Impulsionadora do programa Radio Prometea, integrante da coordenadora do Movimento Galego de Saúde Mental, e ativista através doutros espaços, Paula Tomé é umha voz referencial quanto às contradiçons -e luitas- que se abrem no sistema sanitário e no construto da saúde mental, quando enfrentados com a natureza social e estrutural dos mal-estares. Disto, nomeadamente da ‘patologizaçom das desigualdades’ e violências que as mulheres padecem no sistema patriarcal, falava no 30 de junho na A. C. Alexandre Bóveda, numha palestra disponível na íntegra nas redes sociais da associaçom.

 

—————————

 

Na palestra definiche-te como ‘louca empoderada’. Que significa para ti reapropriar-te do termo ‘louca’ e que significa a nível político esse empoderamento sobre a própria saúde mental?

‘Louca empoderada’ é umha denominaçom que está inspirada nas práticas do movimento queer, quando recolhiam, davam volta, parodiavam as palavras que eram botadas sobre elas como insultos e as faziam ferramenta para se reivindicarem em positivo. Era a maneira de enfrentar essa violência e converté-la noutra cousa, de fazerem-se donos e donas dela.

Nesta sociedade, quando alguém fai algumha cousa estranha, fora do comum, é agressivo,… asinha se desbota: ‘este está louco’, ‘está como umha cabra’,… Som maneiras de nos estigmatizar. Colher esse ‘louca’ e dar-lhe volta é um modo de usá-lo para reivindicar a tua maneira de ser, a tua pessoa completa, abraçando a vulnerabilidade que implica.

Historicamente, psiquiatrizar a dissidência foi um dos mecanismos de controlo aplicados às mulheres, quando nom cumpriam os roles e expetativas do patriarcado. Achas que isto continua vigente?

As maiores consumidoras de antidepressivos som as mulheres, mui por cima dos homens. O que acontece? As mulheres deprimem porque biologicamente som mais propensas a deprimirem? Ou porque há umha quantidade de violências e presons sobre elas, que levam aos baixons anímicos, a nom poderem com todo, a terem estresse…? O que passa com essa sobrecarga, é que, a falta de outras ferramentas, acaba-se por ir ao psiquiatra, no mínimo porque cumpre umha baixa laboral para descansar de todo isso. E a baixa laboral leva aparelhados uns antidepressivos, e assim temos umha moreia de mulheres a consumir antidepressivos. Hoje nom é tanto umha maneira de silenciá-las, de tirá-las do meio, mas umha espécie de paliativo, de retirar e dar descanso para despois colocá-las de novo a dá-lo todo.

Quanto à representaçom nos meios, é diferente a que se fai de homens e de mulheres com diversidades? Ou o estigma pesa do mesmo modo?

Penso que pesa de umha forma similar: consideram-se pessoas pouco produtivas, pouco partícipes da sociedade, sem tanto valor ou interesse; isto, tanto mulheres como homens com incapacidades. O que se passa é que logo vam operar em simultâneo as condutas machistas -nos homens em maior medida-; que existem umha série de eixos de privilégio que nuns aspetos vam situar-che como pessoa com privilégio, noutros como pessoa sem privilégio… e a interseçom entre estes vai gerar o lugar em que é colocada cada pessoa.

Respeito da patologizaçom, umha concretizaçom mui presente, e controversa dentro do movimento feminista, é a das mulheres transexuais. De que maneira essa patologizaçom opera como funcional ao sistema patriarcal?

Penso que a patologizaçom o que fai é castigar, assinalar, incidir em que sair do teu suposto ‘sexo biológico’ é algo que nom é normal; e que portanto, se nom é normal, é algo enfermo, algo que tem de ser tratado. Porque o normal, o normal segundo o construto de normalidade que é maioritário, é ficares como nasces e como se che categorizou; e nom andar a questionar, nom dizer que te sentes doutra maneira, que queres acomodar-te a como te sentes e que te considerem assim as demais pessoas também…

Quais fitos ou avanços achas que há, a nível galego e estatal, nas luitas das pessoas com diagnóstico psiquiátrico?

Boa pergunta… Pois, remontando até 2011 ou 2012, daquela eu procurava pessoas com as que me juntar para fazermos algo semelhante a Radio Nicosia, um programa de rádio levado por pessoas com diagnóstico psiquiátrico. Despois de um ano ou assim conseguimos botar a andar Radio Prometea, um programa na Cuac FM [da Corunha]. Esse programa, em verdade, foi bastante importante. Nom só para as pessoas que o figemos, que desfrutamos de umha etapa mui especial nas nossas vidas… Também o foi para mais, para outras pessoas.

Desde a primeira emissom procurámos centrar na visom da luita das pessoas diagnosticadas como umha luita de direitos civis; com as entrevistas aproximamo-nos de coletivos doutras partes do estado; mas também procurámos chegar a todos os pontos de vista, entrevistando profissionais -mesmo da farmácia-. No final, tratámos umha moreia de temas.

Foi um programa autogerido, levado por nós, por pessoas com diagnóstico psiquiátrico. Sem tutela profissional ou educadoras sociais, sem ser ‘da associaçom nom-sei-quê, que trabalha com doentes mentais e os leva fazer um programa’; éramos um grupo de pessoas que ia à rádio fazer um programa como se fazia qualquer outro ali. E isso foi bastante rompedor.

Já a nível estatal, na última década véu dar-se um processo em que nas associaçons de familiares as mesmas pessoas com diagnóstico psiquiátrico começárom a reivindicar certo peso, com um papel mais ativo, nas diretivas,… Nom foi fácil, nom foi possível em muitos casos, e muitas pessoas organizárom-se pola sua conta; já nom associaçons de familiares, mas associaçons autónomas. Ou coletivos mais informais, como os grupos de apoio mútuo ou os grupos de escuita de vozes. Neste sentido, o Congresso Internacional da Rede de Escuita de Vozes de 2015 foi celebrado no estado espanhol, pola primeira vez. E motivou a apariçom pola península de grupos de escuita de vozes (que som como grupos de apoio mútuo mas focados para esse fenómeno específico).

Na Galiza existe o Movimento Galego de Saúde Mental. Eu fago parte da coordenadora, mas até há una anos nom havia nessa coordenadora nengumha pessoa diagnosticada. Era mais umha rede de associaçons de profissionais da saúde mental, vinculadas à defensa do público… E vinhérom integrar umha pessoa diagnosticada na coordenadora, com a vista posta em trabalhar luitas como a que se dá contra as contençons mecánicas, ou outras específicas. E ver toda a problemática para além das e dos profissionais defendendo os seus direitos laborais, ou as e os profissionais defendendo os nossos direitos; senom nós próprias a defender-nos.

Iria Zas

GalizaLivre