora há décadas no vizinho Níger"3.

Como a história tem demonstrado, as intervenções militares externas em nome dos direitos humanos, da democracia e da segurança não passam de retórica justificativa para o saque colonial. O recém-eleito presidente francês, nesta matéria, é exatamente igual aos seus antecessores.

1 É bom relembrar, que passados mais de onze anos de presença da NATO, nem o Afeganistão está democrático, nem a sharia desapareceu do país. Sendo públicas as negociações entre o governo de Cabul e de Islamabad e os principais líderes talibãs, para um acordo conjunto sobre o futuro do Afeganistão, do qual não reza a oposição das forças do Atlântico Norte.

2 Não é de menor importância sublinhar, que uma parte significativa dos investimentos previstos se situam no Norte da Região, zona maioritariamente controlada pela aliança rebelde, constituída por tuaregues e islamitas radicais. 

Original: esquerda.net