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Assange: caso encerrado


Rixstep
04/01/2017

Assim, Julian Assange conseguiu finalmente submeter sua declaração à evasiva Marianne Ny. As coisas correram quase rapidamente – levou apenas 74 meses. Mas agora está feito.

Sabotado até o último minuto pela bizarra promotora de Gotemburgo que se dignou a reabrir uma investigação que já estava encerrada por um promotor muito mais perspicaz, Assange foi abandonando, naquele dia frio de Novembro, sem o seu conselheiro legal. O eminente Per E. Samuelson, um dos principais juristas da Suécia e defensor de Assange, foi deixado do lado de fora da Embaixada do Equador e não lhe foi permitida a entrada. Isto porque – sim – Marianne Ny recusou-se a colocá-lo na lista de assistentes.

Samuelson estivera muitas vezes em Londres para visitar Assange naquela embaixada; Marianne Ny não podia ser irritada. Ela enviou, ao invés, sua nova assistente, Ingrid Isgren.

A declaração de Assange foi devastadora. Um sumário de 19 páginas da sua perseguição às mãos de Ny, que finalizou citando a sua única resposta a todas as perguntas colocadas: que a resposta já estava na própria declaração.

Assange entendeu as implicações (e perigos) de prosseguir sem Samuelson, mas decidiu avançar de qualquer modo. Afinal de conta, ele esperara apenas seis anos por esta oportunidade.

Este recurso do sítio JA/WL mostra em que medida cobrimos este caso. Publicámos mais de 800 artigos ao longo de anos. Certamente o caso despertou um bocado de atenção por causa do nome "Assange", mas quanto mais se olhava para ele, e se olhava para a própria Suécia, mais se percebia aquele fedor que toda a gente assume que vem da Dinamarca.

A Suécia é um país transformado, e não transformado para melhor. Outrora um modelo de sociedade de que só se podia queixar do clima, tornou-se uma confusão total, com um governo a substituir outro e as coisas só a piorarem. Alguém tem de perguntar se isto intencional.

As contradições na sociedade sueca são alucinantes, para dizer o mínimo. E ao longo destes anos assistimos uma voz após a outra ser silenciada de um modo ou de outro por tentarem falar abertamente – Pär Ström, Pelle Billing, Oscar Swartz e outros. A ninguém foi permitido contradizer ou mesmo questionar a narrativa dominante.

Está muito claro que a razão porque Assange foi enlameado e perseguido dentro do insidiosos "tanque de patos" é que ele fez com que os arrogantes (e relaxados) jornalistas parecessem mal. Jornais que não podem imprimir sem uma inundação de gralhas. Artigos de refinados colegas dos media globais, mas aguados para uns poucos parágrafos vazios de poucas centenas de palavras. A ideia predominante de que pensar por si próprio pode ser uma coisa perigosa.

Recorde-se, por exemplo, as palavras do repórter legal do [grupo de media] Bonnier a qual, quando lhe perguntarem o que pensava do caso Assange, disse "nada – e encorajo o povo sueco a fazer o mesmo".

O país afastou-se dos dias rebeldes de Olof Palme, que ousava chamar a uma espada de espada e nunca recuava diante do poder, sempre pronto a falar a verdade. Hoje, a Suécia é como 51º estado nórdico da união, rigorosa e totalmente alinhada com a política neocon dos EUA. Foi a Suécia que ajudou a CIA a sequestrar dois dos residentes legais no país para as câmaras de tortura do Egipto, um movimento calculado com habilidade, efectuado nos feriados do meio de Inverno quando a maior parte dos responsáveis e dos jornalistas desfrutavam as suas seis semanas de férias. Esta é a Suécia que hoje é tão perigosa.

O antigo primeiro-ministro da Suécia é autor de um livro tão mal escrito que uma garota do infantário provavelmente faria melhor. Ele foi removido das bibliotecas públicas antes da sua campanha para a eleição. (Este sítio traduziu e publicou os dois capítulos mais importantes.)

O actual primeiro-ministro sueco é um homem que não queria ser primeiro-ministro. De facto, a sua tarefa fora descobrir o candidato do partido. O seu antecessor no partido foi deixado de lado porque as feministas do partido pensavam que o seu bigode era demasiado "masculino". Como nenhum candidato para substituí-lo podia ser encontrado, pediram ao actual primeiro-ministro que concorresse ao gabinete e ele inicialmente recusou-se – e foi preciso algum trabalho para fazê-lo mudar de ideia.

Uma mulher que fora a mais popular política do país foi chamada para voltar de Bruxelas a fim de reforçar a legenda do partido, mas não demorou muito até ela também ser capaz de entranhar-se na corrupção. Mas um outro antigo candidato a primeiro-ministro foi – mais uma vez – apanhado com os dedos no pote e forçado a demitir-se da sua posição no gabinete.

E assim por diante. A Suécia de hoje não é a Suécia de antigamente. Quando neste sítio vimos Rick Falkvinge anunciar a vinda de Assange para o nosso país, manifestamos nossos temores. O que descobrimos na manhã de sábado 21 de Agosto de 2010 foi terrífico. Ao longo de todo o Outubro, como a história e o caso continuavam, aprendemos, cada vez mais, acerca do país a que chamamos lar, um país que pensávamos ter toda a razão para estarmos orgulhosos.

A Suécia passou há muito do reino do censurável e, através do reino do irracional, directamente para o domínio do ridículo. A Suécia de hoje não apenas uma caricatura de si própria, é mais – é uma caricatura de uma caricatura de si própria, desprezando a razão e desprezando desculpas ou explicações – e indigna de esquecimento. Nenhum país saiu tanto do seu caminho para chegar a um tal ridículo.

Houve um tempo em que era motivo de orgulho viajar pelo mundo com um passaporte sueco. Hoje, seria preferível que os outros não saibam o país de origem. A Suécia foi vendida a saldo – politicamente, socialmente, financeiramente e sobretudo judicialmente. Um olhar mais atento à actual mecânica do sistema judicial sueco revela um regime Mickey Mouse, com sessões do Supremo Tribunal a tratarem de questões extremas com álcool e pelo menos um caso de assédio sexual de menores. Descobre-se um sistema que ainda não descobriu o julgamento por júri, mas utiliza nomeados políticos para decidir e estes nomeados, quando passaram por testes rudimentares de jurisprudência elementar da Universidade de Estocolmo, falharam miseravelmente, chegando a 2/3 de respostas erradas. Foi então descoberto que muitos destes nomeados têm registos criminais, que o sistema nunca considerou verificar registos criminais e que as pessoas responsáveis por esta confusão dizem que não sentiram isto era necessário. Assim, não foi excessivo Assange dizer que, pelo que ele viu, a justiça sueca era uma confusão.

Tumultos e vandalismo são desenfreados. Assassinatos acontecem por toda a parte. Ninguém pode estar seguro. Bombas terroristas em centros comerciais. Assassinato em campos de refugiados. Suborno a rodos no Complexo Industrial de Refugiados do país.

Lares para idosos transferidos para interesses comerciais sediados nas Ilhas Caimão. Pensionistas abandonados nos corredores ou despejados no freio, deixados a morrer.

O país com impostos notoriamente elevados incapaz de retribuir a pensionistas, classificados agora como os segundos mais pobres na UE.

Cozinhas públicas no centro de Estocolmo, a capital da mais famosa utopia do mundo.

Uma escassez de habitação que merece um registo no Guinness Book of Records. Mais da metade da população a viver não nos seus próprios lares, mas em apartamentos. O acesso a apartamentos para arrendar sendo vendido no mercado negro. O mercado negro imobiliário é tão comum que é mais ou menos aceite.

A Suécia é o que [a rede social] Tumblr encararia como se fosse um país, satirizando o famoso vídeo-blog "Angry Foreigner", ele próprio um refugiado da Bósnia, num clip You Tube que se tornou viral.

Desde 2006 é legal para os media suecos disfarçarem propaganda como notícia real e não é mais necessário dar igual quantidade de tempo a visões opostas. Os media suecos concentram ou filtram qualquer coisa que ameace as narrativas oficiais. Qualquer media que ousasse incluir notícias "inconfortáveis" seria imediatamente classificado como "racista" e evitado pelo povo sueco como um todo. A WikiLeaks outrora cometeu o erro de ligar-se a um tal sítio, onde o artigo em causa era meramente um agregado de links publicados alhures nos media "politicamente correctos" e eles foram violentamente repreendidos. O mesmo artigo, palavra por palavra, foi reimpresso por um sítio anglo-russo e não houve uma única palavra de protesto. O poder que os media corporativos (MSM) têm sobre a cidadania é assustador.

Trata-se de media corporativos que investigarão desesperadamente por tempestades na chávena de chá dentro de casa e ignorarão os furacões reais no exterior. Os media do grupo Bonnier, nestes dias, ainda não informaram a cidadania sobre as atrocidades que se verificam no Donbass e só tratam de evasões de vulto quando pessoas querem saber quem toma conta dos milhões de refugiados daquela área.

E assim por diante.

E dentro destas poções de bruxas na quarta-feira 11 de Agosto de 2010 pôs o pé um Julian Paul Assange, completamente inconsciente, tal como a maior parte das pessoas, do que acontecia ao reino da rainha sueca. E, como as infames mensagens dos media corporativos mostram agora, ele é explorados ao máximo por duas mulheres egoístas, a comportarem-se como fãs, incapazes ou talvez desinteressadas do entendimento do quadro mais vasto e das horríveis ramificações do seu comportamento irresponsável. Quando confrontado no Riddargatan na "segunda-feira seguinte", fora dos gabinetes do seu advogado Leif Silbersky, pela loira "repórter itinerante" do Expressen, e perguntado se suspeitava de uma conspiração, Assange disse que era um conjunto de conspirações ao invés de apenas uma, e isso é admirar mesmo que não soubesse quão correcto estava e porque. Das fãs que se transformaram de rivais em co-conspiradoras, às hienas dos jornais que estavam desejosas de sacrificar alguém por amor ao grande furo, aos políticos que queriam mostram aos EUA quão alto eles podem saltar, ao militares que tinham suas próprias tropas no Afeganistão e acreditam secretamente na hegemonia mundial dos EUA, é na verdade uma fedorenta poção de bruxas.

Não há muito que Marianne Ny ou seus superiores possam fazer neste momento. Não há muito da entrevista de Assange que precise ser traduzida, cerca de dois dias, a resposta a toda e cada uma das questões perguntadas foi a mesma.

O caso Assange não está oficialmente encerrado, mas a evidência, como tal, foi submetida. Os protocolos policiais completos, tal como submetidos por Marianne Ny aos tribunais na Suécia para o objectivo de emitir a Alerta Vermelho (Red Notice) [da Interpol], estão publicados neste sítio e foram tomados como documentação pelos tribunais britânicos. E finalmente o mundo tem a versão do próprio Julian Assange dos acontecimentos, isto após uma espera de seis anos. Finalmente.

A verdade virá à luz, a verdade vencerá. O que acontecer a partir deste ponto será julgado esta luz.

A verdade virá à luz, a verdade vencerá. Não deixe jornalista algum especular outra vez quanto ao que dizem os protocolos. Após seis meses de escavação e as pessoas no Flashback têm os documentos reais. A sordidez impressa por pasquins tais como o Daily Mail, Sweden's Aftonbladet e Expressen e, talvez o mais tóxico de todos, Nick Davies do Guardian, já não mais se sustem. Mais ainda: estes documentos são uma acusação às "organizações de notícias" que imprimiram imprecisões deliberadas o tempo todo ou ainda pior: recusaram-se a imprimir qualquer coisa de tudo isto. O relato de Nick Davies dos protocolos foi maliciosamente distorcido; tanto o Aftonbladet como o Expressen dispunham de cópias prévias e nada imprimiram.

Ver também:

UN rejects UK appeal on Assange (ONU rejeita recurso do Reino Unido acerca de Assange)

O original encontra-se em http://rixstep.com/2/1/20161223,00.shtml e em https://wlcentral.org/node/2982

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .