A submissão total de Trump aos interesses de Israel foi o maior trunfo que a extrema-direita sionista teve nestas eleições. Mais do que mandatário, o Presidente dos EUA foi o mordomo de Netanyahu.

Terça-feira realizaram-se eleições legislativas em Israel. Até então, todas as projeções apontavam para um empate que dividiria o Knesset, o parlamento de 120 lugares, com 35 para cada lado. De um lado, o partido Khalol Lavan, apontado como a solução centrista. Do outro, o partido do governo, Likud, em rota acelerada de radicalização. Acossado por escândalos de corrupção e com o general Benny Gantz a morder-lhe os calcanhares, o cada vez mais ultra Netanyahu colou-se à extrema-direita, com quem espera vir a governar em coligação mesmo não tendo a maioria dos votos.

Em troca, o primeiro-ministro ofereceu a cabeça do povo palestiniano. Ou seja, a continuação das ocupações ilegais, dos massacres e da violência, tanto na Faixa de Gaza como na Cisjordânia ocupada. É precisamente nesse território, que em 1948 integrava a Palestina histórica e que, de acordo com a Resolução 181 das Nações Unidas, pertence ao futuro Estado da Palestina, que Netanyahu prometeu avançar com as anexações e ocupações ilegais.

Com povoamentos cercados por fossos, muros e bloqueios, os checkpoints são o rosto mais conhecido da Palestina ocupada. Recentemente, a União Europeia acusou Israel de praticar apartheid judicial naqueles territórios ao aplicar aos palestinos a lei marcial e os regulamentos ditados por um departamento do Ministério da Defesa. Ao contrário dos israelitas, os palestinos estão sujeitos aos tribunais militares de “Judeia e Samaria”, que também são regidos por regras herdadas de antigos poderes coloniais ou administradores. Há leis otomanas ainda em vigor (por exemplo, para confiscar terras palestinas aparentemente não cultivadas) e britânicas (para praticar detenções administrativas sem apresentar acusações e por tempo indefinido). Os palestinos submetidos a processos criminais sob a ocupação têm uma taxa de condenação de 99,74% (segundo os últimos dados conhecidos).

As ocupações, fortemente criticadas pela comunidade internacional sobretudo a partir da histórica decisão de condenação do Conselho de Segurança da ONU, em 2016, ganham agora novo alento. Um dos principais motivos é a mudança de orientação política na Casa Branca. A abstenção de Barack Obama, providencial para aprovar a resolução de 2016, transformou–se no apoio entusiástico de Trump.

Do presidente norte-americano, que nestas eleições mais pareceu um mandatário de campanha, chegaram alguns presentes eleitorais para os fundamentalistas israelitas. O primeiro foi o reconhecimento da soberania israelita sobre o território sírio dos montes Golã, ocupado em 1967. Em Telavive foi apresentado como uma vitória direta do chefe do governo israelita, razão pela qual se apressou a afirmar que “seguiremos adiante com a próxima fase. Sim, estenderei a soberania”.

O segundo foi a decisão de colocar a Guarda Revolucionária Iraniana, uma divisão especial das forças armadas do Irão, na lista de organização terroristas estrangeiras. Um ato absolutamente provocatório, como é evidente quando pensamos o que seria fazer o mesmo aos marines americanos, pelo qual Netanyahu reclamou créditos autorais junto da população israelita.

A submissão total de Trump aos interesses de Israel foi o maior trunfo que a extrema-direita sionista teve nestas eleições. Uma das principais mensagens de campanha de Netanyahu foi a sua capacidade para conseguir concessões dos EUA, seja a cumplicidade dos bombardeamentos na Faixa de Gaza, o fim da ajuda humanitária aos palestinos, o estatuto de Jerusalém ou o encerramento das representações diplomáticas palestinianas em Washington. Mais do que mandatário, Trump foi o mordomo de Netanyahu nestas eleições.

Entretanto, Israel continua a bombardear Gaza em resposta a projéteis que o Hamas nega ter disparado. Entretanto, na Grande Marcha de Retorno, as manifestações semanais junto à vedação da Faixa de Gaza pelo fim do bloqueio e pelo direito dos refugiados a regressar a casa, o exército israelita já matou 266 palestinos, entre eles muitas crianças, e feriu mais de 30 mil. Entretanto, há mais de 200 crianças em prisões israelitas que não são soltas nem julgadas, apesar dos apelos da ONU.

Mas Israel foi a votos e nada disto foi impedido, condenado ou julgado. A paz no Médio Oriente e os direitos humanos do povo palestino transformaram–se em despojos de uma disputa eleitoral. E se o mundo deixar, vão transformar-se nas suas primeiras vítimas.

Joana Mortágua

Artigo publicado no jornal “I” em 11 de abril de 2019