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O jogo dos drones


11/05/2013

Afinal já se sabe. A misteriosa autoridade legal do programa de Barack Obama para matar servindo-se de drones vem-lhe de um governo anterior, com interpretação elástica do poder executivo: do governo de Richard Nixon.

  Num documento aterrador, de 16 páginas, conhecido singelamente como “O documento”, um dos cérebros do Departamento de Justiça de Obama cita o bombardeamento clandestino contra o Cambodja, em 1969, como antecedente e fundamento legal que justifica(ria) os ataques de drones, que hoje invadem profundamente territórios de países contra os quais os EUA não estão em guerra.

Essa revelação espantosa vem redigida numa prosa antissética, de um corretor de seguros que anuncia a improcedência de um processo, baseado em condição pré-existente. Pois é. O bombardeamento do Cambodia (também chamado “Operação Menu”), que envolveu mais de 3 mil ataques aéreos, foi universalmente, ou quase, denunciado como crime de guerra. Agora, o governo Obama consagra oficialmente o crime e a atrocidade, como precedentes que legalizariam as matanças que o próprio governo autoriza.

Desde a eleição de Obama, a CIA coordenou cerca de 320 ataques de drones só no Paquistão, nos quais mais de 3 mil pessoas foram mortas, 900 das quais, civis. Entre os mortos há, no mínimo, 176 crianças. Nunca antes foi tão fácil assassinar, sem riscos.

Os liberais escarneceram de George W. Bush por se autointitular “O Decisor”. Buch serviu-se dessa expressão patética para defender-se contra as acusações de que Cheney e a sua gangue de neoconservadores mandavam e desmandavam na guerra do Iraque. Mas a postura de Bush sempre seria menos absurda do que a imagem de Obama, pio leitor das homilias de Santo Tomás de Aquino, quando examina pessoalmente os nomes que aparecem na sua lista-de-matar com tiros de drones telecomandados e assiste a vídeos exclusivos dos corpos destroçados pelos seus mísseis Hellfire.

A psique assassina de Bush, pelo menos, expunha-se a análise e explicação. Talvez a sanha de sangue de W se explique por uma fixação freudiana na patética tentativa, de Saddam, para expulsar o Bush pai da cidade do Kuwait. Talvez ele seja acossado por espasmos subconscientes de culpa por ter permitido que o 11/9 acontecesse durante o seu mandato. Mas qual é a força motriz da selvajaria de Obama? Diferentemente de Bush, que tendia a deixar ver lapsos de stress emocional, Obama opera sem emoção, gelado como um sociopata político.

O jogo dos drones de Obama, as atrocidades que ordena em nome do império, parecem conscientemente movidas segundo um profundo algoritmo político de poder e morte.

A esquerda norte-americana mantém-se em grande medida insensível às transgressões de ordem moral e constitucional do seu ‘líder’, deixando à vista só a ridícula, patética figura de Rand Paul, encarregado de desdizer aquelas operações mortíferas, malignas. E o honrado, admirável movimento de Paul, quando discursou por mais de 24 horas, tentando obstruir a sessão do Congresso que confirmaria a indicação de Brennan, mestre dos drones, para dirigir a CIA é ridicularizada como exercício paranoico comparável aos dos Frank-Richs e Lawrence-O’Donnells.

A Esquerda profissional, do caucus progressista aos robóticos militantes de Moveon.org, nada tem a declarar, não faz qualquer objeção e não organiza protestos contra os pré-santificados atos de assassinato do governo Obama, de pré-santificada violência contra os inimigos do Império.

Pior: comportam-se como eunucos políticos, com oferendas, tributos, ‘solicitações’ degradantes ao Mestre Supremo, cada vez que Obama destila a sua conversa fiada ideológica.

O presidente deu-nos aula de mestre de hipnotizador político: transformou a Esquerda Antiguerra dos EUA em funcionários operadores da equipa de gestão imperial.

A Ciber-Esquerda é mantida rigidamente alinhada e perfilada pelos arquitetos da opinião liberal. De David Corn a Rachel Maddow, a imprensa dita progressista atua em sinistra harmonia com a agenda neoliberal do governo. Caninamente ignoram as depredações que Obama tem provocado na Constituição e, em vez de protestar, devotam megahectares de telas e de ondas de rádio e televisão a discutir a ‘crise fiscal’ e o casamento gay.

Noite após noite, impingem-nos discussões colaterais – como Hitchcock introduzia o suspense para a cena seguinte nos seus filmes? –, o enredo de novelas e a vida privada de celebridades, exclusivamente planeadas para distrair a atenção dos públicos, para que ninguém veja o jogo que está a ser jogado. E o comentário liberal, os ‘especialistas’ incansavelmente entrevistados, ou sempre os mesmos, ou qualquer um, desde que diga exatamente o que o outro disse antes dele, sabujamente, são complacentes com a fúria sanguinária dos esquadrões da morte movidos à controle remoto de Obama, mesmo diante da sombria evidência de que o programa de drones é criminoso. Ataque após ataque, raid após raid, assassinato após assassinato, lá estão eles: sempre mudos. Mas esse silêncio só faz ver a cumplicidade, a falta de consciência da própria culpa. Todos têm os dedos marcados, imundos, de sangue longínquo.

Até Nixon, o melhor executor, foi sacudido por defecções entre os seus subordinados, gente que desertou do governo, auxiliares, assessores que chegaram ao próprio limite e renunciaram envergonhados. Um desses foi Roger Morris. Morris, colaborador ocasional de nosso CounterPunch, trabalhou no Conselho de Segurança Nacional durante o governo de LBJohnson e prosseguiu, depois da eleição de Nixon, sob a chefia de Henry Kissinger. Na primavera de 1970, com os bombardeamentos clandestinos no Cambodia, Morris renunciou ao cargo e à carreira. Os tempos mudaram.

Onde estão as figuras equivalentes, em consciência, na Casa Branca de Obama? Ou, que fosse, no Partido Democrata? Acabaram-se as denúncias? Acabaram-se as renúncias por dever de consciência? Talvez o show mais escandalosamente claro seja a perseguição ensandecida contra Bradley Manning. Não se admitirão a contradição nem o contraditório, não importa o pressuposto legal nem o pressuposto moral. De facto, serão considerados sedição e serão punidos pela sanção suprema do presidente e do seu governo.

Atos que, noutros tempos, foram considerados ultrajantes, crimes contra a consciência humana decente, hoje são rotina. Bem-vindos à era do “Assassinato.gov.EUA”.

Artigo de Jeffrey St. Clair, publicado em

Counterpunch

e

Information Clearing House

. Traduzido pelo coletivo Vila Vudue disponível em

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