O progresso sempre foi irregular. Muitas mulheres afegãs se sentiam inseguras antes da chegada do Talibã. A misoginia continuou a correr pela sociedade por trás da fachada do ”novo Afeganistão”.

Por  Sippi Azarbaijani-Moghaddam

 

Cabul, 2015: mulheres protestam contra o assassinato de Farkhunda (Ahmad Masood/Reuters)  Créditos da foto: Cabul, 2015: mulheres protestam contra o assassinato de Farkhunda (Ahmad Masood/Reuters)

 

Estou pensando em Farkhunda. Você pode ter lido sobre ela seis anos atrás e ficou indignada com os homens afegãos que a mataram. Tudo o que Farkhunda representa agora é um punho cerrado emergindo de um bloco de pedra, silenciosamente direcionado ao céu perto do local em que ela foi publicamente torturada e assassinada em 2015, um santuário popular em Cabul onde pombas circulam e pedintes e vendedores ambulantes abordam multidões de peregrinos. Seu “pecado” foi queimar páginas do Alcorão, uma acusação falsa feita por um vendedor de amuletos a quem ela havia criticado.

O destino de Farkhunda também deveria nos dizer que a punição corporal brutal conduzida pelo bando sob pretextos religiosos, especialmente a uma mulher, não é só domínio do Talibã. Mais preocupante, também deveria nos dizer que até mesmo no “novo Afeganistão” permanecia uma perturbadora e recorrente misoginia em algumas partes da sociedade. Naquele dia, forças de segurança afegãs assistiram parados enquanto pessoas tentavam despedaçar a jovem mulher. Eu suspeito que a frustração de décadas ouvindo com má vontade para aceitarem os direitos das mulheres em público foi lançada sobre um pequeno e enrugado corpo.

Eu não fiquei surpresa. Nos muitos anos que trabalhei no Afeganistão, eu batalhei para encontrar mulheres, para ter projetos com mulheres, para empregar mulheres, protegi mulheres, ouvi mulheres destruídas… eu quase fui linchada, sequestrada, empurrada, agredida verbalmente, ignorada, menosprezada, assediada sexualmente e maltratada em mais ocasiões do que eu gostaria de lembrar, por afegãos e “internacionalistas”. Tudo por ser uma mulher em um mundo dos homens. Tudo porque as questões das mulheres não eram consideradas relevantes.

Farkhunda provavelmente foi empoderada por toda a retórica sobre direitos das mulheres e pensou que estava em uma nova era na qual ela poderia lutar pelos direitos das pessoas que estavam sendo enganadas por um ambulante religioso. Ela achou que tinha voz. Ela pensou que estava segura. Mas ela tocou em um nervo e não entendeu que ainda estava em território perigoso.

As pessoas relembram alegremente a tortura sofrida pela pobre menina. Se qualquer um já se perguntou sobre a atmosfera das queimas às bruxas medievais, essa pessoa teria sentido nesse dia. O governo teve que prender pessoas. Eles não poderiam ignorar esse abuso e assassinato de uma cidadã. Alguns homens foram presos, mas eventualmente saíram em silêncio enquanto homens poderosos intercederam em seu favor.

A batalha pelos direitos das mulheres não vai parar no Afeganistão, nem em dez anos, nem em séculos. Ao longo de todos os anos pelos quais órgãos internacionais se parabenizaram por conquistas nos direitos das mulheres, os horrores encarados por Farkhunda pairavam nas sombras, logo além da borda da cerimônia de premiação de uma defensora dos direitos das mulheres ou de um projeto para ensinar habilidades básicas para garotas.

A assistência voltada para essas mulheres nunca foi suficiente. As poucas vistas pelo ocidente em seus projetos podem ter ficado em segurança, mas as não alfabetizadas que ganhavam dinheiro no projeto de costura recebiam um soco na cara. A jovem menina que entrou para a academia de polícia recebia ordens para esvaziar lixeiras, fazer chá para os homens e disponibilizar seu corpo para o prazer sexual dos homens. A mulher que foi presa por adultério, no reinado de Hamid Karzai ou Ashraf Ghani, ficaria aterrorizada de deixar a prisão em uma província do norte por temer por sua vida e pelo bem estar dos seus filhos, tendo em vista que não existem empregos bem pagos para mulheres analfabetas em áreas rurais.

Eu fui uma das muitas afegãs e estrangeiras que tentou garantir que milhões de meninas fossem para o ensino fundamental, e, se tivessem sorte, para o ensino médio e para a universidade. Mas eu tive que encarar a realidade de que elas sofreriam para arranjar empregos porque a economia ainda é dominada por instituições comandadas por homens. Muitas dessas garotas saíram da escola, casaram e esqueceram o pouco que aprenderam.

Até mesmo no ano passado, eu estava lutando contra jovens afegãos estudados no meu projeto de assistência às vítimas. Eu queria que as viúvas que estávamos ajudando tivessem o direito de receber assistência. O argumento deles era que qualquer parente homem, mesmo que fosse distante, seria uma escolha melhor porque uma mulher enlutada não “estaria bem da cabeça”. Alguns até mesmo apelaram para velhas desculpas de que as mulheres são “naqes ul aql”, de acordo com sua interpretação do Islã, traduzido grosseiramente como se tivessem metade de um cérebro.

Temos um longo caminho a seguir e a luta continuará, bem depois de a bagunça no aeroporto de Cabul assentar. Os últimos 20 ou 30 anos de dólares jogados em projetos de mulheres e o parágrafo inserido na página 60 de um documento de projeto dizendo que a “igualdade de gênero seria aderida” levou algumas mulheres a um êxtase de sentimentos de segurança e empoderamento. Mas ainda havia um longo caminho a seguir e o dinheiro para fazer as coisas acontecerem estava desaparecendo rápido demais enquanto o cansaço dos doadores ganhava terreno.

O destino de Farkhunda é um alerta de que não era preciso a entrada do Talibã para fazer essas mulheres se sentirem inseguras. O Afeganistão tinha acabado de começar uma jornada desafiadora em direção à democracia com mulheres enquanto cidadãs com direitos iguais, uma jornada pausada por agora. O que eu vi foi uma nação devastada pela pobreza e pela guerra com um contraste gritante entre a riqueza obscena e a pobreza destruidora, onde mulheres e crianças continuavam a carregar as consequências de políticas ruins, corrupção, falta de estado de direito e conservadorismo generalizado. Eu vi um processo de assistência falho que tinha resultados bons e ruins.

A assistência às mulheres sempre foi a conta gotas até alguma crise iluminar a peleja de um grupo específico e então muitos fundos eram torpedeados com baixo impacto sustentável. A batalha para ajudar mulheres afegãs a terem vidas normais exige uma parceria de longo prazo e uma compreensão do que o Afeganistão realmente é. O país não pode ser consertado com a varinha mágica da mudança de regime ou inserindo mulheres em instituições que não estão prontas para valorizar suas contribuições. Será consertado com um compromisso de longo prazo e com humildade e compreensão sobre a jornada perigosa morro acima que as mulheres e suas famílias apenas começaram.

 Sippi Azarbaijani-Moghaddam

*Publicado originalmente em ‘The Guardian‘ | Tradução de Isabela Palhares para Carta Maior