Centenas de pessoas manifestaram-se no sábado em Nancy em solidariedade com o Bloc Lorrain, uma associação anarquista que o Ministério do Interior quer dissolver.
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            Manifestação de sábado em Nancy. Foto publicada na página facebook do Bloc Lorrain.

 

 

Um ano depois de ter tentado dissolver um grupo antifascista de Lyon por incitamento à violência – nomeadamente a utilização do acrónimo ACAB (All Cops Are Bastards em inglês) nas suas redes sociais – o governo francês volta à carga com uma acusação semelhante contra a associação anarquista Le Bloc Lorrain. Mas tal como aconteceu com o grupo La Gale, que recorreu e ganhou o recurso no Conselho de Estado, o advogado do Bloc Lorrain, Christophe Sgro, espera que a justiça volte a dar razão aos acusados, porque “uma interpretação extensiva [da lei] seria uma ameaça muito pesada para a liberdade de expressão e a democracia em França”.

Segundo o portal Basta, a notificação enviada pelo ministério do Interior à associação acusa-a de “afirmar a sua recusa do poder e incitar ao ódio e à violência”, ao que esta responde ser uma associação libertária que se opõe ao autoritarismo e aposta no trabalho solidário, tendo distribuído mais de vinte mil refeições desde a sua criação em Metz e Nancy, a par da distribuição de produtos de primeira necessidade a estudantes e refugiados. Com cerca de duas centenas de associados, o Bloc Lorrain organiza tambem ações de protesto ambiental não-violentas, como a que os levou a colocar faixas na central a carvão de Sain-Avold em setembro passado.

Na acusação recebida, o governo francês exibe como argumento algumas publicações na página de Facebook da associação, como uma que apela à destruição do capitalismo e outra que considera fazer a apologia dos black bloc numa manifestação em Nancy. Além disso, considera que a criação de uma equipa de primeiros-socorros para as manifestações é uma prova da “preparação para os confrontos” por parte deste grupo, e a distribuição de folhetos a explicar como agir em caso de detenção, com contactos de advogados disponíveis para ajudar provaria, na opinião do governo francês, “o carácter premeditado das ações violentas” e a sua provocação. Os cânticos hostis à polícia nas manifestações e o uso do acrónimo ACAB também aparecem na lista de acusações.

O presidente da associação, Kevin Grillon, responde que o que está em jogo é “um atentado grave às liberdades” e que dizer no Facebook que se quer destruir o capitaismo “é simplesmente uma opinião”. E lembra que as dezenas de manifestações que organiza são comunicadas e organizadas em diálogo com a autarquia de Meurthe-et-Moselle. À France Info, Grillon considerou “caluniosas” as quatro páginas da acusação, que incluem “divulgar cenas apocalípticas como o aquecimento climático, o derretimento dos glaciares, os refugiados climáticos e de guerra. Efetivamente, somos anarquistas, queremos destruir o capitalismo, mas é uma opinião política. Com a ameaça de dissolução, estão a tentar amordaçar-nos”, sublinhou.

 

 

Entre os manifestantes que foram dar o seu apoio ao Bloc Lorrain a Nancy estava Jerome Rodrigues, uma das figuras do movimento dos “coletes amarelos” que esteve na génese da associação. “Se há algo que nos junta aqui não é o covid, é o frigorífico vazio [frigo vide]”, afirmou aos manifestantes.

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