Em 2012, a ONU publicou um relatório prevendo que em 2020 a Faixa de Gaza, na Palestina, seria um território humanamente inabitável se não fossem tomadas medidas para contrariar a situação. Tudo o que aconteceu desde então foi a deterioração das condições que existiam, agravadas pelos massacres militares cometidos regularmente por Israel. Chegou o ano de 2020: Gaza é, portanto, um território inabitável. E, contudo, quase dois milhões de pessoas tentam sobreviver nessa terra transformada num imenso campo de concentração. O mundo assiste, indiferente, a um lento e deliberado extermínio em massa.

 

 

Passaram-se oito anos desde que as Nações Unidas declararam que a Faixa de Gaza seria inabitável em 2020 se nada fosse feito para melhorar a situação. Pois bem, as condições no território são hoje bem piores do que as previsões feitas.

O Chernobyl de Gaza encontra-se a uma hora da cidade de Telavive, mas quem se preocupa com isso? E a catástrofe não é natural: o responsável é Israel. Depois de ter expulsado esta população em 1948, não apenas Israel não lhe presta qualquer assistência como a colocou numa prisão, sob bloqueio.

Não estou certo de que exista outra região no mundo onde uma situação assim, resultante de malvados actos humanos, se prolongue há mais de 70 anos. Uma situação que deveria envergonhar-nos noite e dia mas em que ninguém pensa. Apenas um rocket Qassam nos lembra, de vez em quando, da sua existência.

Quando a ONU publicou o seu relatório, em 2012, a taxa de desemprego em Gaza era de 29%. Hoje, segundo o Banco Mundial, atinge os 67% entre os jovens.

Quem consegue imaginar o que é a vida destes jovens que não têm presente nem futuro?

É sempre o Hamas que Israel evoca quando se trata de Gaza. O Hamas seria o responsável por tudo. Como se tivesse montado um cerco, bombardeado a população do território, matado milhares de civis e destruído um número incalculável de habitações, disparado contra os pescadores, impedido os doentes com cancro de se tratar.

Que mentiras, que crueldade, que lavagem cerebral podem avalizar isto?

Israel, que não hesita em enviar missões humanitárias para os quatro cantos do mundo, não presta qualquer atenção à catástrofe que criou e que alimenta na sua fronteira.

Cerca de metade dos habitantes da Faixa de Gaza vivem com menos de cinco euros por dia, contra nove euros na Cisjordânia. O responsável é o Hamas?

O relatório de 2012 da ONU afirmou que Gaza tinha necessidade de pelo menos mil médicos suplementares. Em vez disso, mais 160 médicos locais foram obrigados a ir-se embora durante os últimos três anos, em busca de sobrevivência.

Uma jovem cirurgiã, a drª Sara al-Saqqa, do hospital Shifa em Gaza, revelou ao jornal Guardian que ganha cerca de 280 euros de 40 em 40 dias! Se não fosse por causa da mãe, também já teria deixado o território.

A situação ainda é pior no que diz respeito à água: 97% da água é imprópria para consumo e, no entanto, 100 mil metros cúbicos de águas utilizadas são despejadas diariamente no Mediterrâneo.

Três anos depois do relatório de 2012, a ONU publicou um novo documento relatando que os massacres israelitas de 2014 desalojaram meio milhão de pessoas das suas casas e deixaram Gaza em escombros.

Mais uma vez, porém, isso apenas provocou um longo bocejo em Israel.

Deixem-nos morrer.

Gideon Levy, Haaretz(Israel)/O Lado Oculto