Apontando para violações dos direitos humanos conduzidas pelo Talibã, falcões de guerra dos EUA queriam estar no Afeganistão. De alguma maneira, eles parecem ter esquecido que o sadismo e a imprudência dessas tropas foram os motivos pelos quais o Talibã voltou com tudo.

 

26/08/2021 07:39

Soldados dos EUA na Base Aérea de Bagram, ao norte de Cabul, Afeganistão, 2002. (Robert Nickelsberg/Getty Images)Créditos da foto: Soldados dos EUA na Base Aérea de Bagram, ao norte de Cabul, Afeganistão, 2002. (Robert Nickelsberg/Getty Images)

 


A rápida tomada do Afeganistão pelo Talibã transmitiu cenas horríveis e surpreendentes na nossa consciência: trabalhadores do governo e jornalistas se escondendo enquanto as forças do Talibã vasculhavam casas; mulheres sendo forçadas a se cobrirem sob a mira de armas; uma multidão de milhares desesperada acampando no aeroporto de Cabul, desesperados para fugir; multidões perseguindo e se agarrando nos aviões enquanto decolavam, algumas pessoas caindo do céu logo depois. Com o Talibã tomando a frente do comando do país e os medos generalizados de uma onda de violações aos direitos humanos, o apoio à saída dos EUA, que já teve maioria, caiu para 49%.

Falcões de guerra estadunidenses não perderam tempo para apontar essa e outras cenas para argumentar a favor de uma nova invasão dos EUA. “O status quo de duas semanas atrás era bem melhor do que o que está por vir”, escreveu Eli Lake, argumentando que “os EUA deveriam manter algumas mil tropas que evitaram as atrocidades que estão agora se desdobrando”. Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores, também apontou para a peleja das mulheres afegãs e das crianças e daqueles que são ameaçados por represálias do Talibã, argumentando que o que veio antes “era bem mais preferível do que a alternativa que está agora tomando o poder”, e que “o que importa na política estrangeira não é o que você consegue conquistar, mas sim o que consegue evitar”. Explicando por que havia se oposto à retirada, o deputado Jim Langevin (Democratas – RI), argumentou que as tropas estadunidenses tinham “lutado pelos direitos humanos, obstruindo a ideologia repressiva do Talibã…e impediram uma catástrofe humana”, ao passo que “as consequências pela nossa decisão de deixar o Afeganistão estão, agora, evidentes”.

Mas se os direitos humanos serão utilizados como motivo para uma mudança de regime no Afeganistão – apenas dias após o vergonhoso fracasso após 20 anos – um exemplo de honestidade intelectual seria reconhecer que as violações aos direitos humanos estavam a todo vapor bem antes da saída das tropas estadunidenses, e que eram elas quem estavam conduzindo essas violações.

Morte vinda de cima e de baixo

É válido lembrar que os EUA estão atualmente sob investigação pelo Tribunal Criminal Internacional, na qual promotores dizem ter evidências de que tropas estadunidenses e a CIA “cometeram atos de tortura, tratamento cruel, abusos de dignidade pessoal, estupro e violência sexual” contra afegãos detidos. Boa parte disso está alinhada com as típicas histórias que ouvimos sobre a Baía de Guantánamo, mas foi além, incluindo espancamento de homens nos testículos, e “alimentação anal” forçada em homens que estavam em greve de fome e que foram tão duras que causaram em um detido “hemorroidas crônicas, fissura anal e prolapso anal sintomático”.

Esses tipos de atrocidades foram conduzidas por forças estadunidenses e seus aliados afegãos desde o início da invasão, como foi compilado pelo “Human Rights Watch”, a principal organização liberal de direitos humanos que, dentro do mundo dos direitos humanos, tem sido criticada por ser muito amigável com Washington.

Em 2004, a organização detalhou como tropas da coalizão prendiam – fortemente armadas – aldeões completamente inocentes e seus filhos, no processo, colocando em risco e até mesmo espancando, insultando e os matando – até mesmo roubando e destruindo sua propriedade – antes de enviá-los para um tratamento estilo Guantánamo; por dias e semanas suas famílias não tinham ideia de onde estavam. Em uma sociedade onde a inviolabilidade do lar de um homem é uma questão tradicional de honra, tais incursões – particularmente quando conduzidas com cachorros ou quando mulheres estão presentes – foram tidas como abusos especialmente graves.

A escala de morte de civis, deliberadamente não fiscalizadas, foi evidenciada pela divulgação de 2010 do WikiLeaks sobre os registros da guerra do Afeganistão, que detalhou as matanças e os ferimentos feitos pelas forças da coalizão contra civis afegãos de 2004 a 2009. Os registros salientaram momentos de imprudência chocante, como quando uma “bomba inteligente” não funcionou corretamente e pousou em um vilarejo, causando 19 mortes; ou quando tropas polonesas violaram protocolos e “caíram matando” em um vilarejo onde um veículo militar havia sido atacado, matando seis civis, incluindo uma mulher grávida e três crianças. (“Se você vir um cara segurando uma arma, você faz chover nele!” um polonês lembrou de um sargento estadunidense falando para seus homens, sobre uma população amplamente rural na qual muitos costumam carregar rifles.)

Episódios como esse eram lamentavelmente regulares ao longo da guerra: 45 mortos em um ataque aéreo aqui, 30 mortos em um ataque aéreo ali; outros 45 mortos em um ataque a um laboratório de drogas do Talibã; 47 outros mortos quando um casamento foi bombardeado. Todos foram justificados como medidas que miravam no Talibã; cada um matou um número impressionante de crianças, além de homens e mulheres inocentes.

Embora não tenham matado tanto quanto várias forças antigoverno (incluindo o Talibã e o EI) juntas, o exército dos EUA, seus aliados, e o governo afegão mataram em média 582 civis ao ano de 2007 a 2016, antes de subir para mais de 1.100 entre 2017 e 2019. Desde 2016, 40% das mortes por ataques aéreos são crianças.

Em um incidente infame, forças afegãs e estadunidenses atacaram um hospital do Médicos Sem Fronteiras, destruindo seu prédio principal e matando 42 pacientes e funcionários, mesmo tendo recebido coordenadas via GPS anteriormente e tendo recebido avisos de funcionários do hospital enquanto estavam sob ataque. Foi um crime de guerra nada ambíguo, e que é possivelmente o motivo pelo qual Washington proibiu qualquer investigação independente, independentemente das explicações oferecidas. Eventualmente, ambas as forças militares admitiram publicamente terem cometido a atrocidade de propósito, supostamente porque o Talibã havia usado o hospital como fachada para conduzir ataques.

Outra parte do custo de manter o Talibã longe foi que o Afeganistão se tornou o país mais bombardeado por drones no mundo. A população civil ficou devastada por estresse pós-traumático e outras questões psicológicas, e as crianças até começaram a temer brincar do lado de fora das suas casas, graças à real possibilidade de que a morte poderia cair do céu a qualquer momento sobre elas e quem amam.

Diversas vezes, operadores de drones acidentalmente matavam afegãos inocentes em ataques que não eram nada cirúrgicos, ou os confundiam com militantes, erros ocultados pela prática do governo de contar todos os homens em idade militar a quilômetros do ataque como inimigos. “Somos como formigas para eles”, reclamou um homem que perdeu diversos membros de sua família para ataques de drones.

Como explicou Daniel Hale esse ano para o juiz que o prendeu, foi testemunhar em primeira mão o assassinato por drones indiscriminado de inocentes conduzido pelo exército dos EUA que o levou a se tornar um denunciante: um grupo de fazendeiros armados tomando chá, explodidos pelo crime de estarem na companhia de um membro do Talibã; a filha muito jovem de um suspeito, despedaçada pelos estilhaços de um ataque cuja intenção era evitar sua fuga; contratantes do exército se entretendo ao assistir imagens de antigos ataques aéreos, fazendo piada das mortes de homens que nunca conheceram.

“Usando a analogia do sniper, com sua mira voltada a uma multidão despretensiosa, o presidente comparou o uso de drones com as tentativas de evitar que um aspirante a terrorista conduza seu plano maligno”, escreveu Hale. “Mas conforme eu fui entendendo, a multidão despretensiosa era de pessoas que viviam com medo dos drones nos céus e o sniper no cenário era eu.”

Assassinato na noite

A divulgação de 2010 do WikiLeaks revelou algo mais pela primeira vez: uma rachadura, times de forças especiais que conduziram missões secretas de “morte ou captura” que envolviam surpreender seus alvos no meio da noite, e que frequentemente terminavam com eles assassinando civis erroneamente, crianças e até mesmo policiais afegãos.

Com os generais Stanley McChrystal e então David Petraeus — ambos depois desgraçados, pelos motivos errados – tais operações das forças especiais foram intensificadas por ordens de magnitude e vieram a definir a presença estadunidense no Afeganistão, com desaparecimentos regulares e casos de erros fatais de identificação. Embora uma contagem exata de civis mortos seja quase impossível, em um período no qual forças internacionais estavam realizando 20 incursões noturnas por noite, uma análise estimou mais de 1.500 civis assassinados.

Não que todos esses tenham sido acidentes. Como nos lembra a série de perdões concedidos por Trump a criminosos de guerra, alguns soldados enviados ao país eram verdadeiros sadistas que gostavam de torturar e matar só para rirem depois. Uma das maiores e mais recentes histórias de guerra, com novos relatos surgindo juntamente com essa saída caótica, foi a divulgação de uma série de crimes hediondos praticados pelas forças especiais australianas, produto de uma “cultura deturpada” entre eles, descobriu um relatório.

Membros dessas forças disseram ao Guardian que “o que quer que façamos… posso te dizer que os britânicos e os estadunidenses são bem, bem piores”, e que as forças especiais da coalizão tinham absorvido a cultura sádica dos seus parceiros estadunidenses. É aparentemente tão ruim entre soldados da elite estadunidense que, na realidade, o líder das forças especiais da marinha dos EUA declarou que “temos um problema”, e o inspetor geral do Pentágono iniciou um inquérito sobre crimes de guerra cometidos.

E se não eram as tropas conduzindo atrocidades, eram os locais com quem trabalhavam. O governo dos EUA apoiou e empoderou chefes de guerra abusivos (e frequentemente ultraconservadores) ao longo da guerra. Foi a união do útil ao agradável para costurar o país e encerrar o Talibã, mas uma união que também zombou da suposta preocupação de Washington pelos direitos humanos e das mulheres.

Enquanto isso, a polícia afegã, o exército e as forças especiais que o exército dos EUA treinou para apoiar o governo que havia colapsado – algumas eram simplesmente milícias armadas com um distintivo e um nome diferente – regularmente conduziam atrocidades contra seu próprio povo, compiladas anualmente pela ONU. Entre elas estavam abusos sexuais de jovem meninos e meninas, que as tropas estadunidenses eram obrigadas a ignorar.

“O motivo pelo qual viemos para cá é porque ouvíamos as coisas terríveis que o Talibã estava fazendo com o povo, como estavam ceifando os direitos humanos”, disse um capitão das forças especiais ao New York Times após ficar sabendo dos abusos sexuais. “Mas estávamos colocando pessoas no poder que fariam coisas bem piores do que o Talibã fazia – esses eram argumentos que os aldeões mais velhos me contavam.”

Apagando o fogo com gasolina

O fato de que todo esse histórico repentinamente foi esquecido justamente quando o Talibã retomou o país é especialmente irônico tendo em vista que teve um papel crucial em seu ressurgimento.

Não surpreendentemente, muitos afegãos comuns não estavam felizes com governo corrupto e abusivo que os invasores estrangeiros ajudaram a estabelecer, nem com os explícitos assassinatos e abusos dos seus amigos e familiares. Não era incomum vermos protestos raivosos, repletos de atos de violências e gritos de “Morte à América” após os massacres aéreos “acidentais” dos EUA.

Os protestos também ocorreram após incursões noturnas fatais conduzidas pelos EUA, que se tornaram um ponto importante entre Cabul e Washington durante o mandato de Obama, especialmente após um deles matar o primo do presidente afegão. “Essas pessoas vêm no meio da noite. Elas invadem casas. Trazem cachorros. Arrastam as mulheres para fora. Isso é uma ofensa no Islã”, um homem afegão disse à PBS em 2011. “Se o Talibã estivesse escondido na minha casa, eu não te diria. Eles não desonram nossas mulheres, mas seus amigos, sim”, disse outro.

Como disse a advogada de direitos humanos Erica Gaston em 2011, “incursões noturnas são provavelmente a maior causa de indignação entre afegãos. Elas são normalmente tão inflamatórias que, se uma incursão causar uma morte de civil, todos na região ficarão sabendo”.

Isso foi compreendido em outros círculos oficiais, também. “[A Missão de Assistência da ONU no Afeganistão] observou que abusos feitos pela polícia local afegã – que incluíam extorsão, ameaças e intimidação – “parecem ter aumentado o apoio ao Talibã em alguns distritos, com comunidades relatando que viam cada vez mais o Talibã como o ‘menos pior’”, declarou um relatório da ONU.

Um ex-oficial do serviço estrangeiro dos EUA admitiu que enquanto comandantes do Talibã assassinados era rapidamente e facilmente substituídos, “quanto mais buscas fizermos, mais chatearemos e incomodaremos a população afegã, e mais apoio eles terão”. O próprio McChrystal chegou à conclusão de que as incursões noturnas “dão credibilidade aos insurgentes que podem explorar nossas insensibilidades em uma campanha de persuasão” e tardiamente tentou pôr fim a elas, somente para o seu sucessor impulsioná-las novamente.

A imprudência e os abusos das forças governamentais estrangeiras e afegãs, sem mencionar a corrupção do governo para o qual estavam trabalhando, criaram um ressentimento disseminado que o Talibã utilizou para capitalizar, mesmo com seu próprio histórico horrendo de violações aos direitos humanos. Toda vez que o exército dos EUA incinerava quatorze membros de uma família, matava mulheres grávidas e depois mentia sobre, ou aterrorizava e desrespeitava aldeões afegãos em incursões nas suas casas, o argumento do Talibã como o “menos pior” se tornava mais forte.

Reclamar sobre a saída dos EUA apontando para a tomada do país pelo Talibã, em outras palavras, é como dizer que um incêndio ficou fora de controle porque você não colocou gasolina suficiente.

Um esquecimento conveniente

A política estadunidense está passando agora por um de seus regulares episódios de amnésia coletiva, deixando os favoráveis à guerra pintarem as quase duas décadas antes da semana passada como um período de lei e ordem relativos e de respeito aos direitos humanos, particularmente aos das mulheres. Fazer isso significa ignorar um dos principais motivos pelos quais afegãos e ativistas antiguerra estavam pedindo para os EUA saírem do país para início de conversa: abusos de autoridade das forças que lutavam contra o Talibã.

O Talibã é horrível, e não há falta de histórias doentias sobre seu comando. Mas muitos afegãos já fizeram esse cálculo e decidiram que, independentemente da depravação do grupo, os horrores regularmente experienciados com a ocupação estrangeira e nas mãos do governo corrupto que os ocupantes saudavam, eram tão insuportáveis, que prefeririam tentar com o Talibã – é assim que chegamos aqui. O surgimento atual da cobertura midiática focou inteiramente nos abusos do Talibã para nos fazer esquecer sobre isso.

Infelizmente, não há boas opções para o povo afegão; somente uma escolha entre duas variedades de desgoverno violento. Talvez se as forças estadunidenses tivessem conduzido suas próprias ações de modo diferente, não teriam levado tantos afegãos a terem que escolher se ficariam melhor com a versão que está agora no poder. Mas se isso sequer estava em jogo, é tarde demais para mudar agora.

Por Branko Marcetic

*Publicado originalmente em ‘Jacobin‘ | Tradução de Isabela Palhares para o Carta Maior