Os contribuintes dos EUA que querem ver bem aplicado o imposto que pagam só precisam dar uma olhada para a Faixa de Gaza, o enclave sob cerco onde vivem 2 milhões de palestinos no que o ex-premier conservador britânico David Cameron classificou de “uma prisão a céu aberto.” Israel lançou outra cruel, periódica campanha de bombardeios contra os acossados gazeanos – massacres que comentaristas israelenses têm chamado de “cortar a grama” – deixando centenas de mortos, incluindo muitas crianças. Pelo menos 17 hospitais e clínicas foram danificados, entre eles a única instalação para testes de Covid-19 de Gaza. Água potável foi cortada para centenas de milhares, escolas foram destruídas e um grande prédio onde estavam instalados meios de comunicação, como a Al Jazeera e a Associated Press, foi derrubado. Os Estados Unidos possibilitam tudo isso entregando anualmente a Israel bilhões de dólares em ajuda e acesso sem igual a avançada tecnologia armamentista.

 

(Youssef Massoud/AFP via Getty Images)               Créditos da foto: (Youssef Massoud/AFP via Getty Images)

O grupo de direitos humanos Voz Judaica pela Paz pediu aos judeus estadunidenses numa recente publicação: “Devemos aceitar um futuro embasado na negação e permitir apartheid, limpeza étnica e massacres em nosso nome? Ou nos comprometemos com duras verdades e trazemos todo nosso ser para a luta da Teshuvá, para reparar esses males?” Israel tem há muito desfrutado de vigoroso apoio bipartidário nos EUA. Agora, com uma geração mais nova, mais diversa de congressistas eleitos, a resistência popular à ocupação israelense da Palestina vem conquistando uma voz em Washington.

“Sou agora a única palestino-americana no Congresso, e a minha mera existência abalou o status quo”, disse Rashida Tlaib, democrata de Detroit, durante um emocionado discurso no plenário da Câmara dos Representantes. “Sou a lembrança a meus colegas que os palestinos existem sim, que somos humanos, que podemos sonhar. Somos mães, filhas e netas. Somos pessoas que buscam justiça e não pedimos desculpas por nossa luta contra todas as formas de opressão”.

Tlaib discursava no Eid al-Fitr, a celebração muçulmana que marca o fim do mês sagrado muçulmano do Ramadã, e apenas dois dias antes de os palestinos comemorarem o Dia da Nakba. Também conhecido como Dia da Catástrofe, ele marca a violenta expulsão de centenas de milhares de palestinos após a fundação de Israel, em 15 de maio de 1948.

Desde então, Israel tem sistematicamente expandido sua ilegal ocupação militar de terras palestinas, matado milhares de inocentes e aprisionado dezenas de milhares sem acusação formal. Nada disso poderia ter sido alcançado sem o forte apoio e aprovação dos Estados Unidos.

No passado, Rashida Tlaib poderia ter sido uma voz solitária. Agora, ela recebe uma onda de apoio. A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortéz, de Nova York, e Mark Pocan, de Wisconsin, se uniram a Tlaib e apresentaram ao Congresso uma resolução conjunta bloqueando a venda a Israel, num negócio de US$ 735 milhões, das chamadas “bombas inteligentes”, a Joint Direct Attack Munitions, ou JDAMS, fabricadas pela Boeing. O senador Bernie Sanders apresentou uma resolução semelhante no Senado.

John Ossoff, o primeiro senador judeu eleito na Geórgia, liderou o pedido de 28 senadores democratas por um cessar-fogo em Gaza, tanto por parte de Israel quanto do Hamas, cujos mísseis mataram 12 pessoas dentro do Estado judeu. Milhares de pessoas participaram de manifestações nos EUA exigindo um cessar-fogo.

Na terça-feira, 18, Biden foi a Detroit, o distrito de Rashida Tlaib, para visitar uma fábrica onde a Ford irá fabricar veículos elétricos. Tlaib encontrou com ele no aeroporto. Segundo assessores, Tlaib explicou a Biden: “Os direitos humanos dos palestinos não são moeda de troca e têm de ser protegidos, não negociados… Os EUA não podem continuar dando ao governo direitista de Netanyahu bilhões de dólares todos os anos para cometer crimes contra os palestinos. Atrocidades como bombardeio de escolas não podem ser toleradas, muito menos realizadas com armas oferecidas pelos EUA”. Num discurso na fábrica da Ford, Biden elogiou Tlaib, e acrescentou: “Rezo para que sua avó e família estejam bem”.

Avós palestinas vivendo sob a ocupação israelense não precisam das preces de Biden, elas precisam da intervenção dele.

No momento em que Biden ia sair num test drive de um carro elétrico, ele teve a seguinte conversa com um repórter.

“Presidente, posso fazer uma pergunta rápida sobre Israel antes que o senhor saia dirigindo, é muito importante?”
“Não, você não pode – a menos que você entre na frente do carro enquanto eu acelero. Estou só brincando”, respondeu Biden. Ele então arrancou, chegando a 130 km/h. Para milhões de palestinos vivendo sob ocupação israelense, é como se fossem atropelados diariamente pelo governo americano.

O último mortal assalto de Israel mobilizou a solidariedade de mais pessoas à resistência do povo palestino, rejeitando o que o falecido, grande intelectual e ativista palestino Edward Said descreveu como a “gregária tolerância com as coisas como são”.

Amy Goodman e Denis Moynihan

*Publicado originalmente em ‘Democracy Now‘ | Tradução de Carlos Alberto Pavam para Carta Maior