Enquanto os índios recolhem os corpos de dezenas de assassinados a bala, seus carrascos materiais e morais defendem que essas ações foram para ”defender a democracia”. Na verdade, eles são conscientes de que o fazem para recuperar e proteger seus privilégios de casta, a força dos seus sobrenomes.

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(DPA)Créditos da foto: (DPA)

Em La Paz, a elite passou a suspeitar das suas empregadas domésticas, e já não falam quando elas trazem a comida à mesa. Isso mostra o medo que sentem, e também o desprezo. Depois, saem a protestar, insultam Evo, e com ele todos os índios que ousaram construir uma democracia intercultural com igualdade. Quando são muitos, arrastram a Wiphala, a bandeira indígena, cospem nela, pisam, rasgam, queimam. É uma raiva visceral, que se descarrega sobre este símbolo dos índios, que eles queriam extinguir da face da Terra, junto com todos os que se reconhecem nele.

O ódio racial é a linguagem política dessa classe média tradicional. Seus diplomas acadêmicos, viagens e fé são inúteis, porque, no fim das contas, tudo acaba sendo diluído antes do final. No fundo, a estirpe imaginada é mais forte e parece aderir à linguagem espontânea da pele que eles odeiam, aos gestos viscerais e à sua moral corrompida.

Tudo explodiu no domingo, 20, quando Evo Morales venceu as eleições com mais de 10 pontos a mais que o segundo colocado, mas não mais com a imensa vantagem de outros anos, ou uma vantagem com mais de 50% dos votos. Era o sinal que as forças regressivas agachadas aguardavam: o tímido candidato da oposição liberal, apoiado pelas forças políticas ultraconservadoras, a OEA (Organização dos Estados Americanos, controlada pelos Estados Unidos) e a inefável classe média tradicional. Evo venceu novamente, mas não tinha mais 60% do eleitorado. Quando ele se mostrou mais fraco eleitoralmente, os golpistas perceberam que era o momento de ataca-los. O candidato perdedor não reconheceu sua derrota. A OEA falou que a questionada contagem de votos estava correta, mas que, devido à pequena diferença de votos, era recomendável fazer um novo segundo turno. Também aconselhou que se violasse a Constituição, que afirma que se um candidato tiver mais de 40% dos votos e mais de 10% dos votos no segundo, ele é o candidato eleito. E por isso a classe média foi à caça dos índios. Naquele dia 21 de outubro, logo após a eleição, 5 dos 9 edifícios dos órgãos eleitorais foram queimados, incluindo atas eleitorais. A cidade de Santa Cruz decretou uma greve cívica que articulou os habitantes das áreas centrais da cidade, ramificando a greve nas áreas residenciais de La Paz e Cochabamba. E então o terror eclodiu.

Grupos paramilitares começaram a sitiar instituições, queimar sedes dos sindicatos, incendiar casas de candidatos e líderes políticos do partido no poder. Até a casa particular do presidente foi saqueada. Em outros lugares, famílias de ministros e líderes sindicais, algumas com crianças incluídas, foram sequestradas e ameaçadas de serem flageladas e queimadas, caso os mesmos não renunciassem aos seus cargos. Uma longa noite dos longos punhais foi desencadeada, e o fascismo soprava nos nossos ouvidos.

Quando as forças populares, mobilizadas para resistir a este golpe civil, começaram a recuperar o controle territorial das cidades, com a presença de trabalhadores, mineiros, camponeses, indígenas e colonos urbanos – e o equilíbrio da correlação de forças estava inclinado para o lado da cidade, das forças populares –, veio o motim da polícia.

Durante semanas, os policiais mostraram sua indiferença para com as pessoas humildes, que eram espancadas e perseguidas por gangues fascistóides, e assim deixavam clara sua incapacidade para protegê-las. Ainda assim, na sexta-feira anterior ao golpe, com o desconhecimento do comando civil, muitos deles foram além e atacaram, torturaram e mataram manifestantes populares. Claro, antes que tiveram que conter os filhos da classe média e, supostamente não tinham essa capacidade – e, talvez, tampouco tinham vontade. No entanto, quando foi o caso de reprimir os índios rebelados, a arrogância e a fúria repressiva passaram a ser monumentais. O mesmo aconteceu com as Forças Armadas. Durante todos os nossos anos de governo, nunca permitimos que os protestos civis fossem reprimidos, mesmo durante o primeiro golpe de Estado civil, em 2008. E agora, em plena convulsão e sem perguntar nada, eles declararam que não tinham elementos de atual, que tinham apenas oito balas por soldado e que para atuar nas ruas era necessário que um decreto presidencial. Em seguida, não hesitaram em pedir/impor ao presidente Evo Morales a sua renúncia, por supostamente violar a ordem constitucional. Os policiais se esforçaram para tentar sequestrá-lo, quando ele foi e estava em Chapare, quando o golpe foi consumido. Foram às ruas e dispararam milhares de balas, militarizaram as cidades, mataram camponeses. E tudo isso sem nenhum decreto presidencial. Para proteger o índio, era necessário um decreto. Para reprimir e matar índios, bastava obedecer ao que o ódio racial e de classe ordenava. Em apenas 5 dias já existem mais de 20 mortos e 120 feridos a bala. Claro, todos eles indígenas.

A pergunta que todos devemos responder é: como é que essa classe média tradicional foi capaz de incubar tanto ódio e ressentimento contra o povo, a ponto de abraçar um fascismo radicalizado, centrado na ideia do índio como seu inimigo? Como fez para irradiar suas frustrações à polícia ou às Forças Armadas, criando as bases par essa fascistização, exemplo da nessa regressão estatal e degeneração moral?

Foi a rejeição da igualdade, isto é, a rejeição dos próprios fundamentos de uma democracia substancial.

Os últimos 14 anos de governo dos movimentos sociais tiveram como principal característica o processo de igualdade social, a redução abrupta da extrema pobreza (de 38 a 15%), a ampliação de direitos para todos (acesso universal à saúde, à educação e a uma proteção social), a indianização do Estado (mais de 50% dos funcionários da administração pública têm uma identidade indígena, nova narrativa nacional em torno ao tronco indígena), a redução das desigualdades econômicas (queda de 130% a 45% da diferencia de renda entre os mais ricos e os mais pobres). Ou seja, a sistemática democratização da riqueza, do acesso aos bens públicos, às oportunidades e ao poder estatal. A economia cresceu de 9 bilhões de dólares a 42 bilhões, ampliando o mercado e a economia interna, o que permitiu que muita gente pudesse adquirir sua casa própria e melhorar sua atividade de trabalho.

Mas isso deu lugar a um cenário no qual, em uma década, a porcentagem de pessoas da chamada classe média saltasse de 35% a 60% da população, a maior parte proveniente de setores populares – ou seja, indígenas. Se trata de um processo de democratização dos bens sociais através da construção de igualdade material, mas que, inevitavelmente, levou a uma rápida desvalorização dos capitais econômicos, educativos e políticos das classes médias tradicionais. Antes, ter um sobrenome notável, ou o monopólio dos saberes legítimos, ou o conjunto de vínculos parentais próprios das classes médias tradicionais, permitia o acesso a postos na administração pública, obtenção de créditos, licitações de obras e bolsas de estudos, mas hoje a quantidade de pessoas que solicitam essas mesmas oportunidades não só se duplicou – reduzindo pela metade as possibilidades de acesso dos tradicionais a esses privilégios – como os integrantes da nova classe média ainda demonstram um conjunto de novas aptidões (idioma indígena, vínculos sindicais) que passaram a ser mis reconhecidos no processo de seleção para se ter acesso aos bens públicos disponíveis.

Tratou-se, portanto, do desmoronamento do que eram as bases da sociedade colonial: a etnia como capital, o fundamento imaginário da superioridade histórica da classe média tradicional sobre as classes subalternas. Na Bolívia, a classe social só é compreendida e visibilizada sob a forma de hierarquias raciais. Não surpreende o fato de que os filhos desta classe média foram a força de choque da insurgência reacionária, o grito violento de uma nova geração que via seus privilégios como a herança do sobrenome e da cor de sua pele, e que os perdia devido à democratização dos bens. Assim, embora digam defender uma democracia baseada meramente no voto, sua ação na verdade foi um ataque à democracia entendida como igualdade de oportunidades e melhor distribuição das riquezas. Por isso o ódio, por isso a violência, porque a supremacia racial é algo que não se racionaliza, se vive como impulso primário do corpo, como tatuagem da história colonial na pele. Daí que o fascismo não seja só a expressão dos que buscam levar ao fracasso de uma revolução, mas também – e paradoxalmente, no caso das sociedades pós-coloniais – a do sucesso de uma democratização material alcançada.

Enquanto os índios recolhem os corpos de dezenas de assassinados a bala, seus carrascos materiais e morais defendem que essas ações foram para “defender a democracia”. Na verdade, eles são conscientes de que o fazem para recuperar e proteger seus privilégios de casta, a força dos seus sobrenomes.

O ódio racial só pode destruir, não é um horizonte, não é mais que uma primitiva vingança de uma classe histórica e moralmente decadente, que demonstra que, por trás de cada medíocre liberal, se oculta um consumado golpista.

Álvaro García Linera

*Publicado originalmente em Página/12 | Tradução de Victor Farinelli para Carta Maior