A via sacra do jornalista Julian Assange parecia ter terminado naquele dia 4 de Janeiro de 2021 e o fundador de WikiLeaks poderia estar, em tese, a caminho da liberdade condicional. Dois dias depois, porém, Assange foi reencarcerado. Nesta novela terror e de perseguição contra o jornalismo livre tudo parece alinhar-se para que um epílogo fatal aconteça dentro de um sistema prisional – britânico ou norte-americano. 

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A questão central deste processo interessa a todos os que praticam o verdadeiro jornalismo em qualquer lugar do mundo e, sobretudo, aos cidadãos que procuram estar realmente informados para além do muro criado pelo sistema dominante através da comunicação social corporativa. O acórdão afirma, de maneira conclusiva, que qualquer jornalista pode ser processado no quadro do “Espionage Act”, a lei de espionagem dos Estados Unidos. Desde que lhe foi integrada uma emenda em 1961, esta lei tem jurisdição universal.

O grande jornalista australiano John Pilger descreve genialmente a “juíza” Vanessa Banister como “aquela mulher gótica”. De facto, não passa de uma obscura funcionária pública, não uma mulher de leis. A sua sentença parece ter sido escrita por um novato medíocre, totalmente retirada da acusação montada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Apesar de tudo isto, no derradeiro minuto a possibilidade de extradição de Julian Assange para os Estados Unidos foi travada por razões teoricamente humanitárias. Para todos os efeitos, o caso tinha terminado. Na verdade, não. Dois dias depois o jornalista foi reenviado para Belmarsh, uma prisão de segurança máxima esquálida, repleta de Covid-19. Portanto, o caso continua.

Kristinn Hrafnnson, editora de WikiLeaks, observou correctamente: “É injusto e ilógico tomar uma decisão sobre a saúde de Julian em grande parte porque ele está na prisão de Belmarsh (…) e dois dias depois reenviá-lo para lá, o que não faz qualquer sentido”.

Em boa verdade faz sentido, se tivermos em conta o verdadeiro papel da “juíza” Baraitser, que não estabelece distinção entre as imposições da agenda imperial e a dignidade da justiça britânica.

A mão operacional dos Arbuthnot

Baraitser é um mero soldadinho a desempenhar um papel muito acima das suas capacidades. No caso Assange, o verdadeiro poder está nas mãos da juíza Lady Emma Arbuthnot, forçada a retirar-se de um papel visível devido aos laços muito comprometedores que ela e o marido, Lord Arbuthnot, mantêm com os serviços secretos e militares britânicos, factos revelados em primeira mão por WikiLeaks – quem mais seria?

Foi Arbuthnot quem designou a obscura Baraitser – que cumpre obedientemente o guião que lhe foi traçado. No tribunal, como Craig Murray pormenorizou numa série de artigos cativantes, Baraitser tenta esconder a incompetência atrás de uma gritante ânsia de vingança.

Baraitser decidiu evitar a extradição de Assange para os Estados Unidos porque, de acordo com o seu raciocínio, estaria convencida de que o terrível sistema prisional norte-americano não iria impedir o seu suicídio.

A questão chave, porém, é que antes de chegar a esta conclusão a “juíza” esteve de acordo e reforçou praticamente todos os pontos da acusação montada pelos Estados Unidos.

Por este caminho, em 4 de Janeiro a “mulher gótica” procedeu a um exercício de contorcionismo para tentar salvar Washington do profundo embaraço global de processar um jornalista e editor por ter revelado os crimes de guerra imperiais, e não segredos do governo dos Estados Unidos.

Dois dias depois, o quadro completo tornou-se cristalino. Afinal nada havia de “humanitário” neste julgamento. A discordância política foi equiparada a uma doença mental. Julian Assange foi qualificado criminalmente como louco. A prática do jornalismo foi criminalizada mais uma vez.

Há razões para acreditar, porém, que o recurso do governo dos Estados Unidos em relação à sentença que impede a extradição pode fracassar. O Supremo Tribunal britânico poderá ter relutância em anular uma decisão na qual Baraitser estabeleceu conclusões de facto: uma correlação directa entre as condições prisionais norte-americanas e o perigo extremo para a saúde de Assange no caso de ser lançado para o interior deste sistema.

A tese do absurdo

Na situação actual é irrelevante que a defesa de Assange tenha proposto um pacote completo de medidas para conseguir a fiança, desde a prisão domiciliária até ao uso de uma pulseira electrónica. A noção de Baraitser segundo a qual a segurança estatal britânica não seria capaz de impedir a sua “fuga” com uma pulseira electrónica e no meio de um confinamento próprio de um Estado policial não chega sequer a qualificar-se como uma piada.

Deste modo, Julian Assange continuou a ser personagem de uma nova versão perversa e interminável da novela “O Poço e o Pêndulo” de Edgar Allan Poe.

A estratégia jurídica do governo dos Estados Unidos para a reunião de Abril do Supremo Tribunal britânico é a de tentar provar que o seu sistema prisional é suficientemente competente para evitar um suicídio, embora o objectivo final deste longo processo inquisitorial pareça ser a eliminação do jornalista Julian Assange no interior do sistema penal. Este objectivo não requer, sequer, uma prisão de máxima segurança no Estado do Colorado. Belmarsh serve para o efeito.

Pepe Escobar, Asia Times/Adaptação O Lado Oculto