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França ataca Estado Islâmico, mas vende armas aos seus mentores


23/11/2015

A França está muito interessada nos seus acordos lucrativos de venda de armas com a Arábia Saudita, e pouco se importa que esta apoie o Estado Islâmico. Um artigo de Robert Fisk.

O país que entregou o credo sunita wahhabista que defende aos assassinos do Estado Islâmico e autores dos atentados de Paris, não dará a mínima importância ao facto de François Hollande soprar e ressoprar os ares de guerra no Médio Oriente. A Arábia Saudita já conhece essa ladainha, desde que ela surgiu na forma do discurso da Nova Ordem Mundial – lá para 1991, quando George Bush pai sonhava com uma expressão subhitleriana do Golfo, onde poderia existir um oásis de paz, um lugar sem armas, onde as espadas se transformavam em enxadas, e a riqueza que provém dessas terras deixasse de partir em navios petroleiros para passar por oleodutos mais longos.

Os sauditas estão demasiado ocupados a destruir o Iémen, na sua enlouquecida guerra contra os houthis xiitas, e não têm tempo para se preocupar com os loucos sunitas wahhabistas do Estado Islâmico.

O seu inimigo continua a ser o novo melhor amigo dos Estados Unidos, o Irão xiita, e estão tão obstinados como sempre em destronar o presidente alauita xiita da Síria, ainda mais se o Estado Islâmico está na primeira fila dos inimigos de Bashar al Assad.

A Arábia Saudita também sabe que a política exterior francesa favorece tanto os seus interesses que chegou a opor-se a um acordo nuclear com o Irão – sem contar os milhares de milhões de dólares em armamento vindos dos Estados Unidos que continuarão a fluir até ao reino sunita, apesar das ligações deste com a organização que destruiu 129 vidas em Paris.

Se alguém acredita que Barack Obama vai disciplinar a democracia teocrática dos sauditas, deveria observar melhor a proposta dos Estados Unidos de vender, por 29 mil milhões de dólares, armas ao rei Salman, de 79 anos de idade, para entender que Washington não se interessa nem um pouco por controlar a ferocidade do reino.

Riad omite-se diante do Estado Islâmico (que grande surpresa!), mas necessita dessas armas desesperadamente depois de queimar todo o seu arsenal atacando os iemenitas, afundados na extrema pobreza. O contrato de venda de armas à Arábia Saudita já foi aprovado pelo Departamento de Estado norte-americano, e inclui munições de ataque direto fabricadas pela companhia Boeing, além de bombas guiadas a laser, do tipo Paveway, construídas pela firma Raytheon.

Os houthis ainda controlam a maior parte do Iémen, incluindo a capital Saná, apesar da mitologia de Riad continuar a relatar uma suposta assistência militar do Irão ao grupo iemenita.

Grupos de defesa dos direitos humanos acusaram durante muito tempo os sauditas de lançarem ataques aéreos e de assassinarem indiscriminadamente civis. Segundo números das Nações Unidas, essas mortes já são vão em mais de duas mil. Vale a pena lembrar que uma dessas vidas perdidas é tão preciosa quanto as 129 que foram ceifadas na sexta-feira passada.

Os norte-americanos e os franceses possivelmente esperavam que os sauditas matassem dois mil membros do Estado Islâmico, o que não acontecerá. O Congresso dos Estados Unidos já autorizou Obama a vender mais 600 mísseis antiaéreos Patriot PAC-3, o que significa mais 5,4 mil milhões de libras esterlinas aos cofres da Lockheed, apesar de os houthis não terem um mísero avião.

Supostamente, esses mísseis estão destinados a proteger os sauditas de um ataque aéreo iraniano, coisa em que ninguém em toda a região do Golfo acredita.

Em relação às novas leis de emergência na França, nenhuma delas afetará os sauditas ou as outras nações árabes. No Médio Oriente, onde os ditadores locais, reis e emires – quase todos aliados do Ocidente – espiam regularmente os seus cidadãos, colocando escutas nos telefones e torturando o povo, ninguém se importa se as novas leis de Hollande restringem a igualdade, ou a liberdade dos franceses.

Para os sauditas, a batalha familiar entre o príncipe herdeiro, o ministro do Interior, Mohammed bin Nayef, e o ministro de Defesa, Mohammed bin Salman bin Saud – este último, com apenas 30 anos de idade, encabeça o bombardeamento saudita ao Iémen –, é muito mais interessante que o futuro da região e do Estado Islâmico.

E se algo interessa muito mais à França são os seus próprios e bastante lucrativos acordos de venda de armas com a Arábia Saudita, onde Hollande ainda tem esperanças – algo desesperadas, vale a pena dizer – de suplantar os Estados Unidos e o Reino Unido como um provedor de armas de máximo nível. Talvez acredite que está em guerra com o Estado Islâmico, mas os mentores espirituais do grupo permanecerão intactos.

Artigo publicado em Carta Maior, tradução de Victor Farinelli.