You are hereBrenan e Kiriakou, aviões não tripulados e tortura

Brenan e Kiriakou, aviões não tripulados e tortura


14/02/2013

John Brennan e John Kiriakou trabalharam juntos há anos, mas as suas carreiras tomaram rumos drasticamente diferentes desde então. Brennan está a cada vez mais cerca de converter-se no novo diretor da CIA, enquanto Kiriakou está a cada vez mais cerca da prisão. Os destinos de ambos estão vinculados à chamada “guerra contra o terrorismo”, que foi largamente condenada a nível mundial durante o governo de George W. Bush. O Presidente Barack Obama deu-lhe um novo nome à guerra contra o terrorismo e refere-se a ela  “de maneira mais inofensiva” como "operações de contingencia no estrangeiro", mas, em lugar de se afastar das práticas reprováveis do seu predecessor, foi mais longe. A ascensão de Brennan e o processamento de Kiriakou demonstram que os excessos recentes do Poder Executivo dos Estados Unidos não são anormalidades transitórias, senão o estabelecimento de uma nova e aterradora normalidade, onde os ataques com aviões não tripulados, a vigilância sem ordens judiciais, os assassinatos e as detenções por tempo indefinido se levam a cabo com arrogância e impunidade, protegidos pelo segredo e além do alcance da lei.
 
John Kiriakou trabalhou durante 14 anos na CIA como analista e oficial de caso. Em 2002 liderou a equipa que encontrou a Abu Zubaydah, supostamente um alto membro da o Qaeda. Pouco tempo depois, em 2007, Kiriakou foi o primeiro servidor público em confirmar publicamente, numa entrevista com Brian Ross de ABC News, que a CIA praticava a técnica do submarino. Kiriakou disse nessa entrevista: “Nesse momento parecia-me que a prática do submarino era algo que devíamos fazer. Mas agora que passou o tempo e o 11 de setembro está a cada vez mais longe mudei de parecer e acho que o submarino é provavelmente algo que não deveríamos praticar". Kiriakou disse que as chamadas “técnicas avançadas de interrogatório” lhe pareciam imorais e que recusou ser capacitado para as usar.
 
Desde aquela entrevista, fez-se público que Zubaydah foi interrogado com a técnica do submarino pelo menos 83 vezes e que esses interrogatórios não proporcionaram nenhuma informação útil. Zubaydah ainda continua encarcerado na Baía de Guantánamo, sem que tenham sido apresentados cargos na sua contra. Kiriakou começará em breve a cumprir a sua própria sentença de 30 meses de prisão, mas não por ter divulgado informação sobre a técnica do submarino. Declarou-se culpado de revelar o nome de um ex interrogador da CIA a um jornalista, com informação que o interrogador mesmo publicava num site público.
 
Entretanto, espera-se que John Brennan, atual assessor em assuntos de antiterrorismo de Obama, receba a confirmação do Senado para começar a exercer de novo diretor da central de inteligência.
 
Recentemente perguntei-lhe a John Kiriakou que pensava de John Brennan: “Conheço John Brennan desde 1990. Trabalhei diretamente para ele duas vezes. Acho que é uma muito má eleição para liderar a CIA. É hora de que a CIA se distancie da escuridão do regime posterior ao 11 de setembro. Precisamos a alguém que respeite a Constituição e que não fique pegado no legado de tortura que tem a CIA. O facto de que o Presidente Obama eleja John Brennan envia a mensagem equivocada a todos os cidadãos estadounidenses".
 
O Presidente Obama já considerava Brennan como possível diretor da CIA em 2008. Mas nessa altura Brennan retirou a sua candidatura depois de receber amplas críticas pelo apoio que deu às políticas de tortura da era Bush nos diferentes altos cargos de inteligência que ocupou durante o seu governo, por exemplo, quando foi diretor do Centro Nacional Antiterrorista.
 
Que diferença fazem quatro anos. Com a morte de Osama bin Laden no bolso, Obama parece inmune a críticas pelas suas ações antiterroristas. Diz-se que John Brennan manejará a tristemente célebre “lista de assassinatos seletivos” de pessoas que Obama acha que tem o direito de assassinar em qualquer momento e lugar do planeta, como parte das suas chamadas “operações de contingencia no estrangeiro”. Aqui inclui-se o assassinato de cidadãos estadounidenses, embora não se apresente nenhum cargo no seu contra, nem se realizem julgamentos ou se cumpra com o devido processo. Os ataques com aviões não tripulados é uma das maneiras nas que se levam a cabo estes assassinatos. O cidadão estadounidense Anwar a o-Awlaki foi assassinado no Iemen num ataque com um avião não tripulado. Duas semanas depois, o seu filho de 16 anos nascido em Denver, Abdulrahman, morreu da mesma maneira.
 
Também perguntei que opinava de Brennan ao Coronel Lawrence Wilkerson, chefe de assessores do Secretário de Estado Colin Powell desde 2002 a 2005. Disse-me: “O que acontece com os ataques com aviões não tripulados no mundo inteiro neste momento é, na minha opinião, tão mau como muitas das coisas que reprovámos agora tão facilmente, em retrospectiva, do governo de George W. Bush. Estamos a criar mais inimigos dos que matamos. Estamos a fazer coisas que violam o direito internacional. Estamos mesmo assassinando cidadãos estadounidenses sem devido processo e temos um promotor geral que diz que o devido processo não inclui necessariamente o processo legal. Estas palavras são realmente aterradoras”.
 
Enquanto John Kiriakou está próximo de ir a prisão por revelar um nome, o Bureau de Jornalismo de Investigação do Reino Unido (BIJ, pelas suas siglas em inglês) apresentou um projeto chamado "Naming the Dead" (“O nome dos mortos”) com a esperança de “identificarmos a maior quantidade possível de pessoas assassinadas em ataques encobertos com aviões não tripulados dos Estados Unidos no Paquistão, já sejam civis ou militares”. A BIJ informa que, aparentemente, “pelo menos 2629 pessoas morreram até agora em ataques com aviões não tripulados da CIA no Paquistão”. Dever-se-lhe-ia perguntar a John Brennan a respeito do destino da cada uma delas.
 
(Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.)

Traduzido por EsCULcA a partir da versão em espanhol aparecida em Democracy Now.