You are hereExiste diferença entre um terrorista e um criminoso comum?

Existe diferença entre um terrorista e um criminoso comum?


28/12/2015

Bush e Blair foram responsáveis por mais mortes do que o Estado Islâmico e o governo de Assad juntos. Bush e Blair seriam classificados como mega terroristas? 

Investigadores policiais e jornalistas têm muito em comum. Ambos estudamos as fraquezas humanas. Temos uma relação parasitária. E suponho que tal situação resulta apenas do respeito que temos pelo crime.

Nos últimos anos, eu descobri que existe o crime puro e simples (ou crime gangster, ou de estudantes com loucura de gatilho, ou antiaborto, ou de esquadrões da máfia), e o “crime terrorista”, para o qual as partes devem ser qualificadas por ter uma raiva política, por serem aderentes de uma corrente religiosa – inspirados de forma direta ou de algum outro modo – e serem membros regulares, malignos, messiânicos, sádicos, doentes, medievais, de uma “cultura da morte”. Entre estes últimos, é preciso dizer, estão os “radicais cultivados na sua pátria” que assassinam pessoas de qualquer religião devido às aventuras do Ocidente no Médio Oriente.

Na verdade, isso significa que o crime de delito comum, o assassinato em massa de ocidentais cometido por outros ocidentais, por dinheiro, cobiça, vingança pessoal, desejo de matar pessoas ou algum motivo relacionado com as drogas  é tratado como algo normal. Mas o crime “relacionado com o terrorismo” indica quase sempre que se está a responsabilizar os muçulmanos. Por outras palavras, os criminosos são nossos amigos, enquanto os terroristas são muçulmanos de pele escura, que odeiam os nossos valores, querem cortar as nossas cabeças e, obviamente, estão loucos. Já vimos que tudo isto é insustentável depois da matança de 14 cidadãos norte-americanos inocentes na Califórnia. No início, elementos da polícia daquele país disseram não saber se era um crime “relacionado com o terrorismo”, chamaram-lhe “tiroteio massivo”. Em diversos canais, foi dito que os assassinatos foram o resultado de uma disputa, que o homem que apertou o gatilho estava furioso, supostamente devido aos insultos de uma das 14 vítimas. Mas viram que ele tinha nome muçulmano, e que, com a sua esposa, tinha um arsenal em casa, e ao que parece tinha jurado “lealdade” ao Estado Islâmico. Então, o tiroteio massivo transformou-se em “ato de terror”. Para maior confusão com a nova definição, os polícias disseram que não acreditavam que o casal teve contato direto com o Estado Islâmico, apesar do grupo ter assumido a responsabilidade pelo sucedido. Ficou assim a saber-se que o casal se tinha “radicalizado” – algo que a mafia não pratica – anos antes da matança.

"Confusão" semântica

No crime das “punhaladas”, na estação do metro de Londres, também se confundiu a semântica. No início, a polícia “investigava uma facada em Leytonstone”, mas depois surgiu uma gravação em vídeo onde se ouvia um homem a gritar “isto é pela Síria” e um civil que respondia “você não é muçulmano”, e a polícia considerou-o um “incidente terrorista”. O primeiro-ministro David Cameron deu muito significado a essa frase: “você não é muçulmano”. Até agora, apenas um homem foi acusado por tentativa de homicídio.

Tudo isso é um pouco estranho. Nos anos 80, quando o exército britânico e o IRA , lutavam ferozmente na Irlanda do Norte, o governo britânico estava desesperado à procura de um meio que lhe permitisse qualificar o IRA como um grupo de criminosos: criminosos impiedosos, desesperados, inclusive terroristas, mas sobretudo criminosos comuns, que deviam responder diante da lei e ser condenados a muitos anos de prisão, qualquer que fosse a razão de sua violenta campanha. Assim, os membros capturados do IRA decidiram que queriam que lhes chamassem “presos políticos” – a versão cortês de terroristas – porque queriam que os seus assassinatos, roubos e intimidações fossem vistos como “crimes políticos”, separados da ralé de mafiosos, violadores e sádicos que habitam em todas as sociedades, incluindo a da Irlanda do Norte.

Estavam tão entusiasmados em reclamar seu status “político” que fizeram uma greve de fome. Dez deles morreram sob a indiferença de Margaret Thatcher. Mas logo, o governo britânico cedeu a quase todas as demandas do IRA. Os membros do grupo tornaram-se “políticos” e foram libertados quando foi declarada a “paz”, enquanto os rufiões e assassinos da Irlanda do Norte continuaram sob o arbítrio de sua majestade.

Terrorista e criminoso de delito comum

Então, a pergunta é: existe alguma vantagem entre ser “terrorista” e um criminoso de delito comum? Suponho que depende de saber quanto vale a sua vida. Para os combatentes britânicos do Estado Islâmico, Reyaad Khan e Ruhul Amin, mortos num ataque de drones também britânicos, a classificação de terroristas foi fatal. As suas mortes, leia-se execuções, foram, segundo Cameron “necessárias e proporcionadas em nome da autodefesa individual (sic) do Reino Unido”. Os ataques foram planeados na Grã-Bretanha.

Por outras palavras, o primeiro-ministro não enviaria um drone para aniquilar um assassino escolar de Leicester, ou um criminoso do East End de Londres, ainda que ele estivesse a planear outra matança. Khan e Amin tiveram que estar longe e trabalhar para o Estado Islâmico para justificar um ataque com drones. Assim, Cameron e os nossos rapazes puderam sentenciá-los à morte.

Se levássemos o exemplo de Assad à sua conclusão lógica, teríamos que definir os senhores Bush e Blair – devido à invasão ilegal do Iraque, em 2003, como responsáveis pela destruição de mais vidas inocentes que o Estado Islâmico e o governo de Assad juntos. E então, Bush e Blair seriam classificados como mega terroristas?

Entretanto, a dicotomia criminoso/terrorista abarca outros âmbitos. A mais recente afirmação dos opositores sírios sobre Bashar Al Assad – que ele é um “terrorista” muito maior que o Estado Islâmico, porque matou mais gente que o grupo islâmico (seis vezes mais, segundo o Canal 4 britânico) – sugere que o mero número de homens, mulheres e crianças vítimas de um determinado ataque é o fator que determina se os responsáveis por ele é um criminoso comum ou um terrorista. Ou talvez signifique que um grupo “terrorista” com aspirações de matanças mais modestas, possivelmente o Estado Islâmico, neste caso, é menos horrível que um grupo terrorista ainda com mais munições na sua suas armas.

Mas esperem um minuto. Se levássemos o exemplo de Assad à sua conclusão lógica, teríamos que definir os senhores Bush e Blair, devido à invasão ilegal do Iraque, em 2003, como responsáveis pela destruição de mais vidas inocentes que o Estado Islâmico e o governo de Assad juntos. E então, Bush e Blair seriam classificados como mega terroristas? Ou são apenas criminosos , embora criminosos “de guerra”, o que, em teoria, os levaria ao Tribunal Internacional de Justiça em Haia; assim, eles e os seus países estão absolutamente a salvo de ataques de drones, e jamais alguém lhes chamará “terroristas”?

Artigo publicado no Carta Maior em 15 de dezembro de 2015