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Bradley Manning e a Wikileaks abriram uma janela na alma política dos EUA


01/02/2013

O tratamento repressivo aplicado a Bradley Manning, preso em condições desumanas, é uma das desgraças do primeiro mandato de Obama. Comparem com os vigorosos esforços da administração para proteger os crimes de guerra da era Bush e a fraude de Wall Street de qualquer forma de responsabilidade jurídica. 

 Os Estados Unidos não fazem nada para castigar os culpados dos crimes de guerra e a fraude de Wall Street, mas dedicam-se a demonizar quem os denuncia.

Durante o último ano e meio, todo o tempo em que Bradley Manning passou numa prisão militar, muitas coisas foram ditas sobre ele, mas não o ouvimos dizer nada. Isso mudou apenas no final de dezembro, quando o soldado do exército norte-americano de 23 anos de idade, acusado de divulgar documentos secretos à Wikileaks, testemunhou sobre as condições da sua prisão no tribunal marcial, que abriu um processo contra ele.

Há algum tempo, pudemos saber das medidas opressivas, que beiram a tortura, incluindo o prolongado confinamento na solitária e a nudez forçada. Numa investigação formal, as Nações Unidas denunciaram essas condições ao considerá-las "cruéis e desumanas". O porta-voz do Departamento de Estado do presidente Obama, o coronel aposentado da força aérea PJ Crowley, admitiu, depois de condenar publicamente o mau-trato imposto a Manning. Um psicólogo que trabalha nas prisões testemunhou esta semana que as condições em que mantiveram Manning eram piores do que as de quem se encontrava no corredor da morte ou em Guantánamo.

Ao escutar a descrição de todos esses abusos, através das próprias palavras do acusado de repassar informações, sentíamos também como nos demonstrava visceralmente o seu horror. Ao informar sobre a investigação, Ed Pilkington, do The Guardian, citava Manning: "Quando precisava de papel higiénico, tinha de ser duro e gritar: "O preso Manning solicita papel higiénico!". E: "Autorizavam-me 20 minutos de sol, acorrentado, a cada 24 horas". No início da sua prisão, recordava Manning: "Dei-me totalmente por vencido. Pensei que ia morrer nesta jaula para animais de dois metros e meio por dois metros e meio”.

O tratamento repressivo aplicado a Bradley Manning é uma das desgraças do primeiro mandato de Obama e demonstra muitas das dinâmicas que estão a moldar a sua presidência. O presidente não só defendeu o tratamento aplicado a Manning, mas também decretou indevidamente a sua culpa, quando numa entrevista afirmou "que ele havia desrespeitado a lei".

E, o que é pior, Manning não é acusado apenas de revelar informação confidencial, mas também da ofensa capital de "ajudar o inimigo", pela qual poderá ser aplicada a pena de morte (os procuradores militares solicitam "apenas" prisão perpétua). A radical teoria do governo é que, mesmo que Manning não tivesse esse propósito, a informação pode ter ajudado a Al Qaeda, uma teoria que rotula basicamente qualquer divulgação de informação confidencial – por um denunciante ou por um jornal – como traição.

Seja o que for que se pense dos supostos atos de Manning, parece ser o clássico denunciante. Podia ter vendido a informação a algum governo estrangeiro ou grupo terrorista. Pelo contrário, arriscou aparentemente a sua liberdade para mostrar essa informação ao mundo porque, segundo alegou quando pensava que ninguém o escutava, queria desencadear "discussões, debates e reformas no âmbito mundial".

Comparem este agressivo processo com Manning com os vigorosos esforços da administração de Obama para proteger os crimes de guerra da era Bush e a fraude de Wall Street de qualquer forma de responsabilidade jurídica. Nenhum dos autores desses verdadeiros crimes enfrentou no tribunal alguma ordem de Obama, uma comparação que reflete as prioridades e valores da Justiça nos Estados Unidos.

Depois temos o comportamento dos partidários de Obama. Desde que informei pela primeira vez as condições da prisão de Manning, em dezembro de 2010, muitos deles não só se animaram com o abuso, como também ridicularizaram grotescamente as preocupações com o fato. Joy-Ann Reid, uma antiga assessora de imprensa de Obama e agora colaboradora na rede progressista MSNBC, respondia de forma sádica ao relatório: "Bradley Manning não tem travesseiro?" Dessa forma, reproduzia numa das páginas da Internet mais extremistas da direita, RedState, que da mesma maneira gozava com o relatório: "Devolvam o travesseiro e o cobertor a Bradley Manning".

Como sempre, os jornalistas do establishment “facilitam” ao governo cada passo desse caminho. Apesar da pretensão de aparecer como vigilantes, nada mais provoca o ânimo de alguém que desafia realmente as ações do governo.

Como exemplo dessa mentalidade, temos uma recente entrevista da CNN com o fundador da Wikileaks, Julian Assange, dirigida por Erin Burnett. Abordaram os documentos recentemente publicados, que revelam os esforços secretos de funcionários dos EUA, pressionando instituições financeiras para bloquear o financiamento da Wikileaks, uma vez que a organização publicou os documentos confidenciais, supostamente filtrados por Manning – uma forma de castigo extralegal, que deveria preocupar todos, especialmente os jornalistas.

Mas a anfitriã CNN não tinha nenhum interesse nos perigosos atos do seu próprio governo. Ao contrário, tratou rapidamente de mostrar que Assange condenara as políticas de imprensa do Equador, um país pequeno que, diferente dos Estados Unidos, não exerce influência além das suas fronteiras. Para os especialistas da imprensa vigilante dos EUA, Assange e Manning sãos inimigos a ser desprezados, porque fizeram o trabalho que a imprensa empresarial americana se recusa a fazer: levar transparência aos atos infames do governo dos Estados Unidos e dos seus aliados por todo o planeta.

Bradley Manning proporcionou ao mundo vários benefícios vitais. Mas enquanto o seu conselho de guerra chega finalmente à conclusão, que provavelmente será a imposição de uma longa sentença de prisão, parece que o seu maior presente é esta janela aberta na alma política dos Estados Unidos.

Glenn Greenwald é um ex-advogado constitucionalista dos EUA, colunista, blogger e escritor. Trabalhou como advogado especializado em direitos civis e constitucionais antes de se tornar um colaborador da Salon.com, onde se especializou em análise de temas políticos e jurídicos. Colaborou também com outros jornais e revistas de informação política como o The New York Times, Los Angeles Times, The Guardian, The American Conservative, The Nacional Interest e In These Times. Em agosto de 2012, deixou a Salon para colaborar com o The Guardian.

Publicado na Carta Maior

Tradução para o português: Telesur, adaptação para Portugal pelo Esquerda.net

 

Original: The Guardian