You are hereAutópsia de uma cobertura jornalística – Os criminosos ficaram em liberdade e os media encobriram o crime

Autópsia de uma cobertura jornalística – Os criminosos ficaram em liberdade e os media encobriram o crime


09/04/2016

Na noite de 3 de outubro de 2015, um AC-130 Gunship da US Air Force atacou repetidamente um hospital dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kunduz, no Afeganistão. Foram mortas 42 pessoas e dezenas ficaram feridas. O avião militar dos EUA efetuou cinco bombardeamentos durante mais de uma hora apesar dos apelos dos MSF aos funcionários afegãos, norte-americanos e da NATO para cancelar o ataque.

Conforme noticiámos na altura, os MSF foram perentórios na sua condenação do ataque norte-americano. O hospital foi "intencionalmente alvejado" num "massacre premeditado"; foi um "crime de guerra" . A organização médica rejeitou as garantias dos EUA de três inquéritos feitos pelos EUA, pela NATO e pelo governo afegão. Os MSF exigiram uma investigação internacional independente. Não serviu de nada. Os EUA ignoraram o escândalo público e prosseguiram com os seus procedimentos de branqueamento habituais quando pratica crimes de guerra que são denunciados. O resultado foi anunciado a 18 de março. A BBC News noticiou :

"As forças militares dos EUA levantaram processos disciplinares a mais de uma dúzia de membros depois de um ataque aéreo a um hospital dos Médicos sem Fronteiras (MSF) no Afeganistão ter matado 42 pessoas, no ano passado.

"O Pentágono reconheceu que a clínica foi alvejada por engano, mas ninguém enfrentará acusações criminais".

De notar que nas palavras da BBC – "O Pentágono reconheceu que a clínica foi alvejada por engano – são uma expressão tendenciosa. A BBC não mencionou que os MSF tinham apresentado fortes provas de que a clínica foi "deliberadamente alvejada", de que o ataque foi um "crime de guerra" e de que havia necessidade urgente de um inquérito independente.

A BBC continuava:

"As sanções, que não foram tornadas públicas, foram sobretudo administrativas.
"Alguns receberam reprimendas formais, outros foram suspensos do serviço.
"Houve processos disciplinares para oficiais e para o pessoal mobilizado, mas nenhum general foi punido".

Os MSF disseram que não iriam fazer comentários enquanto o Pentágono não tornasse público o seu relatório. (Na altura deste artigo, isso ainda não aconteceu).

Na manhã de 18 de março, reparámos que a notícia da BBC esteve, pelo menos durante algum tempo, ligada a partir da página principal do seu sítio web noticioso. Mas depressa foi retirada da sua posição importante e enterrada profundamente na secção das notícias internacionais. Isto não é invulgar, quando se noticiam os crimes do Ocidente, se é que são noticiados.

As nossas pesquisas subsequentes na Internet revelaram apenas quatro notícias moderadas de jornais, relativamente breves, na imprensa britânica de que o pessoal dos EUA tinha sido "punido" pelo bombardeamento de Kunduz: no Independent , no Daily Mail , no Telegraph e no Guardian . O Telegraph noticiava que o Pentágono iria em breve "publicar uma versão do seu relatório sobre o ataque. Será redigido de forma a não ser classificado como material confidencial". Por outras palavras, tudo o que seja demasiado embaraçoso ou prejudicial para os interesses dos EUA.

Uns dias depois, a 23 de março, uma pequena notícia na página 34 do The Times tinha o título "Comandante norte-americano lamenta ataque ao hospital". A totalidade da peça, ao todo 61 palavras, era assim:

"O novo comandante das forças EUA-NATO no Afeganistão apresentou desculpas pelo ataque errado a um hospital em Kunduz no passado mês de outubro, que matou 42 pessoas. O general John Nicholson do exército dos EUA, foi à cidade do norte para se encontrar com familiares dos que morreram no hospital, dirigido pela organização Médicos Sem Fronteiras. Disse que o incidente fora uma "tragédia terrível".

Como sempre, as atrocidades do Ocidente são descritas como "tragédia", em vez de "crime de guerra". Nenhum outro jornal nacional do Reino Unido, tanto quanto pudemos ver, noticiou as "desculpas" do general Nicholson.

O New York Times fez melhor, e incluiu esta citação de Zabiullah Niazi, um enfermeiro que perdeu um olho, um dedo e o uso de uma mão, assim como sofreu outros ferimentos no ataque dos EUA:

"Atingiram-nos há seis meses e agora vêm pedir desculpas. O chefe do conselho provincial e outros funcionários que disseram que nós aceitamos as desculpas, não teriam dito isso, se tivessem perdido um filho e comido cinzas, como aconteceu connosco".

Segundo Mr. Niazi, o general Nicholson nem sequer apareceu numa reunião arranjada no gabinete do governador, com dois sobreviventes e membros das famílias das vítimas. Em vez disso, fez um discurso num auditório apinhado, em que os membros das famílias e os sobreviventes não tiveram possibilidade de falar. Como mais um sinal dos procedimentos profundamente encenados, a mulher do general apareceu para "dizer olá, num minuto, e exprimir a sua pena", disse Mr. Niazi. Passou mais tempo – cinco minutos – com mulheres sobreviventes e membros das famílias, numa sala em separado.

As "desculpas" do general também foram desdenhadas por um médico afegão cujo irmão, também médico, foi morto no ataque norte-americano. O Dr. Karim Bajaouri disse :

"Estão a pedir perdão por terem morto civis?! Estão apenas a pedir desculpas? Primeiro disparam sobre civis e depois pedem desculpa. Pessoalmente, não preciso dessas desculpas, não as aceito. As nossas feridas morais não podem ser curadas dessa forma".

O Guardian fez recentemente uma referência de passagem a Kunduz num artigo de Simon Tisdall, editor assistente e colunista de assuntos externos. A peça focava o Afeganistão como uma questão de eleições na corrida presidencial nos EUA.

"O facto de que a mais memorável contribuição dos EUA para a batalha de Kunduz foi a destruição de um hospital dos Médicos Sem Fronteiras, com a perda de pelo menos 22 vidas, nenhuma delas de rebeldes, realçou como a missão dos EUA no Afeganistão se tornou infeliz e acidental".

(Estranhamente, o artigo de Tisdall foi inicialmente publicado em 15 de outubro de 2015, mas depois foi atualizado em 29 de março de 2016, presumivelmente para incluir a linha acima.

Mais uma vez, o jornalismo "liberal" colaborador destaca-se pela sua prontidão em rotular crimes de guerra como "infelizes" e "acidentais".

Na sequência da declaração do Pentágono sobre as "punições" para os criminosos de Kunduz, um artigo no sítio web da Foreign Policy assinalava:

"Os defensores dos direitos humanos denunciaram a decisão dos militares norte-americanos de não apresentarem queixas criminais contra as tropas".

Andrea Prasow, da Human Rights Watch disse ao Foreign Policy:

"É incrivelmente frustrante e desencorajador. Fizemos a nossa análise do caso e pensamos que devia haver uma investigação criminal".

Conforme Prasow observou, os militares norte-americanos "têm interesse em proteger os seus".

A Human Rights Watch acrescentou :

"Com toda a razão, os membros das famílias das vítimas verão isto como uma injustiça e um insulto: os militares dos EUA investigaram e decidiram que não tinha havido crimes".

A declaração continuava:

"A ausência de investigação criminal de funcionários seniores responsáveis pelo ataque não só é uma afronta às vidas perdidas no hospital dos MSF, mas um golpe contra o estado de direito no Afeganistão e em toda a parte.

Estes comentários contrastam profundamente com a branda indiferença da imprensa "liberal".

Em resumo, a reação à "punição" do Pentágono dos criminosos de Kunduz, na imprensa "dominante" foi tão instrutiva como de costume. Como habitualmente, não encontramos um único editorial ou coluna que denuncie esta recente lavagem dos EUA de crimes dos EUA.

Mais uma vez, é prática usual dos media ocidentais troçar dos Inimigos Oficiais, mantendo-se cegos aos crimes dos "nossos" Gloriosos Líderes.

O original encontra-se em www.medialens.org/... . Tradução de Margarida Ferreira.

Wste artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

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