Especialistas brasileiros que trabalham sobre a política de proteção indígena alertaram esta semana para um “genocídio em curso” que decorre contra tribos isoladas, por cortes de investimentos na área e por interferências “ideológicas” na atuação da Funai .
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Fotografia: Bruno Jorge
                           Fotografia: Bruno Jorge

 

Técnicos ligados à política indígena e ex-coordenadores-gerais da divisão de Índios Isolados e de Recente Contacto da Direção de Proteção Territorial da Funai lançaram uma carta aberta em que criticam a exoneração de Bruno Pereira, indígena responsável por chefiar o departamento de tribos isoladas. De acordo com os mesmos, está em curso um programa, que passa por cortes de investimentos na área e “interferências idológicas”, que deriva num “genocídio em curso”.

“Chamamos a atenção para o crime de genocídio em curso, pelos frequentes cortes e bloqueios impostos à Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contacto e, neste momento, pela exoneração do coordenador-geral Bruno Pereira. Ressalte-se que possíveis interferências ideológicas como as que estamos a presenciar nos quadros técnicos da Funai [órgão indígena oficial do Estado brasileiro], em especial, desta coordenação geral é da maior gravidade”, pode ler-se na carta.

Bruno Pereira coordenava onze equipas que trabalham na região amazónica, na proteção de índios com pouco contacto com a restante população. Pereira chefiou a maior expedição dos últimos 20 anos no Brasil ao Vale do Javari, zona com uma das maiores concentrações de povos isolados em todo o mundo. Esta região fica no oeste do Amazonas.

Na passada sexta-feira, Pereira foi exonerado pelo atual presidente do Funai, Marcelo Augusto Xavier, delegado da polícia federal. Este considerou a demissão “natural” e resultado da nova gestão do órgão.

“O Brasil é um dos países de maior diversidade étnica do mundo, e com o maior número de registo de povos isolados, conferindo, assim, grande riqueza cultural ao país. A atuação nessa área exige conhecimento especializado (…). Isso ocorre, pois os povos indígenas isolados e de recente contacto estão submetidos a um imenso leque de vetores de vulnerabilidade, tal que uma simples gripe pode causar fulminantes processos de extermínio, assim a história tem comprovado”, pode ler-se na carta divulgada por especialistas sertanistas e indígenas.

A carta faz ainda um apelo à mobilização da sociedade para denunciar a “nítida tentativa da desconstrução da política brasileira de defesa e promoção” dos direitos dos índios isolados e daqueles que tiveram o seu primeiro contacto com a restante população recentemente.

Assim, contestaram a exoneração de Bruno Pereira, que chefiou a coordenação-geral do setor na Fundação Nacional do Índio. A carta aberta afirma que o governo promove um “genocídio” dos isolados ao cortar investimentos na área e ao fazer interferências “ideológicas” na atuação da Funai .

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