Medidas para combater a pandemia, além de não chegar a todas as pessoas, deixa fora os assentamentos originários, que representam 48,3% da população.

 

 

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Os povos indígenas da Bolívia são os mais vulneráveis ante a pandemia da Covid-19, já que as estratégias do governo de fato para evitar a propagação da enfermidade esqueceram a prevenção para esse setor.

Frente à complexa situação epidemiológica no país sul-americano, o regime da autoproclamada presidenta Jeanine Áñez adota medidas para combater a pandemia que, além de não chegar a todas as pessoas, deixa fora os assentamentos originários, que representam 48,3% da população.

O presidente da Central de Povos Étnicos Mojeños de Beni, Héctor Tamo, revelou no princípio do mês uma carta enviada a Áñez em que exigem a coordenação de ações preventivas nessas localidades.

“Exigimos que se cumpra o que escrevemos em nosso documento, porque os povos indígenas estamos como se nos tivessem esquecido, estamos à mercê de qualquer doença que possa vir e mais ainda deste vírus que chegou a nosso país”, disse Tamo.

O Centro de Estudos Jurídicos e Investigação Social e a Organização de Apoio Legal e Social ressaltaram a necessidade de trabalhar em conjunto com as instâncias de representação indígena para a gestão de ajuda humanitária.

Também cobram uma regulamentação especial para garantir a distribuição da cesta familiar às comunidades, o estabelecimento de canais de comunicação entre os centros de saúde para monitorar possíveis enfermos e a emissão de mensagens informativas em línguas indígenas.

Interculturalidade, outra reivindicação no combate à Covid-19

A Subcentral do Território Indígena e Parque Nacional Isiboro-Securé (Tipnis) destacou o enfoque intercultural a considerar pelo Executivo para implementar os planos de contingência sanitária visando garantir a segurança alimentar das 64 comunidades que integram o território.

Atenção à saúde, equipamento e medicamentos em todas as comunidades, cesta familiar suficiente, assistência social, plano de nutrição materno-infantil e informação clara, oportuna e verdadeira foram as exigências transmitidas à mandatária de fato.

O Território Indígena e Parque Nacional Isiboro-Securé, localizado entre a planície beniana e as serras subandinas de Cochabamba, é declarado área protegida e é habitado por diferentes comunidades de etnias originárias do país.

Por outro lado, a Assembleia do Povo Guarani solicitou também atenção imediata e prioritária com medicamentos e primeiros auxílios, assim como a entrega de víveres para as famílias assentadas nos departamentos de Chuquisaca, Santa Cruz e Tarija.

Autoridades comunitárias de Charagua Iyambae (Chaco) levantaram suas vozes em favor das comunidades dispersas e localizadas em territórios de difícil acesso, a viabilização dos recursos do Fundo de Desenvolvimento Indígena e de ajuda internacional para atenção a essas famílias.

A emergência desatendida no departamento de La Paz

A Central de Povos Indígenas de La Paz declarou-se em emergência pelo novo coronavírus no princípio de abril e, por meio de uma nota enviada a Jeanine Áñez, solicitou ajuda humanitária imediata.

A assistência em áreas de saúde, segurança alimentar e economia de uma forma oportuna e efetiva para chegar às famílias mais afetadas são algumas das demandas feitas por esta organização.

O documento solicitou o ingresso de brigadas médicas por vias terrestres e fluviais às comunidades, o abastecimento de insumos médicos, a dotação de cestas básicas para as 10 mil famílias afiliadas, assim como a condonação total de pagamento dos serviços básicos para idosos, viúvas e pessoas enfermas e/ou com deficiências.

E ainda, ampliar os períodos de pausa para o pagamento de empréstimos bancários e impulsionar os projetos destinados à adequação dos povos indígenas a contingências sanitárias.

Múltiplas são as reivindicações dos povos originários da Bolívia para evitar a propagação da Covid-19 com o acompanhamento governamental e, a mais de 25 dias do aparecimento no país do novo coronavírus, esse setor populacional continua desprotegido.

Um comunicado do Centro de Estudos Jurídicos e Investigação Social e da Organização de Apoio Legal e Social denunciou o fato, lamentando ao mesmo tempo que nenhuma das medidas adotadas até o momento considere a realidade dos povos originários.

“Sua condição de população empobrecida e marginalizada tem a ver com o limitado acesso aos centros de saúde, insuficientes níveis de nutrição, mudança em seus padrões alimentícios que, por sua vez, provocam enfermidades de base que os caracterizam como um grupo de risco” indicou o comunicado.

A tradução das mensagens do Ministério da Saúde para idiomas nativos como aymara, quechua, mojeño, guaraní, ayoreo, yuqui, sirionó, esse-ejja e t”simane foi novamente solicitado.

As populações indígenas mais numerosas na nação andino-amazônica são os quéchuas (1,2 milhões) e aimaras (1,1 milhões), segundo o censo de população de 2012.

No entanto, Alex Villca, da Coordenadoria Nacional em Defesa de Territórios Indígenas Originários Camponeses e Áreas Protegidas na Bolívia, vê além da pandemia, os efeitos a longo prazo.

“Haverá um buraco grande na economia global o que pode vir a ser uma desculpa para que se arremeta mais contra a natureza, os territórios indígenas e as áreas naturais protegidas onde eles estão”, enfatizou Villca.

A seu ver, a distração midiática com o novo coronavírus não deixa espaço para temas como o assassinato de líderes sociais na Colômbia, vários deles indígenas, e o silêncio será maior que o habitual.

O tempo passa e novos contágios na Bolívia aparecem, mas as medidas governamentais, muitas delas criticadas por violar os direitos humanos e a Constituição Política do Estado, mas não consideram os povos indígenas.

Até o momento não há informações sobre enfermos deste grupo populacional, um esquecimento do governo de fato que a história não perdoará.

Naa Romero Rams – Prensa Latina

Tradução: Ana Corbisier para Ópera Mundi