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Vigiláncia omnipresente, exposiçom total e o fim da privacidade


19/08/2013

Mais de um ano antes do 11 de setembro, umha comissom de alto nível do congresso sobre terrorismo realizou umha série de recomendaçons que limitavam as liberdades civis.

Para prevenir possíveis ataques terroristas, dizia a comissom, que incluía um antigo diretor da CIA, as restriçons sobre o controlo das comunicaçons deviam ser elminadas e a vigiláncia sobre os estudantes estrangeiros devia ser incrementada.

Na altura, inclusive a conservadora Fundaçom Legal Lincoln considerou a cura “pior do que a doença”, argumentando que tais ameaças nom justificavam a suspensom de direitos constitucionais. No entanto, a maioria do povo, mal conheceu a polémica, e mesmo se a tivesse conhecido, é improvável que tivesse expressado preocupaçom com as implicaçons que o maior controlo das comunicaçons ou da espionagem sobre pessoas nom acusadas de qualquer crime. O problema, afinal, era o terrorismo.

Desde entom, apesar das preocupaçons com a privacidade individual, a vigiláncia sobre a vida diária tem vindo a se converter em tam invasiva que é difícil suportar o aumento da intromissom. Vídeo-cámaras empoleiradas em torno dos bancos, aeroportos, hospitais, caixas automáticos, lojas, autoestradas, elevadores e vestíbulos de prédios. A Agência de Segurança nos Transportes anunciou recentemente que estenderá os seus próprios controlos e revistas em comboios, autocarros e concertos.

As pessoas costumam sentir-se mais seguras com cámaras a observar as ruas das suas localidades e os parques de estacionamento. Há reclamaçons sobre a recolha de dados por parte do Facebook e alguns clientes som contra a recolha de informaçom sobre as suas preferências comerciais por parte de websites e lojas. Porém, a maioria aceita isso como umha aceitável e relativamente inofensiva soluçom de compromisso.

Segundo Bill Gates (que deve saber do assunto), os computadores poderám em breve e de maneira barata realizar filmagens massivas de vídeo para procurarem umha pessoa ou atividade particular. Num livro dele de 1995, The Road Ahead, Gates já anunciara (mas nom recomendava diretamente) umha cámara em cada candeeiro. “O que hoje parece um Big Brother digital, poderá um dia chegar a ser a norma se a alternativa está a ser deixada para a misericórdia de terroristas e criminosos”, escreveu. Milhons escolherám levar umha “vida documentada”, predixo Gates, guardando um registo de áudio, escrito e de vídeo das suas atividades diárias.

Se bem já foi considerada umha ameaçadora intromissom, a vigiláncia tem chegado a se converter numha forma de entretenimento. Através da internet, milhons ponhem orgulhosamente as suas vidas privadas e imagens online. Milhares fam ligaçons para serem vistos por cámaras e audiências de TV as 24 horas do dia. Em “reality shows” televisivos, os concorrentes voluntariamente entregam a sua privacidade com o desejo de ganharem fama e fortuna. Ainda que alguns desses shows podam por vezes dar umha visom do comportamento do grupo, o seu objetivo principal é promover o voyeurismo e, indiretamente, minar qualquer objeçom a outras formas de vigiláncia.

No passado, as preocupaçons sobre a privacidade centravam-se nas atividades do governo. A Quarta Emenda da Constituiçom dos EUA dava proteçom contra “buscas e apreensons nom razoáveis” por parte do Estado, e sentenças do Supremo Tribunal dos Estados Unidos já sugerírom que o direito constitucional à privacidade estava em questom nessas invasons do governo. Porém, há pouca proteçom contra as novas tecnologias e a dramática extensom da vigiláncia privada, enquanto a assunçom pública do Big Brother para se proteger contra o crime ou por pura distraçom, torna mais difícil estabelecer restriçons significativas.

O maior problema pode nom ser a vigiláncia convencional –umha ferramenta de escuita instalada com umha garantia ou um polícia com umha cámara– frente ao uso indiscriminado do vídeo e doutras ferramentas, assim como as implicaçons da manipulaçom do comportamento das pessoas. As pessoas que sabem que som, ou podem ser, observadas acabam por agir de maneira diferente. Através da combinaçom entre planeamento e acaso comercial, as empresas estám a incorporar a vigiláncia à teoria skinneriana para criar umha nova e poderosa forma de condicionamento.

Em nome da eficiência, os empresários usam cámaras e programas de localizaçom para monitorar e moldar os seus empregados. Em nome do entretenimento, as TV's utilizam pessoas num aquário competitivo, promovendo a ideia de que ser totalmente exposto é um privilégio e com o comportamento “ganhador” (nom necessariamente bom) isso pode trazer umha recompensa económica ou polo menos a fama.

Para as pessoas que já sofrem narcisismo –umha epidemia social com sintomas que incluem adiçom a experiências indiretas e medo da dependência e do envelhecimento e desejos insatisfeitos –umha vida de total exposiçom pode chegar a ser umha receita para mais alienaçom e para um distanciamento cínico da realidade.

Tradicionalmente, o narcisista tinha sido definido de maneira limitada como alguém que se relaciona com ele próprio ou com a sua própria imagem. Porém, umha definiçom mais contemporánea deveria incorporar também as caraterísticas acima referidas, assim como a dependência do calor que outros lhes dam, um sentido de vazio interior e umha violência reprimida sem limites.

Os narcisistas podem ser pseudo-inteletuais ou sedutóres calculadores. Sempre ficam fascinados com a fama. No entanto, ainda que tentem encontrar a fama, som freqüentemente compelidos a destruir as suas figuras de fantasia.

Se isto fosse simplesmente umha descriçom de alguns indivíduos “doentes”, poderíamos até ficar descansados. Porém, os padrons do narcisismo afetam milhons e incrementam-se diariamente. Talvez o mais inquietante, a personalidade narcisista é idealmente combinada com posiçons de poder.

Vender-se tem chegado a ser umha forma importante de trabalho no nosso mundo mediado, e o êxito sempre se baseia na capacidade de projetar a “personalidade” e/ ou umha imagem atraente. A autopromoçom também se relaciona intimamente com umha idealizaçom das personalidades poderosas que representam o que o narcisista procura. Os narcisistas identificam-se com ganhadores para se afastarem do seu medo a ficarem como fracassados. Os objetos de adoraçom do heroi tendem a dar significado a vidas doutro modo sem referentes numha sociedade com muitas carências emocionais.

Também misturado com a idealizaçom fica o desejo de degradar o objeto de admiraçom, provocado quando o heroi do narcisista finalmente o desaponta. Essa degradaçom desesperada, intensificada pola promoçom da maquinaria de massas, pode conduzir inclusive ao assassinato como forma de espetáculo.

Até há pouco, o facto de que as agências de inteligência dos EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelándia operassem um sistema de satélites e computadores que podem monitorizar quase todas as comunicaçons eletrónicas mundiais quase nom representava um problema. Depois de todo, todos nós estamos sempre sendo observados em qualquer lugar. Quanto mais soubermos ou participarmos da “espionagem”, menos esquisito parece chegar a ser.

Sermos observados quase constantemente pode fornecer umha superficial sensaçom de segurança e observarmos outras pessoas pode ser emocionante e divertido. O problema é que todo isso também mina o impulso a agir com autenticidade, enquanto leva os dous, o observador e o observado, a representar ameaças ocultas contra a liberdade e um desenvolvimento saudável.

Original: Global Research

Traduçom para galego: Diário Liberdade