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S.O.S. Refugiados


José Manuel Pureza
14/05/2017

Com coragem, Salvador Sobral mandou a suposta neutralidade da Eurovisão às malvas – que aquilo de neutralidade tem tanto como uma claque de futebol tem de santidade… - e aproveitou o acréscimo de mediatização momentânea para lançar um S.O.S. em favor dos refugiados. Fez bem. E fazer coincidir o seu apelo com o conhecimento que nos foi dado, por aqueles dias, de que a morte de 268 pessoas, incluindo 60 crianças, em outubro de 2013, foi um hediondo crime de negligência perpetrado num jogo de empurra entre as autoridades italianas e maltesas, deu ao gesto do cantor maior significado ainda.

Mas a dimensão moral do drama dos refugiados, sendo a força da causa da solidariedade, é também a sua fraqueza. É força porque nenhuma inação é aceitável. É fraqueza porque a tendência é para responder moralmente a desafios morais e tudo acaba remetido para o domínio micro da boa vontade de cada um/a quando se impõe uma resposta macro de mobilização social e política. Se o “S.O.S Refugiados” da t-shirt do cantor não for lido como “é a política, estúpido”, o terreno dado à mudança necessária será sempre curto.

Na abordagem dos desafios postos pela magnitude do fenómeno da fuga de multidões à guerra, à perseguição e à miséria sobra emotividade light e falta compromisso político hard. Toda a assistência é bem-vinda, toda a disponibilidade para acolher é essencial, toda a partilha é digna de aplauso. Mas se a atitude individual e coletiva for descosida de escolhas políticas difíceis e coerentes, os S.O.S. repetir-se-ão à saciedade porque a insuficiência da resposta será crónica.

Basta ver como é tratada por muita comunicação social portuguesa a saída para outros países de pessoas acolhidas em Portugal e como entra com tanta facilidade no senso comum a terminologia disparatada de “fuga” dessas pessoas – como se os refugiados estivessem aqui detidos – ou de “ingratidão” – a mostrar que escasseia o desinteresse e há um lastro de tutela que rapidamente vem à superfície das coisas.

Organizarmo-nos politicamente para dar aos refugiados que vêm para Portugal não apenas tranquilidade no presente mas horizontes efetivos de futuro – na educação, no trabalho, na valorização das suas culturas – exige escolhas políticas para lá do ímpeto generoso. Escolhas que bulirão com hábitos e com perspetivas instaladas, certamente. Mas é nessas escolhas políticas que se faz o teste do país que queremos ser a este respeito.

Artigo publicado no diário “As Beiras”, em 13 de maio de 2017
 

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