Sempre foi estranho (e ultrajante) ter bases militares americanas batizadas em homenagem a traidores – como generais confederados que se rebelaram contra a União para defender a escravidão. E os líderes militares parecem dispostos a mudar os nomes dessas bases. Mas Trump se recusa.

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A ideia de Trump de honrar a liberdade é salvaguardar os nomes dos líderes confederados que defendiam a escravidão (Doug Mills/The New York Times)Créditos da foto: A ideia de Trump de honrar a liberdade é salvaguardar os nomes dos líderes confederados que defendiam a escravidão (Doug Mills/The New York Times)

Por que adotar essa posição em um momento em que os americanos brancos finalmente parecem reconhecer a injustiça que os afro-americanos enfrentam sistematicamente, e quando o apoio ao movimento Black Lives Matter só cresce? O mais inteligente, certamente, seria imitar grande parte das corporações americanas: fazer alguns gestos fáceis em favor da justiça social sem mudar nada fundamental. Vejam bem, até a NASCAR anunciou que vai proibir a bandeira confederada em seus eventos. E rebatizar bases militares seria algo muito barato.

Mas Trump, evidentemente, não consegue fazer nem mesmo uma demonstração simbólica de empatia. E tentar entender sua incapacidade ajuda a explicar o que é o Trumpismo – e, na realidade, o conservadorismo moderno como um todo.

O próprio Trump diz que se trata de honrar “uma história de conquista, vitória e liberdade”. É mesmo?

Essas bases homenageiam homens que defendiam a escravidão, o oposto da liberdade; e, por acaso, duas das maiores bases têm nomes de generais famosos não por vitórias, mas por derrotas. Bragg, cujo exército sofreu uma derrota épica em Chattanooga, foi um dos generais menos respeitados da Guerra Civil. John Bell Hood desperdiçou as vidas de seus homens em ataques fúteis em Atlanta e Franklin, e o que restava de seu exército foi aniquilado em seguida em Nashville.

Trump, obviamente, não sabe nada disso. Mas por que, afinal, um cara que cresceu no Queens se preocuparia com a tradição confederada?

A resposta é que Trump, e a maior parte de seu partido, são reacionários. Ou seja, como explica o teórico político Corey Robin, são motivados, acima de tudo, por “um desejo de resistir à libertação das populações marginalizadas e sem poder”. E a iconografia confederada se tornou um símbolo da reação nos EUA.

Isso explica por que alguns republicanos no Maine se opuseram a transformar uma música sobre o 20º Maine – o regimento de voluntários cuja heroica defesa de Little Round Top teve um papel crucial na batalha de Gettysburg – em música oficial do estado. Seria ofensivo, disseram, “dizer que somos melhores do que o sul”. Hmm, mas o sul defendia a escravidão.

O impulso reacionário também explica, creio, por que alguns homens brancos privilegiados, desde o editor do influente Journal of Political Economy até o (agora ex) diretor do CrossFit, não conseguiram controlar explosões de raiva autodestrutivas em que atacavam os protestos do movimento Black Lives Matter.

Afinal, do ponto de vista de um reacionário, as últimas três semanas foram um pesadelo. Pessoas marginalizadas “que deveriam saber seu lugar” não estão apenas se levantando e exigindo justiça, mas estão vencendo, por ampla vantagem, a batalha pela opinião pública. Não é assim que as coisas deveriam funcionar!

Uma resposta a este pesadelo do reacionário tem sido a negação. Trump continua tuitando “LEI E ORDEM!” como se repetindo a frase mágica muitas vezes pudesse fazer o relógio voltar para 1968. A campanha de Trump, reagindo a uma pesquisa da CNN desfavorável, em vez de levar em conta sua mensagem, exigiu que a rede retratasse a pesquisa e pedisse desculpas.

Outra resposta tem sido dar asas às teorias da conspiração. À direita, é dado como certo que as manifestações populares de massa foram orquestradas por radicais antifa, embora não haja nenhuma evidência nesse sentido. E Trump, como se sabe, sugeriu que um homem de 75 anos de idade que foi empurrado pela polícia – todos vimos o vídeo dele sangrando na calçada – era um provocador antifa, que de alguma forma teria armado seu próprio ataque.

O mais assustador, no entanto, tem sido o desejo palpável de figuras poderosas da direita – e não apenas Trump – de encontrar uma maneira de enfrentar os protestos do Black Lives Matter com violência do estado.

Em qualquer avaliação racional, nunca fez sentido pedir uma resposta militar a protestos esmagadoramente pacíficos, apenas arranhados por uma pequena quantidade de saques oportunistas. Os direitistas realmente acreditam em suas palavras quando dizem que estamos acossados por “hordas de cretinos violentos“? Duvido.

Para os reacionários, no entanto, o horror da situação não é a possibilidade de os protestos se tornarem violentos. É o fato de os protestos estarem acontecendo, simplesmente.

E é por isso que pessoas como Trump e Tom Cotton estão ávidos por recorrer às forças armadas. Eles não estão preocupados em manter a paz; se isso importasse para eles, teriam reagido duramente ao espetáculo de direitistas armados ameaçando a Assembleia Legislativa do Michigan. Em vez disso, Trump manifestou apoio pelo Twitter.

Não, os reacionários dos EUA não querem lei e ordem; querem uma desculpa para esmagar os protestos por justiça social com ameaças de uso da força.

Até o momento, pelo menos, os reacionários americanos não conseguiram realizar seu desejo. Governadores, prefeitos e, não menos importante, os militares deixaram claro que não querem ser parte de uma repressão brutal.

Mas não deem os reacionários por vencidos. Eles continuam extremamente perigosos e se tornarão ainda mais perigosos se, como parece cada vez mais provável, Trump se vir diante da possibilidade de uma derrota eleitoral.

Paul Krugman  @PaulKrugman

*Publicado originalmente em ‘The New York Times‘ | Tradução de Clarisse Meireles para Carta Maior