Egito: a luta contra o autoritarismo

 

As autoridades egípcias prenderam dezenas de pessoas, incluindo médicos, trabalhadores da saúde, jornalistas, advogados e ativistas, no momento em que o país enfrenta o surto de coronavírus. “Ao contrário de quase todos os outros países do Oriente Médio, o Egito não libertou milhares de prisioneiros como precaução contra o coronavírus. Em vez disso, prendeu mais pessoas e cortou a comunicação”, diz o correspondente do Democracy Now!, Sharif Abdel Kouddous.

Uma das prisões de maior destaque é a de Sanaa Seif, editora de filmes e membro mais jovem de uma das famílias ativistas mais importantes do Egito. O irmão de Sanaa, Alaa Abd El-Fattah – uma das principais figuras da revolução de 2011 – foi libertado da prisão no ano passado depois de cumprir uma sentença de cinco anos, baseada em acusações falsas, mas foi preso novamente em setembro e permanece atrás das grades em detenção preventiva. Em uma entrevista exclusiva, conversamos com sua mãe, Laila Soueif, professora de matemática na Universidade do Cairo e uma das defensoras mais francas e ativas dos direitos dos presos no Egito.

Amy Goodman: Esta é Democracy Now! O relatório de quarentena. Destacamos, agora, o Egito, onde as infecções por coronavírus continuam a aumentar, ameaçando superlotar o sistema de saúde. Enquanto o governo do presidente Abdel Fattah el-Sisi luta com a pandemia, ele fecha o cerco, prendendo médicos, jornalistas, advogados que se atrevem a falar.

Hoje, focamos em uma família que tem sido particularmente alvo, provavelmente a família mais proeminente de ativistas no Egito. Mas primeiro vamos ao Cairo para falar com o correspondente do Democracy Now!, Sharif Abdel Kouddous, sobre as medidas contra o coronavírus, sendo usadas como pretexto para prisões. Ele fala sobre a entrevista que fez.

Olá Sharif. Por favor, fale sobre o que está acontecendo agora no Egito.

Sharif Abdel Kouddous: Bem, Amy, como você mencionou, nos últimos meses, quando o coronavírus se espalhou no Egito, o Estado tem tentado, ainda mais cruelmente do que o habitual, controlar as informações e reprimir qualquer oposição real ou mesmo apenas percebida. Então, como você mencionou, dezenas de pessoas foram presas arbitrariamente, incluindo pelo menos 10 médicos, cada vez mais visados, seis jornalistas, advogados, ativistas e assim por diante.

E também, quando o país iniciou um bloqueio parcial em março, o Ministério do Interior suspendeu todas as visitas às famílias dos detidos. Portanto, os prisioneiros foram completamente isolados de suas famílias nos últimos quatro meses. Ao contrário de quase todos os outros países do Oriente Médio, o Egito não libertou milhares de prisioneiros como precaução contra o coronavírus. Em vez disso, prendeu mais pessoas e cortou a comunicação.

Uma das principais vozes pelos direitos dos prisioneiros no Egito é a família Seif. O filho mais velho, Alaa Abd El-Fattah, foi uma figura importante da revolução de 2011. Ele foi libertado da prisão no ano passado, depois de cumprir uma sentença de cinco anos por acusações falsas. Durante seu breve período de liberdade, ele foi sentenciado a mais cinco anos de liberdade condicional, em que teve que comparecer a uma delegacia por 12 horas todos os dias, das 18:00 às 06:00. Ele foi preso novamente em setembro e permanece atrás das grades em prisão preventiva.

A mãe de Alaa, Laila Soueif, e suas duas irmãs, Mona e Sanaa, são defensoras incansáveis de Alaa e de prisioneiros em geral. Elas questionaram constantemente as autoridades penitenciárias, questionaram o sistema judicial, para lutar pelos direitos de Alaa e de outros prisioneiros. Elas entraram em greves de fome, fizeram ações, aumentaram a conscientização e estão, sempre, expressando suas opiniões. Todas elas foram presas em momentos diferentes por seu ativismo. Em 2014, Alaa e Sanaa estavam na prisão ao mesmo tempo, e seu pai, o proeminente advogado de direitos humanos Ahmed Seif, morreu de um problema cardíaco enquanto eles estavam presos.

Em março passado, Laila e Mona foram presas e libertadas no dia seguinte, depois de realizar um pequeno protesto para pedir a libertação de prisioneiros em meio ao surto de coronavírus. E então, quando as visitas às prisões foram suspensas, e a comunicação cortada, eles intensificaram suas ações. Isso chegou a um ponto crítico há duas semanas, quando Sanaa, Mona e Laila foram agredidas fisicamente, depois de passar a noite do lado de fora da prisão exigindo que as autoridades lhes permitissem receber uma carta de Alaa. Sanaa, em particular, foi muito espancada. Quando foram ao gabinete do promotor público no dia seguinte, Sanaa foi levada à força por forças de segurança à paisana. Os promotores depois, algumas horas depois, ordenaram que ela ficasse, por 15 dias, em prisão preventiva, uma ordem que pode ser renovada por meses ou até anos. Sanaa, que tem apenas 26 anos, já passou mais de um ano e meio na prisão em dois casos separados.

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(AP Photo/Hussein Tallal, File)               Créditos da foto: (AP Photo/Hussein Tallal, File)

 

Amy Goodman: Sharif…

Sharif Abdel Kouddous: Então agora os dois, Alaa e Sanaa, estão na prisão ao mesmo tempo. Sentei-me com Laila Soueif alguns dias atrás para conversar sobre tudo isso.

Amy Goodman: Então, vamos a esta entrevista, a primeira entrevista exclusiva que você fez com ela desde a prisão da filha Sanaa.

Sharif Abdel Kouddous: Obrigado por se juntar a nós, Laila Soueif. Sua filha Sanaa foi presa há quase duas semanas. A promotoria ordenou que Sanaa fosse mantida em prisão preventiva por 15 dias. Você espera que ela saia logo?

Laila Soueif: Espero que sim. A gente nunca sabe. É possível que eles continuem a renovar a prisão preventiva. Mas também é possível que, devido a todas as circunstâncias em torno de sua prisão, isso simplesmente não entre nessa rotina de renovações. Eu acho que realmente depende de quanto de dor de cabeça podemos criar para o promotor. Talvez se pudermos criar uma dor de cabeça grande o suficiente pelo fato de ser um encobrimento para um sequestro, talvez ela seja libertada. Não tenho certeza

Sharif Abdel Kouddous: Dois de seus três filhos, Sanaa e Alaa, estão agora na prisão. Isso já aconteceu antes, em 2014. Como é para você agora que os dois estão presos de novo?

Laila Soueif: Não caí em mim que Sanaa está realmente na prisão. É como se ela tivesse ido embora por um tempo. Eu tenho que lembrar de passear com o cachorro dela, alimentá-lo.

Suponho que será como antes, exceto… ok, a primeira vez foi muito difícil, porque meu marido estava muito doente, e ele entrou em coma e morreu enquanto eles estavam na prisão. Foi muito, muito difícil. Eu acho… sim, sim, eu disse que ela conseguiu lidar. Eu disse, sobre Sanaa, há pouco tempo, que ela conseguiu lidar com sua prisão. Mas o que realmente a atingiu foi perder o pai enquanto estava na prisão. Isso a atingiu. Isso a atingiu. Isso deixou cicatrizes que aparecem até hoje, de repente. Há momentos em que tudo acaba aparecendo.

Espero que ninguém morra enquanto estiver na prisão dessa vez, espero. Então, vamos torcer para que não seja uma experiência tão traumática.

Sharif Abdel Kouddous: Quando foi a última vez que você falou com Alaa?

Laila Soueif: Uma semana antes do bloqueio, algo como 2 de março, 3 de março, algo assim.

Sharif Abdel Kouddous: Então, cerca de 4 meses atrás?

Laila Soueif: Sim.

Sharif Abdel Kouddous: Esse é o tempo mais longo que você não ouve a voz do seu filho?

Laila Soueif: Sim, com certeza. Sim, com certeza. Mesmo quando ele estava trabalhando na África do Sul, acho que conversávamos ao telefone uma vez por semana ou algo assim. Eu costumava receber essas contas horríveis de telefone.

Sharif Abdel Kouddous: Bem, como é essa experiência, que você não pode ouvir a voz dele, que há apenas comunicação através de uma carta de vez em quando?

Laila Soueif: Com Alaa, em particular, é muito difícil, porque Alaa é a pessoa com quem eu converso. Alaa é a pessoa com quem falo sobre romances de ficção científica e a estupidez de pessoas que não entendem a probabilidade e os perigos probabilísticos. Alaa é a pessoa com quem converso. Então, quatro meses sem falar com Alaa, é realmente, quer dizer…

Sharif Abdel Kouddous: Você e sua família têm tentado, consistentemente, pressionar as autoridades. Você foi presa. Você foi fisicamente agredida. Você já teve medo das repercussões? O que te dá força para continuar fazendo isso?

Laila Soueif: Sempre tenho medo das repercussões. Ninguém pode não ter, como eu não estou… particularmente quando as repercussões recaem sobre outras pessoas, realmente. Talvez eu não tenha tanto medo. Mas tenho 64 anos. Não importa mais o que aconteça comigo. Mas tenho medo do que pode acontecer com minhas filhas. Quando fomos presas, eu temia por Ahdaf e Rabab. Estou sempre com medo.

Mas acho que não podemos desistir, porque Alaa está na prisão. Não podemos decidir: “Ok, eu não vou… eu vou parar.” Como posso parar? Alaa está na prisão. E quando Alaa estava fora da prisão, ele estava nessa horrível ‘muraqaba’ [condicional] em que tinha que passar a noite, todas as noites na delegacia etc. Desse modo, você realmente não tem uma opção. A opção de não fazer nada não existe. Este não é um regime que vai deixá-lo sozinho se você estiver quieto.

Eu aprendi durante a minha vida que se há uma situação em que você não tem uma opção, você tem apenas que fazer da melhor maneira que pode. Quer dizer, treinamento longo, treinamento longo, treinamento longo. Você traduz as coisas para ações reais. Você não pensa em… você não se senta e pensa sobre as consequências. Você não se senta e pensa sobre os anos que estão voando. Você apenas traduz isso em tarefas práticas, e você termina as tarefas. Como eu tenho que terminar de lavar os pratos, eu tenho que terminar essa petição para ‘al-na’eb al-‘am’ [ministério público] etc.

Sharif Abdel Kouddous: Sua família teve uma longa e difícil experiência com prisões no Egito, e dois de seus filhos estão agora na prisão. Como tudo isso afetou sua família?

Laila Soueif: Ok, isso colocou todas as nossas carreiras em espera. Mona já deveria ter feito um doutorado. E não fez. Eu ainda sou professora da universidade, eu ainda ensino, mas não consigo fazer pesquisa há anos. Você é forçado a se tornar um ativista de direitos humanos em tempo integral, o que na verdade não somos. O único que era advogado de direitos humanos era Seif, meu marido. Sou professora de matemática. Alaa é um desenvolvedor de software. Mona é bióloga. Sanaa é editora de cinema. Mas você acaba fazendo tudo isso em torno de suas outras coisas.

Sharif Abdel Kouddous: Então, o que está demandando agora?

Laila Soueif: Principalmente, eu ainda estou pedindo o que pedi quando estava do lado de fora Maglis al-Wozara [o Gabinete] e fui presa, que por causa da COVID-19, deveria haver libertações maciças de prisioneiros. Esta é a única maneira de garantir que não haja centenas de prisioneiros que ficarão doentes e talvez morram – milhares, na verdade. Mas esta é a demanda inicial.

Enquanto isso, enquanto isso não estiver acontecendo, as prisões não devem ser trancadas. Deve haver – ou as visitas devem ser abertas, ou pelo menos deve haver telefonemas, coisas assim. E finalmente, estou exigindo a libertação de Alaa e Sanaa, porque ambos estão em prisão preventiva.

Estas são apenas as exigências originais. Precisamos que as autoridades levem a COVID-19 a sério. Precisamos que as autoridades gastem dinheiro em hospitais, em médicos, na proteção de médicos. Precisamos que as autoridades parem de prender médicos que falam sobre os problemas da COVID-19. Precisamos de muitas coisas.

Sharif Abdel Kouddous: Sanaa tinha dito que ela tinha perdido a esperança de mudança. E você? O que te dá esperança?

Laila Soueif: Para mim, mesmo o que está acontecendo agora, por maior que o pesadelo seja, é mudança. Vivo aqui há muito tempo. Continuo dizendo que há uma diferença muito grande entre fazer parte de um movimento popular que está em refluxo e que foi vencido, e fazer parte de um movimento elitista muito pequeno, que é como as coisas foram dos anos 80 a 2011.

Para mim, mesmo essa situação de pesadelo é mudança, o fato de eu conseguir milhares de pessoas falando sobre Alaa, o fato de que isso é completamente… o fato de que mesmo quando falamos de um assunto muito controverso, como homofobia ou qualquer outra coisa, temos milhares de apoiadores. Nada disso… nada disso… eu comparo com o passado. Eu comparo isso com a primeira vez que Seif assumiu um caso, o caso Queen Boat, um caso sobre homossexuais, e ninguém… ele teve que lutar com advogados de direitos humanos. Ok? Agora nenhum advogado de direitos humanos diria: “Não, você não deve aceitar este caso.” Naquela época, ninguém tocava nele. Quase ninguém, quero dizer.

Não, nós temos outros… OK, eu sinceramente acredito que parte da crueldade deste regime é o fato de que ele se sente superado pelos acontecimentos.

Sharif Abdel Kouddous: O que você quer dizer?

Laila Soueif: Tudo, e tantas pessoas estão fazendo piadas sobre eles. Tantos jovens estão fazendo coisas que ninguém imaginou antes. Então, eles estão tentando conter toda essa crueldade.

Vejam os médicos. Prenderam um médico porque ele falou do Corona. No dia seguinte, há outro médico que está falando sobre as doenças. Eles estão sendo muito cruéis, mas na verdade eles não estão conseguindo controlar as coisas. Acho que parte da crueldade é isso. Ok?

Há uma diferença. Há muito… eu posso ver isso nos jovens. Eles estão zangados. Eles são afrontados. Mas eles não estão aceitando isso de braços cruzados. Para mim, uma mudança aconteceu, e essa mudança terá que dar frutos em algum momento.

Sharif Abdel Kouddous: Mas muitas pessoas estão desanimadas e se sentem desmoralizadas com o que está acontecendo agora, tanto no Egito quanto em alguns lugares no exterior, também. Você parece ter um tom mais esperançoso.

Laila Soueif: Todas essas autoridades que estão nos desencorajando, como Sisi e como Trump, qualquer um pode ver que eles não vão conseguir ter um sistema estável. Ok? Você pode ter um sistema instável que continua por muito tempo, mas nunca é… você pode ver, qualquer um pode ver, que nunca será um sistema estável. Sempre há chances em um sistema instável. Sempre há chances. Você pode ser capaz de fazer uso delas. Talvez não, mas sempre há chances.

Sharif Abdel Kouddous: Você está acompanhando o movimento de protesto em massa contra a violência policial nos EUA, e como isso ressoa para você?

Laila Soueif: Claro. Eu sempre pensei… desde 2011, eu sempre pensei que o que temos, o que está nascendo, é um movimento internacional contra o autoritarismo, contra esse tipo de coisa, e que não há… quer dizer, OK, há uma diferença, mas é apenas uma diferença de quantidade, não em qualidade, entre a polícia nos Estados Unidos e a polícia no Egito e, eu não sei, polícia na Inglaterra, polícia na França. Estes são os países que conheço.

Estou feliz que as pessoas estão se levantando. E eu espero que… toda vez que eu vejo as pessoas se levantarem contra o autoritarismo, contra a brutalidade policial, em qualquer lugar do mundo, isso me dá esperança, porque, para mim, este é um movimento que tem que acontecer em todo o mundo.

Amy Goodman: Essa foi Laila Soueif, professora de matemática e mãe de Alaa e Sanaa. Ela foi entrevistada pelo correspondente do Democracy Now!, Sharif Abdel Kouddous, no Cairo, Egito. Uma petição online foi lançada em Change.org pedindo ao procurador-geral do Egito que liberte os prisioneiros detidos em prisão preventiva, e permita que Alaa Abd El-Fattah e outros prisioneiros se comuniquem com suas famílias, e pela libertação de Sanaa Seif.

Isso conclui a transmissão de hoje. Sou Amy Goodman. Obrigado por se juntar a nós! Use uma máscara, e fique seguro.

*Publicado originalmente em ‘Democracy Now!‘ | Tradução de César Locatelli