Há cem anos do assassinato de Emiliano Zapata, o sistema dominante mostra que se refina em suas formas de opressão ao povo e suas lideranças, como a prisão política do ex-presidente Lula. Mas a organização da classe trabalhadora revela que a resistência garante vitórias inestimáveis

 

 

Emiliano Zapata. Cem anos de um assassinato político no México. Lula. Um ano de uma prisão política no Brasil. O Estado não manda recado, ele executa. Dois casos emblemáticos de como são tratados os que se insurgem contra engrenagens do sistema político-econômico dominante, seja na ação direta em defesa da reforma agrária, no século XX, seja na criação de mecanismos institucionais para o combate à fome, no século XXI.

“El caudillo del sur” foi um dos grandes protagonistas da Revolução Mexicana, detonada a partir do enfrentamento ao porfiriato, em 1910. Forjado na luta pela terra desde o povoado de Anenecuilco e fincado no labor da organização popular em toda a região Sul do país, Zapata liderou o poderoso enfrentamento ao latifúndio. Manteve-se combatente mesmo após 1917, com o desfecho do levante armado, e sua carta árida ao comandante da nação à época, Venustiano Carranza, corroborou para receber o golpe derradeiro em 10 de abril de 1919.

Ex-diretora geral do Instituto Nacional de Estudios Históricos de las Revoluciones de México (INEHRM), a historiadora Patricia Galeana é taxativa em seus estudos ao afirmar ser fruto desse processo não apenas a promulgação da Carta Magna de 1917, já em si um grande feito, mas, sim, o ineditismo sem parâmetros internacionais da inclusão de reivindicações de operários e camponeses em marcos constitucionais. Ali se consagraram direitos agrários e trabalhistas; educação e saúde asseguradas pelo Estado; liberdade de imprensa e garantias do exercício político vigentes ainda hoje. O primeiro sufrágio democrático em 30 anos, em 1911, já havia sido resultado da mesma jornada, que se articulou em uma série de frentes de batalha, ora integradas, ora em disputa.

A auto-organização de grupos sociais oprimidos atravessa o calendário e experiências como a do Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) afrontam o campo progressista. Iniciativas ancoradas em princípios ancestrais se posicionam em estratégias coletivas transformadoras ou ainda alinhadas aos próprios espectros criticados. Nas eleições presidenciais de 2018, no México, a indígena zapatista Marichuy encabeçou a incursão do movimento no sufragismo. Ascendeu das urnas o candidato da frente de esquerda Andrés Manuel López Obrador, desbancando um longo legado conservador na Presidência, mas as mulheres zapatistas mais uma vez evidenciaram seu lugar inestimável no transcurso das revoluções. “Las adelitas” ou “las soldaderas” desafiam a historiografia desde seu posicionamento como formuladoras e operadoras na insurreição de 1910.

Se o Modus operandi do sistema vigente para sufocar as reivindicações populares se refina, os alvos se mantém notórios. O banditismo institucional no Brasil alvejou a vereadora carioca Marielle Franco, depôs a presidente Dilma Rousseff, encarcerou o ex-presidente Lula e busca sua consolidação no regime bolsonaresco. Parido da organização sindical, Lula se mostrou ameaçador a engrenagens que sustentam o severo fosso entre as classes sociais, em trajetória que tomou diversas e não menos divergentes nuances dentro e fora do gigante latino-americano. As heranças desse percurso analisadas sob amplos espectros ideológicos, inclusive no campo progressista, incluem a retirada do país do Mapa da Fome, desenhado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e que se constitui em uma das principais bandeiras alçadas na campanha pelo nome de Lula como Nobel da Paz neste tórrido 2019.

Notoriamente no Brasil, o esforço tem se dado no sentido da reorganização popular em vias capazes de reverter a afronta ao Estado Democrático de Direito em plena agonia. O vigor das ações de resistência conectadas entre si e assumidas pelas classes oprimidas sempre exibiu sua capacidade de vitórias.

Erika Morhy

Carta Maior