Investigação expõe brutalidade contra refugiados na fronteira com a Bósnia; autoridades acusam supostas ilegalidades cometidas com verbas da UE

 

Amar Mehic/AA/picture alliance – Migrantes sendo retirados de um campo de refugiados na Bósnia

Uma investigação especial realizada durante nove meses por uma equipe da emissora pública alemã ARD e vários parceiros da mídia europeia, publicada nesta quarta-feira (07/10), revelou evidências de ações brutais para repelir migrantes ao longo da fronteira entre Bósnia e Croácia.

De acordo com a reportagem, unidades especiais croatas, chamadas “polícia de intervenção”, estiveram envolvidas num esforço ilegal para forçar migrantes a voltarem para a Bósnia.

Imagens em vídeo e relatos de fontes policiais apontam que espancamentos, principalmente a golpes de cassetete, foram ordenados pelo governo croata. As ações foram apelidadas pelas autoridades como “Operação Corredor”.

As equipes da ARD, junto com parceiros como o semanário alemão Der Spiegel, o jornal francês Libération e veículos de comunicação croatas usaram drones para coletar imagens. Jornalistas usaram disfarces, como de pescadores, para se misturar entre a população e registrar os espancamentos.

Imagens de satélite, centenas de contas nas redes sociais, junto com os relatos de fontes ouvidas pelos repórteres revelaram um esforço sistemático para impedir à força a entrada de refugiados na UE.

De acordo com a revista Der Spiegel, as unidades policiais geralmente escondem sua identidade, usando uniformes sem identificação e balaclavas no rosto. “Quando encontramos migrantes na floresta ou em outro lugar, eles geralmente se deitam no chão com medo”, disse um membro da polícia de fronteira à ARD. “Um policial então caminha ao lado deles e bate em suas pernas com um cassetete.”

Segundo o policial, a decisão sobre o que fazer com os migrantes é tomada pelos responsáveis em Zagreb. Eles é que estipulam se os estrangeiros devem ser levados para a delegacia policial, enviados de volta já na fronteira ou se deve ser iniciado um processo para concessão de refúgio.

O que dizem as vítimas?

Os jornalistas também puderam falar com os migrantes na floresta depois de um incidente em que a polícia de intervenção croata expulsou à força um grupo que tentava exercer seu direito de pedir refúgio.

Os paquistaneses e afegãos encontrados pelos repórteres estavam encharcados, alguns descalços ou calçando apenas meias. Eles mostraram seus ferimentos, como marcas roxas nas costas, hematomas e cortes ensanguentados nos braços e cotovelos.

“Podemos ver pelos ferimentos que as pessoas foram agredidas, recebendo dez ou mais pancadas. Foi um ato de violência”, afirmou o coordenador de campo da ONG Médicos Sem Fronteiras (RSF), Daniel Song.

“Eles tiraram tudo de mim: sapatos, jaqueta, dinheiro, celular, tudo o que eu tinha. Era uma situação muito ruim, eles bateram muito forte em todo mundo. Vejam só, nossas costas, nossos braços”, disse um migrante aos repórteres.

A política também foi verbalmente abusiva: “Eles diziam: ‘Vocês são terroristas… voltem para o seu país. Vocês não são bem-vindos aqui'”, relatou outro migrante.

Deutsche Welle