You are hereA história real do escândalo da NASA significa o colapso do jornalismo

A história real do escândalo da NASA significa o colapso do jornalismo


10/06/2013

Na 5ª-feira, 6/6/, o jornal Washington Post publicou notícia bomba, segundo a qual nove gigantes da indústria de tecnologia estariam participando “deliberadamente” num vasto programa da Agência de Segurança Nacional dos EUA [orig. NSA].

No dia seguinte, sem nada noticiar e sem qualquer alerta aos leitores, o mesmo Washington Post publicou versão diferente da mesma matéria, purgada de todas as frases bombásticas e sensacionalistas que se liam no original. Mas o dano estava feito.

O jornalista que assina a primeira matéria, Barton Gellman, é “Prêmio Pulitzer”.

O Washington Post tem história no jornalismo investigativo que começa antes, até, de Watergate e All the President’s Men. Mas na lista dos mais escandalosos fracassos do jornalismo, o que agora se viu passa, de pleno direito, a encabeçar a lista.

O que o Post noticiou era de estarrecer:

A Agência de Segurança Nacional e o FBI estão gravando diretamente dos servidores centrais de nove das principais empresas de Internet dos EUA, extraindo áudio, vídeo, imagens, e-mails, documentos e conexões que permitem que analistas tracem movimentos e contatos de qualquer pessoa, todo o tempo.
A matéria diz que a Agência Nacional de Segurança:

(...) entrou profundamente nas máquinas das empresas norte-americanas que hospedam centenas de milhões de contas de norte-americanos em solo dos EUA.

Cita especificamente nove empresas: Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, AOL, Skype, YouTube, Apple. E a matéria prossegue:

(...) operando dentro do fluxo de dados de qualquer dessas empresas, a NSA consegue extrair qualquer dado que deseje.

Em apenas algumas horas, a matéria já fora amplificada e repercutida por outras agências de notícias e tech websites, o que gerou manifestações de indignação e fúria pela invasão de privacidade. E sete das nove empresas publicaram declarações em que negam categoricamente que algum dia tenham participado de qualquer programa desse tipo.

E então, na manhã seguinte, aconteceu algo estranhíssimo. Se se segue o link para a matéria do Washington Post, encontra-se ali um texto completamente diferente, com quase o dobro da extensão e manchete ligeiramente modificada. A nova matéria não foi apenas aumentada: extraíram-se de lá detalhes chaves, sem qualquer notícia ou alerta sobre as alterações. A versão “atualizada”, datada das 8h51 de 7 de junho, apagou e “desdiz” vários detalhes chaves da matéria original.

Detalhe crucialmente importante: o Washington Post apagou a expressão adverbial “deliberadamente”, ao falar da participação das empresas. Também apagou a expressão “altamente secreto” que usara, antes, para falar do programa. E, além disso, o jornal mudou um detalhe no nariz da matéria: onde se lia, na versão original, que a NSA pode “rastrear os movimentos e contatos de qualquer pessoa todo o tempo”, apareceu informação completamente diferente: a NSA pode “rastrear alvos estrangeiros”.

 

Aqui está, traduzido, um parágrafo chave da matéria publicada originalmente:

As empresas de tecnologia, cuja cooperação é essencial para as operações PRISM, incluem muitos dos atores globais dominantes do Vale do Silício, segundo o documento. Aparecem listadas num rol com os respectivos logos na ordem em que entraram no programa: “Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, AOL, Skype, YouTube, Apple.” PalTalk, embora muito menor, hospedou tráfego de interesse substancial para a inteligência durante a Primavera Árabe e a atual guerra civil na Síria.

Salvei uma cópia da matéria original e usei a ferramenta “comparar documentos” no Microsoft Word, para mostrar as duas versões, antes e depois da modificação. Veem-se facilmente as diferenças, com as alterações visíveis.

Declan McCullagh da rede CNET examinou a matéria publicada pelo Washington Post e concluiu que “a primeira matéria do Post estava errada”. Lê-se em: No evidence of NSA’s “direct Access” to tech companies. [a seguir, traduzido].

“A matéria está errada e parece baseada em leitura errada de um documento em Powerpoint que vazou”, segundo um ex-funcionário do governo muito familiarizado com o processo de aquisição de dados, e que falou hoje, pedindo para não ser identificado.

“Nada é como o Washington Post e o Guardian publicaram, nessa versão histriônica
” – disse a fonte.

“Nada daquilo é verdade. Há um processo legal muito formalizado, que as empresas são obrigadas a seguir”
.

A história real parece ser muito menos complexa do que as primeiras acusações alarmantes faziam crer. Todas as empresas envolvidas têm de responder a procedimentos legais estabelecidos e são obrigadas a obedecer ordens e mandados judiciais. Nenhuma delas parece estar participando de ações ilegais generalizadas de vigilância sobre os cidadãos.

Assim sendo... o que deu tão errado, no Washington Post?

O principal problema foi que o Post trabalhou sobre uma apresentação em PowerPoint vazada de uma única fonte anônima e rapidamente “concluiu” o que bem entendeu, sem procurar qualquer tipo de confirmação. McCullagh cita uma de suas fontes bem identificadas, o ex-conselheiro geral da NSA, Stewart Baker, que lhe disse que os slides pareciam “batizados” [orig. flaked]:

O PowerPoint parece ter sido “inchado” com um tipo de “conversa” que o faz parecer mais uma apresentação de “marketeiros” que um briefing – ninguém sabe de onde vem e ninguém sabe em que contexto foi produzido” – disse Baker. E concluiu, falando da cobertura do Washington Post: “Serviço feito na correria. Mal feito. Tudo errado”.

“Serviço mal feito, na correria” é o melhor modo de explicar por que o Washington Post mudou tão dramaticamente a própria matéria, em 24 horas. Normalmente, matéria desse tipo tem de ser bem investigada, antes de ser publicada. O que parece é que o Post apressou-se, temeroso de perder “o furo”, porque a mesma apresentação em PowerPoint poderia ter sido vazada para outro jornal, que poderia publicar antes.

Praticamente ninguém, dos que reagiram inicialmente à história, manifestou qualquer ceticismo quanto às fontes ou as conclusões do Washington Post. De fato, traço comum às negativas que as empresas de tecnologia estão divulgando é que todas elas se parecem e todas deixam sem comentar as “acusações”, em declarações cuidadosamente redigidas. Todas dizem praticamente a mesma coisa, porque cada companhia responde, não a algum fato, mas, exclusivamente, à específica linguagem espetaculosa da matéria do Post.

A correria para publicar acionou a câmara de eco da Internet e as redes de notícia da televisão a cabo, numa mesma onda a plenos pulmões. A matéria e seus argumentos – já, ao que parece, completamente desacreditados – disseminaram-se pelo mundo.

O Washington Post tentou remendar o erro modificando, clandestinamente, a própria matéria, sem qualquer sinal de explicação ou de retratação e sem reconhecer que errara. De fato, a versão “corrigida” continua a repetir que a NSA e o FBI “grampearam diretamente os servidores centrais” daquelas empresas – quando já se sabe que isso não foi confirmado e não parece ser verdade.

Em resumo, uma das maiores instituições jornalísticas do século 20, já vive hoje de publicar futricas e boatos, acompanhando a “tendência” de “publique primeiro e investigue depois (ou nunca)”, exatamente como faz qualquer dos seus “concorrentes” impressos ou online.

Algo me diz que a Comissão Pulitzer, ano que vem, não incluirá o Post na relação dos “melhores do ano”.

Fonte: Redecastorphoto.

Traduzido para português por Vila Vudu