Ronnie Lessa, preso sob a acusação de ser o autor dos disparos que mataram a vereadora do PSOL, mora na mesma rua que o presidente da República. A sua filha namorou um filho de Bolsonaro. O outro envolvido no crime tirou foto com ele. No dia do 1º aniversário da morte de Marielle, as “coincidências” acumulam-se.
Ronnie Lessa disparou e Élcio Queiroz conduziu o carro.
                            Ronnie Lessa disparou e Élcio Queiroz conduziu o carro.

 

O polícia reformado Ronnie Lessa mora no condomínio de luxo Vivendas da Barra, na mesma rua onde se situa a moradia do presidente da República do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. As duas vivendas são tão próximas que da varanda de Lessa pode-se avistar, segundo O Globo, o quarto de Laura, filha de Jair e Michelle Bolsonaro. O ex-polícia Élcio Queiroz aparece numa foto que circula na Internet ao lado de Bolsonaro.

Lessa e Queiroz foram presos na madrugada da última terça-feira, o primeiro acusado de ter disparado os tiros que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes, o seu motorista, o segundo de conduzir o carro usado pelos criminosos.

Bolsonaro diz não se recordar do vizinho de rua. “Não lembro desse cara. Meu condomínio tem 150 casas”, justificou o presidente aos jornalistas. No entanto, o filho mais novo de Bolsonaro, Renan, namorou com a filha de Lessa. Isso mesmo foi confirmado pelo delegado de polícia que comandou as investigações: “Isso tem [namoro entre os dois], mas isso, para nós, hoje, não importou na motivação delitiva. Isso vai ser enfrentado num momento oportuno. Não é importante para esse momento”, disse Giniton Lages, durante a conferência de imprensa que anunciou as prisões. Mais tarde, o presidente, entrevistado pelo canal de notícias da Globo, afirmou ter recebido uma chamada do filho que explicou: “Namorei o condomínio inteiro, não lembro bem dela”.

Coincidências?

Tudo não passaria de simples coincidências. Mas no dia em que se assinala o primeiro aniversário do assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, as evidências de ligações entre a família Bolsonaro e as milícias cariocas continuam a acumular-se e a chamar a atenção. Há coincidências a mais.

De acordo com a revista Piaui as investigações concluíram que Lessa já foi integrante do “Escritório do Crime”, uma milícia de pistoleiros e matadores de elite que atua na zona oeste do Rio de Janeiro e é conhecida pelas técnicas avançadas, aprendidas dentro da própria polícia, para executar as suas atividades.

Mas se isso é assim cabe perguntar “como um assassino profissional conhecido da polícia pode morar ao lado do presidente da República sem que o aparato de segurança tenha feito nada ao longo de meses”, questiona Thomas Milz, colunista da Deutsche Welle, que mora há quatro anos no Rio de Janeiro depois de uma estadia de dez anos em S. Paulo.

“Acima de tudo: não chamou a atenção que um simples policial possa morar numa mansão no mesmo condomínio do presidente?”, prossegue o jornalista alemão. “E não deveria Bolsonaro estar incrivelmente aliviado agora, que um vizinho perigoso como esse tenha saído do caminho dele? Nesse sentido, não se ouviu nada do presidente.”

Um arsenal em casa

Segundo as contas do jornal O Dia, para viver no condomínio Vivendas da Barra, Ronnie Lessa deveria ganhar oito vezes mais que o salário recebido da Polícia Militar, de 7.463 reais (cerca de 1700 euros). Acontece que, além da casa, Lessa tem dois carros na garagem e é dono de uma lancha feita sob encomenda.

Um dos veículos apreendidos na Barra é um Infiniti FX35, modelo que custa em média 120 mil reais (cerca de 28 mil euros), mas o de Lessa, por ser blindado, é mais caro.

Ele usava também uma mansão de luxo no condomínio Portogalo, em Angra dos Reis, e viajava frequentemente para o exterior.

O vizinho dos Bolsonaro guardava “um verdadeiro arsenal, o que só demonstra que ele não é uma pessoa voltada à paz, é uma pessoa que tem personalidade violenta”, disse a promotora Simone Sibílio, do Ministério Público do Rio de Janeiro, em entrevista a jornalistas.

A polícia também encontrou numa casa no Méier, de Alexandre Motta, que seria amigo de infância de Lessa, material suficiente para montar 117 espingardas, além de três silenciadores e 500 munições.

Enfim, um vizinho nada recomendável para um presidente da República de qualquer nação.

Intimidação a jornalistas

Mais um fato no mínimo estranho: nas vésperas das prisões de Lessa e Queiroz, o presidente Bolsonaro atacou pelo Twitter a jornalista Constança Rezende, de O Estado de S. Paulo, acusando-a de ter assumido a intenção de “arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o impeachment do Presidente Jair Bolsonaro.”

post baseava-se numa notícia falsa. Acontece que Constança Rezende é filha do experiente jornalista Chico Otávio, responsável no jornal O Globo por cobrir as atividades das milícias no Rio, assim como o caso Marielle Franco. Chico Otávio é um dos jornalistas que assina a reportagem de O Globo sobre a prisão de Lessa e Queiroz.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acusaram o presidente Jair Bolsonaro usar “a sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas, uma atitude incompatível com seu discurso de defesa da liberdade de expressão”.

Escritório do Crime

A milícia a que o acusado pelo assassinato de Marielle estará ligado, o Escritório do Crime, pratica assassinatos por valores que variam entre 200 mil reais e 1 milhão (45 mil e 230 mil euros), conforme o perfil da vítima e a complexidade da ação. Ganhou a fama de não deixar rastos dos seus crimes. Uma das suas bases territoriais é a região de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio.

A ligação entre o Escritório do Crime e a família Bolsonaro foi estabelecida ainda em janeiro, quando se revelou que a mãe e a mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, tido pelo Ministério Público como uma das lideranças daquela organização criminosa, trabalharam no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio.

O filho do presidente alegou não ter sido responsável pelas nomeações, responsabilizando por elas o seu motorista Fabrício Queiroz. Este é o famoso Queiroz responsável por uma conta bancária que movimentou o valor de 1,2 milhão de reais (276 mil euros) entre 2016 e 2017, que até hoje ainda não foi ouvido pelo Ministério Público para explicar a origem da dinheirama. Para fugir aos depoimentos requeridos pelo Ministério Público, Queiroz ou se internou no hospital Albert Einstein, de S. Paulo, ou se escondeu em Rio das Pedras, base territorial do Escritório do Crime. Tudo se liga.

Flávio Bolsonaro nunca fez segredo da sua ligação às milícias. Em 2003, a Assembleia Legislativa do Rio, por proposta sua, homenageou o então tenente da Polícia Militar Adriano Magalhães da Nóbrega. Em 2005, Flávio Bolsonaro conseguiu que Adriano recebesse a maior honraria do estado, a Medalha Tiradentes. E em 2007, o gabinete de Flávio contratou a mulher de Adriano como assessora parlamentar. A contratação da mãe seria mais tarde, em 2016.

Flávio e Jair Bolsonaro, enquanto parlamentares, já discursaram elogiando as milícias.

Quem mandou esses dois assassinos?

Coincidência ou não, dois dias antes de fazer um ano do assassinato, a polícia acusou e prendeu dois assassinos. Mas parece estar longe de chegar ao(s) mandante(s). Essa será a segunda parte da investigação, afirmou o delegado responsável.

Para o deputado federal Marcelo Freixo as prisões são importantes, embora tardias. “Dia 14 faz um ano do assassinato da Marielle, é inaceitável que a gente demore um ano para ter alguma resposta”. Para o deputado do PSOL, houve um passo decisivo, mas o caso não está resolvido. “Ele tem um primeiro passo de saber quem executou. Mas a gente não aceita a versão de ódio ou de motivação passional dessas pessoas que sequer sabiam quem era Marielle direito”, disse, em entrevista ao portal G1. E prosseguiu: “Qual foi a motivação política? Quem em pleno século 21 no Rio de Janeiro é capaz de politicamente fazer uma coisa como essa? Isso é inaceitável, isso é um crime contra a democracia.”

Luís Leiria

esquerda.net