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A guerra é a guerra


31/08/2013

Tal como na Líbia e no Afeganistão, o envolvimento ocidental na guerra civil na Síria não tem outro propósito senão o de alterar o equilíbrio de forças no terreno e dar aos rebeldes a força que eles, por si sós, não são capazes de conquistar.

Há duas características marcantes do atual modo ocidental de fazer a guerra. A primeira é a força social dada a narrativas de legitimação que acomodam a realização da guerra nas opiniões públicas: a guerra será rápida, será cirúrgica, não haverá baixas e logo logo regressaremos à normalidade tranquila. A segunda característica é a interdição do uso do nome "guerra" para designar aquilo que se faz. São "operações militares", é "intervenção humanitária", é "proteção de civis". Agora, na Síria, será "uma séria advertência ao regime de Damasco". Mas essa variação semântica disfarça mal o que realmente conta: é sempre e só de guerra que se trata.

Na Síria eterniza-se uma guerra sem quartel entre uma ditadura sanguinária e uma miríade de grupos rebeldes, que guerreiam o regime e se guerreiam entre si. Tal como na Líbia e no Afeganistão, não houve na Síria nenhuma marcha triunfal dos contestatários do regime nem a liberdade e a democracia dominam a sua agenda, longe disso. A limpeza étnica perpetrada pelos rebeldes contra os curdos residentes na Síria - que obrigou à fuga de mais de 40 mil para o Curdistão iraquiano - e a perspetiva de criação de uma "zona libertada" islamista no Norte da Síria num cenário de queda da dinastia alauita são dois sinais importantes do ascendente que os paramilitares jihadistas e as forças do fundamentalismo mais fanático vêm tendo no campo anti-Assad. Tal como na Líbia e no Afeganistão, o envolvimento ocidental na guerra civil na Síria não tem outro propósito senão o de alterar o equilíbrio de forças no terreno e dar aos rebeldes a força que eles, por si sós, não são capazes de conquistar. No enfrentamento com o Irão e na defesa de ditaduras não menos ferozes que as da Síria (a Arábia Saudita ou o Qatar, por exemplo), pouco importa ao Ocidente que os seus títeres locais não sejam recomendáveis, contanto que sejam títeres.

É de substituição de títeres que se trata, portanto. Como Somoza para Roosevelt, os rebeldes de Damasco são para Obama, Cameron, Hollande e seus amigos "sons of a bitch, but our sons of a bitch". O resto é apenas tática. A retórica do escândalo moral pelo uso de armas químicas e a encenação do repúdio por uma guerra de alta intensidade em favor de uma "ação punitiva pontual" são apenas rábulas estafadas para legitimar o que não tem legitimação. Rábulas, sim: Assad e as forças rebeldes já mataram muito mais gente com armas convencionais do que com este alegado uso de sarin e não me consta que tenha havido uma indignação mínima na Casa Branca, em Downing Street ou no Eliseu; e quanto ao emprego de força meramente pontual, é claro que uma ação limitada agora só criará pressão para muito mais ações e muito menos limitadas depois - ou não aprendemos nada com o Afeganistão, com o Kosovo, com a Líbia? O que é verdadeiramente escandaloso é que, tal como em Bagdad há dez anos, os fautores da guerra se escusem de provar quem foram os autores do gaseamento químico contra civis indefesos em Damasco. Alguém - por exemplo, os pressurosos deputados do PS que exigiram um imediato alinhamento português nesta guerra, mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas - pode garantir que serão os culpados do crime, e não os seus inimigos, que verão as suas posições bombardeadas pelos mísseis carregados de intenções humanitárias?

Tivesse a realização da conferência de paz para a Síria proposta por Estados Unidos e Moscovo em maio obtido um décimo do fervor e do empenhamento que agora animam os arautos da solução guerreira e ter-se-iam poupado milhares de vidas. Algo que uma guerra - por mais curta no tempo e mais contida no espaço que consiga ser - jamais poupará.

Artigo publicado no jornal “Diário de Notícias”, em 30 de agosto de 2013.