You are hereGente como nós

Gente como nós


27/04/2016

O Porto pode dar um importantíssimo passo para ser uma cidade mais inclusiva e solidária, sobretudo com aqueles que tudo perderam e que de tudo a vida foi excluindo. Para trás ficaram a família, os amigos, o emprego, a saúde, a casa, tudo. Resta a rua e a droga.

São homens e mulheres que, se nada fizermos, caminham para uma morte precoce, sofrida, trágica. E, no entanto, são gente como nós. Não é um problema apenas deles, também é nosso, tanto mais que dispomos dos meios e possibilidades de lhes proporcionar uma oportunidade.

Falo dos toxicodependentes que se injetam a céu aberto, nalgumas ruas e lixeiras da cidade, ou em edifícios abandonados. Não tenhamos medo das palavras: ao longe, são confundidos com o lixo que se acumula à sua volta. Para eles – cem, duzentos ou um pouco mais, enfim, não se sabe exatamente quantos – a sua cidade não é mais que uma montureira.

Em Portugal - e o Porto é um bom reflexo disso – a prevenção e a luta contra a droga são uma história bem sucedida. O país encarou o problema de frente, ultrapassou preconceitos e impulsos punitivos, apostou numa política inclusiva de redução de riscos e minimização de danos. Em menos de vinte anos, o panorama da droga mudou. Não se concretizaram as desgraças que então anunciavam aqueles que nada queriam fazer, pelo contrário, hoje há menos consumo e mais pessoas tratadas ou em tratamento.

Sabemos que a droga produz efeitos terríveis, há situações limite que continuam sem resposta. São essas que podemos resolver hoje. No mês passado, numa sessão pública, os técnicos em representação de todas as forças políticas presentes na Assembleia Municipal, foram unânimes, repito unânimes: sim à instalação de uma sala de consumo assistido, derradeira ponte entre a rua e o tratamento.

Os políticos já não podem usar os técnicos como pretexto para continuarem a adiar a decisão. Ela está agora nas mãos dos deputados municipais, sobretudo do grupo de Rui Moreira e do PS, a maioria que tem a responsabilidade de conduzir a cidade.

Acabaram as desculpas, os pretextos. Agora é a vontade política dos eleitos municipais que decide. Espero que decida pela solidariedade, pelo humanismo, pela inclusão social de que tanto ouvimos falar nas suas campanhas eleitorais.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias”

Etiquetas